terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

William Palha Dias

Estava hoje à tardinha no casarão de Genu Moraes, ela tomando aulas de computação com Denise, um amor de professora, quando o telefone tocou. Era uma amiga avisando que acabara de falecer, em sua residência, na Rua Rio Grande do Sul, Bairro Piçarra, zona Sul de Teresina, aos 93 anos de idade, o advogado, jornalista e escritor William Palha Dias. Há três anos ele sofreu um acidente vascular cerebral, que complicou seu quadro de saúde posteriormente. Nesta terça-feira, uma crise asmática, seguida de uma parada cardíaca, deu-lhe o fim, deixando seis filhos, entre eles o advogado Sales Palha Dias. Entre os netos, o cantor Saulo Dugado.

Vida e obra - William Palha Dias, filho de Claudionor Augusto Dias e Leonor Palha Dias, nasceu em Caracol, Sul do Piauí, em 17 de setembro de 1918. Estudou desde pequeno no seu estado de origem, o Piauí, tendo, inicialmente, sido autodidata. Bacharel em Direito, Juiz de Direito aposentado. Jornalista profissional, foi um dos fundadores da antiga Associação Profissional dos Jornalistas do Piauí, transformada em sindicato da classe. Ficcionista e historiador. Além da Academia Piauiense de Letras (cadeira de número 4), o escritor fazia parte do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí, Instituto Histórico de Oeiras, da Associação Piauiense de Imprensa, da União Brasileira de Escritores no Piauí, da Academia de Letras da Magistratura e do Sindicato dos Escritores no Estado do Piauí. Membro do Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil, no Piauí. Ex-funcionário d o Departamento de Estradas de Rodagem do Piauí, onde foi assessor técnico. Cidadão honorário de Cristino Castro, Pedro II, Regeneração e Teresina. Sua primeira obra foi lançada em 1959 (Caracol na História do Piauí). Depois disso vieram Endoema (1965); Vila de Jurema (1973); ...E o Sibarita casou... (1978); Os Irmãos Quixaba (1979); Mulher Dama, Sinhá Madama (1982); O Dia-a-Dia de Todos os Dias (1983); Alcorão Rubro (1994); Memorial de Um Lutador Obstinado (1997); Flagrantes do Quotidiano (1998); Papo-Amarelo – Drástica Solução (2000); São Raimundo Nonato - de Distrito-Freguesia a Vila (2001) e Marcas do Destino (2003). Adotado em vestibulares no Piauí, Os Irmãos Quixaba virou um filme curta-metragem em 2004.

Luto - Genu Moraes, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do Maranhão e da Academia de Ciências do Piauí, disse que o Piauí ficou mais pobre intelectualmente com a partida de William Palha Dias, um grande ficcionista e historiador de escol. O professor Cineas Santos, que também nasceu em Caracol, lamentou o falecimento do escritor. "William Palha Dias, meu conterrâneo de Caracol, era um ficcionista, um historiador muito preocupado com a sua aldeia. Além de escritor, foi um magistrado correto e honrado. É uma grande perda para todos nós." O presidente da Academia Piauiense de Letras, escritor e advogado Reginaldo Miranda, disse que a Casa de Lucídio Freitas perdia um dos seus melhores quadros. Eu, Kenard Kruel, que privava da amizade de William Palha Dias, faço esse registro lembrando do verso de Da Costa e Silva: Saudade - asa de dor do pensamento.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Tempos de Leônidas Mello

Dilson Lages e Afonso Ligório.

Uma interpretação multifacetada de um dos governadores mais expressivos do Piauí. É isso o que os piauienses podem encontrar em Tempos de Leônidas Mello, do romancista, historiador e jornalista Afonso Ligório Pires de Carvalho, recentemente reeditado pela Editora da UFPI e disponível na Livraria Monsenhor Mello, no campus da UFPI. No livro, Afonso Ligório interpreta todas as nuances da trajetória política de Leônidas Mello - a vitoriosa carreira no magistério e na medicina, a ascensão política meteórica, as acusações de envolvimento nos incêndios de Teresina na década de 40, a aposentadoria de desembargadores, a queda e o chute que levou de Julinha Almeida ao deixar o Palácio de Karnak, em 1945. Um livro imperdível para quem quer conhecer um pouco mais a história de Leônidas Mello.

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Dílson Lages – O senhor escreveu Tempos de Leônidas Melo. O que pretendeu com esse ensaio? Afonso Ligório - Na realidade, eu pretendi resgatar a memória de Leônidas Melo, porque durante curto período, período inclusive logo posterior ao governo dele, houve uma preocupação um pouco precipitada sobre o governo dele. Apareciam apenas os defeitos; não aparecia aquilo que ele realmente tinha feito. Na verdade, Leônidas Melo era um homem integro, sério, um homem que tinha defeitos como os demais. Ele era um cidadão que nasceu em Barras e veio para Teresina fazer o ginásio. Aliás, passou 17 dias de viagem de Barras para Teresina a cavalo. Em Teresina, concluiu o curso secundário e foi estudar medicina. Tornou-se um grande medico. Depois, numa emergência política, foi sondado para ocupar uma secretaria de estado. Foi secretario e deu grande resultado. Foi diretor do Liceu e, também, com grande resultado. Como governador, a administração dele é coroada pela apresentação de algumas obras que se tornaram perenes e necessárias, por exemplo, o Hospital Getúlio Vargas. Quando Leônidas melo construiu o Hospital Getúlio Vargas, basta dizer que Teresina não tinha nenhum pronto socorro . Teresina, na realidade, em matéria de assistência médica, era uma cidade muito pobre. Ele construiu o majestoso hospital que foi equipado com tudo, tanto que chamou a atenção de todo o Brasil para essa iniciativa e Teresina muito deve a ele. O saudoso Clidenor Freitas disse que o Hospital Getúlio Vargas deveria se chamar hospital Leônidas Melo, porque na realidade quem pensou, quem fez aquela grande casa foi Leônidas Melo. Um dia, Leônidas, visitando obras do hospital em construção - e já quase concluído - encontrou uma quantidade enorme de material de construção que tinha sobrado. Ele, então, perguntou ao engenheiro: Com esse material pode-se construir um prédio? Vejam só, sobras de um hospital. Diante da resposta do engenheiro, Leônidas disse: “Pois bem. O senhor faça uma planta de um arquivo público e pode começar a obra”. O arquivo público é o atual arquivo, o prédio que foi construído. Ele construiu esse prédio com as sobras do material do Hospital Getúlio Vargas. Quer dizer, hoje, é difícil acontecer uma coisa dessas. Essa atitude de Leônidas Melo da uma dimensão da sua preocupação e, além do mais, da realidade que ele enfrentava num estado pobre como era o Piauí, em que não se podia fazer despesas desnecessárias. O prédio está ali junto a Rui Barbosa. É um prédio de dois andares de aspectos sóbrio e que teve uma grande serventia como biblioteca pública inicialmente e, depois, arquivo público. Por ai se vê que Leônidas Melo era um administrador e homem que tinha na mente a realidade do seu estado. Mas não foi somente isto que ele fez - sua administração é palmilhada de adiantadas providencias, por exemplo, a instalação de telefones automáticos. Teresina foi uma das primeiras cidades do Nordeste a ter telefone automático. Portanto, quando eu fiz o meu livro Tempos de Leônidas Melo, procurei homenagear Leônidas Melo. A primeira vez que eu o vi, na realidade, eu era ginasiano e entendi que devia pedir ao interventor, na época, uma ajuda para um jornal que eu queria fazer - o jornal se chamou O Autêntico. Eu tinha 14 anos. Fui aonde ele estava e pedi ao interventor uma ajuda. Ele me respondeu: “Mas você é um menino”. Insisti: “Eu sei, mas quero levar avante”. Ele não teve dúvidas, abriu a gaveta, puxou um cartão timbrado e mandou um bilhete para o diretor da Imprensa oficial, O sr Arthur Passos. Mandou um bilhete para ele, dizendo que atendesse ao portador no que fosse possível. Fiquei não apenas satisfeito, mas espantado com aquele gesto, porque quando se falava em Leônidas Melo aqui em Teresina, falava-se sempre em um ditador. Na realidade, eu não tinha visto esse ditador, tinha visto um homem compreensivo que me ajudou numa hora em que um estudante precisava de uma ajuda cultural e nós, então, fizemos um jornal na Imprensa Oficial.

Flora quer Corso no Calendário Nacional do País

A deputada estadual Flora Izabel (PT) apresentou nesta segunda-feira, dia 13, requerimento na Assembleia Legislativa em que pede ao ministro do Turismo Gastão Dias Vieira a inclusão do Corso do Zé Pereira de Teresina no calendário oficial de eventos nacionais, como já ocorre com outras festividades do pais.  A medida, além de ampliar a divulgação da imagem de Teresina e do Brasil para o mundo, vai contribuir com a geração de mais riquezas para Teresina. O Corso do Zé Pereira, que entrou para o Guinness Book no último sábado por realizar o maior desfile de carros alegóricos do mundo, foi tranquilo, bem organizado e reuniu mais de 150 mil pessoas. “A festa superou todas as expectativas. No setor econômico, os resultados foram muito positivos. Os pequenos comerciantes que instalaram ao lado da avenida Marechal Castelo Branco no dia do corso venderam todos os seus produtos. O prefeito Elmano Férrer, sua equipe e todos os teresinenses estão de parabéns pela organização e sucesso da festa. Por causa desta organização, as pessoas brincaram de forma tranquila, já que não houve ocorrência policial no percurso. Além disso, é preciso ressaltar a agilidade impressionante na área de limpeza pública. Logo que o evento terminou, a avenida foi rapidamente limpa”, disse a deputada, complementando que os levantamentos preliminares mostram que o Corso do Zé Pereira de Teresina é o único no mundo em termos de número de participantes e em termos de alegria e tranquilidade dos foliões. Segundo ela, as famílias levaram os filhos e fizeram uma festa exemplar. Para a deputada, o Corso, com o apoio do Ministério do Turismo, tende a crescer cada vez mais, a exemplo de outras festas, como o desfile do Galo da Madrugada, que é realizado em Recife (PE).

Casa da Mãe Joana

Passo pelo centro de Teresina, em frente ao velho prédio da Câmara de Teresina. Os camelôs tomaram conta de lá. Calcinhas e cuecas para todos os gostos. Virou Casa da Mãe Joana. Não faz muito tempo, Cineas Santos presidente da Fundação Cultural Monsenhor Chaves deu aos ventos da publicidade que o então prefeito Silvio Mendes havia aprovado projeto de abrigar ali o Museu da Imagem e do Som de Teresina. Saíram Silvio Mendes e Cineas Santos. Entraram Elmano Férrer (que era o vice-prefeito) e Laurenice França. Saiu Laurenice França da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Entrou Leonardo na Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Mas, na Prefeitura de Teresina tudo continua com antes nas terras de Abrantes. Só os camelôs que estão fazendo festa no velho prédio da Câmara de Teresina. Artistas e intelectuais anestesiados. Imprensa cada vez marrom. Povo dançando agora no maior Corso do mundo. Os políticos tirando promessas do nariz com suas remelas cada vez mais e mais. Soube que o prefeito Elmano Férrer esteve em Brasília e solicitou do Ministro do Trabalho (quem é o mais novo?) instalação de uma agência do Sistema Nacional de Empregos (Sine) no prédio onde funcionava a Câmara de Teresina. O Sistema Nacional de Emprego é um programa do Ministério do Trabalho e Emprego, criado por força do Decreto 76.403 de 08/10/78, coordenado nacionalmente pela Secretaria de Políticas de Empregos e Salário - SPES, tendo como meta a organização do mercado de trabalho em todos os Estados. A promessa do prefeito Elmano Férrer é instalar uma agência de procura e oferta de vagas de empregos. O espaço irá oferecer ainda capacitação profissional. A gestão do Sine municipal ficará a cargo das secretarias do Trabalho, Fundação Wall Ferraz e secretaria de Desenvolvimento Econômico. Ué! E a promessa do então prefeito Silvio Mendes daquilo virá o Museu da Imagem e do Som de Teresina!, virou pó? A turma ao redor da Prefeitura de Teresina é Crack nisso. Dona Genu Moraes, o prefeito Elmano Férrer quer acabar com o Colégio Eurípides de Aguiar (seu pai) e agora com o nem instalado Museu da Imagem e do Som de Teresina. Vamos pintar nossas caras e mostrar para o Alcaíde quem manda nessa terra de macunaímas! Alô, Pompílio Santos, Carlos Said, Dídimo de Castro, Garrincha, Alfredo Nunes, Themístocles Sampaio Pereira, Odon Alencar, Nazareno Araújo, Bruno dos Santos, José Elias Martins de Arêa Leão Castelo Branco Gayoso e Almendra Freitas, querem entrar nessa não? E ainda querem que eu volte de Tutóia, onde Deus fez sua morada, para viver aqui. Nunca, nunquinha, nem mortinha da silva, contista quase tarantular Emerson Araújo, das terras de Tuntum (MA).

Corso de Teresina no Guinness Book


Laura Macedo

O Corso de Teresina (PI) entra para história e torna-se o maior do mundo. O anúncio foi feito pelo juiz oficial do Guinness Book, Michael Janelas, por volta das 22 horas (sábado, dia 11). O evento reuniu milhares de pessoas em todas as cores e ritmo. Pela primeira vez, um desfile de carros enfeitados entra para a publicação, que conta com 40 mil recordes contabilizados desde 1955. Segundo a organização do Corso, a Prefeitura de Teresina, estima-se que 50 mil estiveram presentes: crianças, jovens, adultos e idosos. Não importava a faixa etária. Dentro do veículo, no chão ou nas arquibancadas. Todos os lugares ficaram lotados até o final da festa.







A oficialização do prêmio aconteceu domingo (12). Elmano Férrer, prefeito de Teresina, recebeu domingo placa oficial atestando título de maior desfile de carros decorados do mundo, das mãos do juiz do Guinnes Book Michael Janelas, que pela primeira vez veio ao Brasil e, especialmente, a Teresina. “Foi uma experiência única. Nunca vou esquecer. Foi uma festa democrática. Eu vi ao vivo o Corso e constatei que desde velhos, jovens e crianças participaram. Vocês agora podem dizer: Somos o melhor do mundo em festa carnavalesca”, disse Michael Janelas.

“Carnaval é de rua. O Corso é um resgate da tradição carnavalesca na cidade. Dividimos muitas emoções, irreverências e espontaneidade. O Corso é feito pelo povo e para o povo e esse título é um mérito dos teresinenses”, disse o prefeito.

O Corso de Teresina 2012 ficará para sempre na história do Carnaval Teresinense pela conquista no Guinnes Book e pelo entusiasmo do povo piauiense.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

L. M. Ribeiro Gonçalves, desenhador do Piauí

L. M. Ribeiro Gonçalves.


O engenheiro civil Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves (1895-1984) foi um estudioso de questões que envolviam o planejamento urbano e regional, sendo projetista e construtor de estradas, pontes, sistemas de abastecimento de água, edifícios e praças em diversas regiões do Piauí. 

Clube dos Diários.

 É autor do projeto arquitetônico de significativos edifícios de Teresina, dentre eles o Clube dos Diários, a Escola Normal e a feição neoclássica do Palácio de Karnak. O Clube dos Diários (inaugurado em 1922) é um edifício com características ecléticas que evidenciam detalhes do neoclássico – colunas coríntias, frontão decorado e simetria da fachada – e hoje funciona como centro cultural. A Escola Normal (1919-1924), localizada na Praça Deodoro e tombada pelo Estado em 1992, é considerada uma das melhores expressões do neoclássico que se estabeleceu em Teresina. Foi adaptada para funcionar a Prefeitura Municipal de Teresina, perdendo a caracterização interna. 

Palácio de Karnak.

O Palácio de Karnak, sede do Governo Estadual, funcionou originalmente como escola de grau médio (1880) até o final do século XIX, pertencendo, durante esse período, a Gabriel Ferreira (1848-1905), primeiro governador constitucional do Piauí. A propriedade passou posteriormente, como moradia, ao barão Mariano Gil Castelo Branco (1848-1935),que, por sua vez, vendeu ao Governo do Estado, na gestão de João Luis Ferreira (1881-1927), filho de Gabriel Ferreira. A transição comercial, no entanto, só se concretizou (em 1926) no governo seguinte, de Matias Olímpio, quando o edifício passou a ser a sede do executivo piauiense. A tarefa de transformar uma residência particular em sede de Governo coube, então, a L. M. Ribeiro Gonçalves.


Escola Normal / Prefeitura de Teresina.

“Uma das mais pujantes afirmações intelectuais do Piauí em todos os tempos” (no dizer de A.Tito Filho, outro intelectual piauiense), Ribeiro Gonçalves dignificou a profissão de engenheiro civil, revelando extraordinária capacidade profissional em projetos de várias naturezas. Foi, também, duas vezes senador da República pelo seu Estado. Enfim, um homem de privilegiada inteligência e grande capacidade intelectual, qualidades colocadas a serviço dos seus conterrâneos e do País.

Conheça o livro Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves - Cartas a A. Tito Filho. Organização e introdução: Kenard Kruel. Teresina, editora Zodíaco, 2010.

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Antônio Rocha Jr. - Arquiteto, professor das disciplinas Desenho Geométrico, Perspectiva e Projeto Arquitetônico do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Fortaleza-Unifor. Membro do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural do Estado do Ceará. Ex-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil - Departamento do Ceará (IAB-CE).

A formidável Genu Moraes

Fenelon Rocha e Genu Moraes.

Hoje de manhã bem cedinho acordei com telefonema de Fenelon Rocha, secretário de comunicação do Governo Wilson  Martins. Queria material sobre Genu Moraes para um livro que sua secretaria prepara sobre algumas mulheres piauienses para lançar no dia consagrado às mulheres. Marquei com ele no casarão de Genu Moraes, na Avenida Antonino Freire, a menor do mundo, ao lado dos Correios central. Como sempre, ela já estava acordada passando a leitura nos jornais da terra e nos recortes de jornais e revistas que os filhos enviam do Rio de Janeiro (Jozias e Lidia) e dos Estados Unidos (Lucia). Fenelon Rocha fez entrevista com Genu Moraes, sem usar gravador ou outro aparelhinho da modernidade, apenas com caneta, papel e memória. Os bons jornalistas se dão a conhecer assim. Seguindo a linha do tempo traçada por Fenelon Rocha, Genu Moraes, com nomes e datas, liberou, de sua lúcida cabecinha de 85 anos de idade, toda a sua bem vivida vida até a presente data. E eu, como sempre, de tocaia, aprendendo com suas lições de vida. Agradeço ao Fenelon Rocha por mais este dia de reencontro com Genu Moraes, musa de toda uma geração, no escrever de Heitor Castelo Branco, da Academia Piauiense de Letras. Abaixo, breve perfil de Genu Moraes, como roteiro, claro, inacabado.

Quarto do casarão, onde Genu Moraes nasceu.

Maria Genovefa de Aguiar (Genu Moraes) nasceu a 15 de fevereiro de 1927. As primeiras letras aprendeu com a mãe, Gracy Lopes. Depois foi estudar com Maria Dina Soares, figura de mestra das letras e da música, ingressando, em seguida, no Colégio das Irmãs, onde as rezas prolongadas e o rigor da disciplina levaram-na a solicitar de seu pai o desligamento do colégio. Passou a estudar no Grupo Escolar Barão de Gurgueia, que tinha como professoras Odete Batista, irmã de Jônatas Batista, um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras, Dagmar Rosa, filha do governador Miguel Rosa, e a prima Nair, filha do governador Antonino Freire, e esposa do des. Pedro Conde. Estudou em Belo Horizonte, no Colégio Izabela Hendrix. Terminado o curso científico, seguiu para o Rio de Janeiro, onde faria o pré-vestibular, mas desistiu de prestar o concurso. Ainda assim, ganhou de presente do pai um automóvel importado dos Estados Unidos, que logo aprendeu a dirigir. Ao retornar a Teresina, passou a ser alvo dos mais diversos comentários por dirigir sozinha. Ainda mais por andar acompanhada dos rapazes mais cobiçados da cidade. Independente, mesmo noiva do João Mendes Olímpio de Melo, filho do governador Matias Olímpio de Melo, não mudou o seu comportamento, o que provocou, em pouco tempo, o rompimento do noivado. Casou-se a 9 de agosto de 1947, no Rio de Janeiro, com Antônio Severiano de Moraes Correia, industrial parnaibano educado nos Estados Unidos. O casal foi residir em São Luís, cidade onde se realizou social, profissional e politicamente. Antônio Moraes Correia, herdeiro da tradicional Moraes S.A., empresa de exportação parnaibana, logo se instalou no mercado de São Luís, abrindo uma grande casa comercial, que vendia inclusive avião. Genu Moraes, que tinha agenda diária repleta de compromissos sociais por acompanhar o marido, membro do Rotary e de outros clubes de igual importância, nos principais eventos da cidade, foi procurada pelo jornalista José Pires de Sabóya, diretor do jornal O Imparcial (sediado num sobrado da Rua Afonso Pena, naquela cidade), para que ela assinasse a coluna Em Sociedade, que se tornou uma das mais lidas do Estado. Foi a primeira mulher no Brasil a ser presidente de Sindicato de Jornalistas. Ela era vice do presidente Otelino Nova Alves, assassinado por um delegado de polícia, em plena Praça João Lisboa (Largo do Carmo), por ter denunciado contrabando de café no Maranhão. Destemida, lutou até ver o assassino preso. A cavalo, trem, caminhão e outros meios de transporte coordenou, na parte norte do Estado, a campanha vitoriosa de Rocha Furtado ao governo do Estado (1947 - 1950). Foi presidente da ADAPI - Associação das Damas de Assistência e Proteção à Infância, em São Luís (MA). Foi chefe do Cerimonial do Palácio de Karnak nos governos Alberto Silva e Francisco de Assis Moraes Souza, o Mão Santa (seu sobrinho). Genu Moraes e Antônio Moraes Correia tiveram os seguintes filhos: Jozias, Lidia e Lúcia de Moraes Correia.

Sala de Visita. Galeria de Governadores e suas primeiras damas.

Genu Moraes reside no casarão da Avenida Antonino Freire (seu tio, governador do Piauí), onde guarda, com carinho, as lembranças e as tradições da família. Sempre de portas abertas, ela atende a todos com igual tratamento. Estar com ela é um eterno aprendizado. 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Adriano Lobão: a poética da renovação

Adriano Lobão Aragão

publicado no jornal Meio-Norte
Teresina, 4 de novembro de 2011 

Adriano Lobão Aragão, jovem de ar tímido e ensimesmado, é um poeta talentoso e dele muito se espera. Certamente, dele muito se ouvirá falar na literatura. No momento, refiro-me ao livro recente, As Cinzas as Palavras, Edições Amálgama, Teresina, 2009, onde prossegue na sua linha de aprofundamento nos clássicos - antigos e modernos – e o faz com uma poética crítica e com sabor de atualidade. Conta com outra roupagem, aquilo de que a poesia da modernidade mais gosta: a intertextualidade e aintratextualidade, traduzindo seu mundo em poesia, com discursos e sensações perpassados por outros. 

Cabe aqui uma digressão: Após o advento da obra póstuma Cours de Linguistique Generale, de Ferdinad de Saussurre (1857-1913), resultante de cursos dados aos seus alunos A. Ridlinger, Charles Bally e Albert Sechehaye, a Lingüística torna-se o estudo científico da linguagem, quando é feita a separação entre língua e fala, sendo esta o ato individual e, portanto, sujeito a fatores externos, e aquela, um sistema de valores que se opõem uns aos outros e que está depositado como produto social na mente de cada falante de uma comunidade, com homogeneidade. Mas Linguística e Gramática não brigam, convivem no mesmo escritor, com sabedoria como faz Adriano Lobão.

O estabelecimento da Lingüística é o começo da modernidade poética, os poetas de então ganham novas formas de libertação, não mais sendo obrigados a simplesmente repetir metáforas e metonímias. O uso de tudo o que a literatura imprimiu até então enriqueceu o consciente e o inconsciente coletivos, para as variações mais estranhas, às vezes chegando ao obscurecimento do discurso. Derivadas da ciência linguística surgem aintertextualidade e a intratextualidade, ambas já usadas nos discursos clássicos, porém de forma disfarçada.

Na poética de Adriano Lobão não faltam intertextualidades e intratextualidades. A leitura do poema Uns versos (pg.15), tornam suficientemente claras minhas afirmações: “entre linha limpa descanso sutil não se desdobra / claro enigma em superfície inerte paz abandonada / o inexato revelar de obscuras possibilidades” (e segue em todo o poema). Isto já era comum, no Brasil, a partir da Geração de 45, de onde vem H. Dobal. Mas, nas suas últimas obras, Dobal parte para uma temática e um texto mais natural, aproximado da terra e do pensamento contemporâneo de satisfação imediata. O poema Há ainda este tempo, que começa o livro de Adriano Lobão, é muito característico do discurso da citada geração e da geração de Caetano e Torquato Neto, por exemplo.

Encontramos, assim, as causas da proximidade do signo do historicismo, com outro, o da modernidade, através de seu discurso interpolado e enfático nas metáforas com metonímias, nas sinestesias com cenestesias. Tudo isto já existia na poética barroca, como vemos no poema As odes os signos, de Adriano Lobão, o que não havia era a sociedade moderna, agora entrelaçando toda a literatura:

estas odes que aqui se erguem como estranhos obeliscos
emanam como desencanto louvando o próprio canto
palavra perdida lançada em busca de alheio signo

este verbo disperso em distante campo de poeira
areia estéril onde não canta tágide nem musa
estância onde não se encontra em seus cantos engenho e arte

nem alegre lembrança vestida de esquecidas ânsias
nem rústico altar profano onde sem música se dança

aquém dos verbos de outrora além dos versos de amanhã

decantados em prosa elegia e hino assim recordam
estas odes aqui erguidas em busca de signo alheio.

A pequena diversidade na matéria/conteúdo dos seus livros vai por conta de um estilo maturado na substância história principalmente. Poemas bem construídos, com cheiro e sabor dos clássicos, baseados em altas leituras. O autor é professor de literatura, adivinha-se: - basta que analisemos o mundo de antíteses e paráfrases, referências e alusões, sem falar na tônica inversões/invenções... Por tudo isto e por muito que não é possível ser dito aqui, Adriano Lobão Aragão é um dos melhores poetas da geração Amálgama, deste século XXI, um milenista como diria Herculano Moraes.

Insólito, de Demetrios Galvão

foto: Maurício Pokemon

Poeta e historiador nascido em Teresina, Demetrios Galvão lançou no final de 2011 sua mais recente obra, o livro de poemas Insólito. É sobre sua poesia insólita e outras contravenções que segue a conversa.

Adriano Lobão Aragão - Por que Insólito? Demetrios Galvão - Gosto da palavra insólito primeiramente por sua sonoridade – breve, encorpada; segundo, porque a própria palavra realiza o seu significado e produz uma imagem bastante interessante, além do que é uma palavra pouco usada, o que lhe dá um ar vigoroso e ao mesmo tempo misterioso; terceiro, pela coincidência de já existir no conjunto dos poemas do livro um texto intitulado “insólito”, que funciona como se fosse um verbete, é um poema que começa assim “insólito: carregar cemitérios e ferrugens nos bolsos...”. Dá a impressão que o poema constrói o significado da palavra. Assim, é como se o poema produzisse novos sentidos para a palavra “insólito”, mas ao mesmo tempo, dialogando com o significado dela que quer dizer, na acepção do dicionário, “o incomum, o não habitual, o estranho”; por último, que o significado de “insólito” diz muito sobre a minha construção poética – a produção de imagens não habituais, estranhas. Pois me debruço sobre a criação de imagens-poéticas que foge do corriqueiro em um diálogo direto com as estratégias surrealistas de transfiguração do real. Então, faço o estranho virar a experiência do estranhamento, essa é uma das propostas do livro, como bem aponta o poeta Rubervam Du Nascimento na apresentação do livro.

Adriano - Trata-se de uma busca pela desautomatização da palavra? Sei bem que os textos criam imagens e que as imagens também produzem textos. Mas no meu caso as imagens ocupam um lugar central e o meu esforço é em produzir imagens não habituais, através de um trabalho de deslocamento, de tirar as coisas que comumente tem lugar certo, estabelecido na prateleira cartesiana – nomeado, classificado, selecionado,... Dito isso, o estranhamento que procuro criar resulta de um trabalho de curto-circuito na linguagem – junção de mundos distantes para a feitura de um outro. Tento mobilizar a linguagem não para a realização do óbvio ou do “realista”, isso não me interessa. Mas pelo contrário, para transfigurar essa “realidade” e inventar outros mundos através da linguagem. 

Adriano - Em que aspectos a poesia de Insólito se diferencia de Cavalo de Tróia (2001) e Fractais Semióticos (2005)? Cavalo de Tróia é um livro em que a mensagem é mais forte que a linguagem em si, no caso, a poesia era só o meio. A escrita, na época, estava engajada com questões sociais, protestos, movimento Anarco-punk e poesia marginal. Esse foi um livro completamente artesanal, que eu fazia em casa com a ajuda do meu irmão e vendia em shows de rock, na universidade e em encontros de estudantes. Fractais Semióticos é um diálogo muito direto com os escritos beats, aquelas coisas de viajar e escrever sobre a estrada etc. Nesse livro, começa a existir uma preocupação com a linguagem. No período em que escrevi os poemas de Fractais Semióticos (2001 – 2002), conheci alguns poetas de Fortaleza e consolidei para mim, a ideia de ser poeta. Esse é um livro que tem poemas que vou levar para o resto da vida, pois há uma relação forte de poesia e experiência – experimentação. Insólito é algo que considero mais denso. Nesse momento, me preocupo bem mais com a linguagem e com as estratégias de criação, e o meu diálogo se torna mais próximo com o surrealismo. Insólito é um investimento poético-estético planejado. Mas em todos os meus livros, estou muito implicado nos textos, a primeira pessoa é presente – há um sujeito produzindo ações, há um envolvimento no campo das emoções. O percurso que se desenha é de uma maior compreensão do papel da linguagem, articulando intensidade e o fluxo espontâneo.

Adriano - Então, poesia e vida são indissociáveis? Na minha produção, poesia e vida estão intimamente relacionadas. Procuro articular a experiência (vida) e o experimento (linguagem), a intensidade das ações e do desejo e a densidade construída na/pela linguagem. É como digo em um de meus poemas: “é preciso alimentar a loucura que carregamos na mochila”, e esse alimento é o campo do sensível a que estou inserido: são as imagens cotidianas que me atravessam, são as linguagens artísticas que consumo, é a minha companheira, são os meus gatos, os peixes, o cheiro do café – logo as questões que envolvem vida e linguagem criam um campo de comunicação e ressonâncias que resultam em uma costura íntima entre vida e poesia – poesia/viva. Interessa-me essa contaminação ente os campos, até porque são indissociáveis. Nessa primeira década dos 2000 ficou muito em evidência um modo de fazer poesia em que o sujeito e o sentimento foram retirados do texto, resultando em um artefato insípido – terrivelmente limpo, sem rugas, sem ruídos, na qual a única marca humana é a própria linguagem. Não me atrai essa poesia em que a linguagem se torna um fim em si mesmo, onde o texto poético parece mais uma charada sem resposta – hermética demais.

Adriano - Há diversas sinestesias, assim como referências musicais e até mesmo astrológicas. Como esses aspectos influenciam vida e poesia? Interessante como tudo que está à nossa volta se torna material para poesia. As sinestesias que você menciona são inevitáveis em meus poemas, pois o que me atravessa e interfere na minha percepção sensorial termina ocupando um lugar no momento em que escrevo. As cores, os sabores e os cheiros são mencionados constantemente, como por exemplo: “sinto o cheiro de teus movimentos coloridos violando minhas brânquias”, ou então “tua alma de planta ornamental tem gosto azulado”. Mas as experiências sensoriais são (re)produzidas poeticamente de forma atravessada, deslocando suas correspondências originais. Com relação às referências citadas dentro dos meus textos, elas são muitas e diversas principalmente no que diz respeito à música. Sou uma pessoa que se movimenta pela música, por trilhas sonoras e, desse modo, a música e a atitude de algumas bandas e estilos musicais influenciam muito minha escrita como, por exemplo: The Doors, Velvet Underground, Radiohead, Elliot Smith, Tom Zé, Afrossambas, Nação Zumbi, percussão de terreiro e por aí vai. Escrevo na maioria das vezes, mas nem sempre, no ritmo do rock e imaginando os quadros de Chagal, as fotografias de Brassaï, as pinturas de Basquiat e automaticamente entremeando com os acontecimentos do meu cotidiano e da minha vida. Utilizo as referências da música, da pintura e do cinema para compor uma teia semântica em que uma área empresta sentido a outra e assim embaralho as coisas produzindo imagens insólitas – “como peixes cegos vagamos por cidades esquecidas e praças ensolaradas que Pollock desmantelava com seu pincel de canivetes”. Certa vez, o poeta Roberto Piva disse em uma entrevista que “uma poesia sem música, sem jogo de cintura, é uma poesia rígida”, e ele tem toda razão. Nessa dança de salão ou de terreiro é o som que mistura os elementos da alquimia do verbo. 

Adriano - Como está sendo a repercussão do Insólito? Ainda é cedo para avaliar, porque o lançamento ainda está recente. As ressonâncias de um livro de poemas demoram a acontecer. Penso que é no decorrer de 2012 que Insólito vai criar seus caminhos. No início de fevereiro vou fazer uns 2 lançamentos em Fortaleza e depois em Pedro II – com o tempo ele vai se espalhar e ganhar os seus leitores. Mas de todo modo, tenho ouvido coisas boas e espero que as pessoas gostem do livro.

Adriano - Você faz parte do grupo literário Academia Onírica. Como se dá esse convívio artístico em relação à sua produção literária? Tem sido muito importante o exercício de trabalhar em coletivo, pois a Academia Onírica é formada por 6 pessoas que articulam os eventos e os demais trabalhos (revista, cd, zine), contudo têm mais pessoas envolvidas nesse projeto (músicos, fotógrafos, artistas plásticos, videomakers, escritores) e o legal é que o debate em torno das linguagens artísticas é bastante amplo. Essa teia que a AO vem construíndo desde janeiro de 2010 tem proporcionado para todos nós uma maior circulação e visibilidade de nossos trabalhos coletivos e individuais. Interessante que depois que formamos o grupo, todos foram mais instigados a escrever e logo a produção de aumentou, bem como o nosso diálogo ficou mais próximo, passamos a contribuir um com o outro de modo íntimo. Às vezes escrevo um poema e mostro para o Thiago E ou o Valadares e eles dão alguma ideia e as coisas seguem. O contrário também acontece. Alguns detalhes de Insólito foram pensados dentro desse contexto e até mesmo o lançamento, que aconteceu com um recital e a participação dos amigos da AO.

Contozinho de natal

 M. de Moura Filho

A menina, sentada em seu regaço, foi ao solo. O corpo, depois de arremessado para trás, imóvel. Um vermelho mais intenso do que o de sua roupa escorria, ainda aos borbotões, de seu peito. A barba e os cabelos brancos e longos desprenderam-se do bom velhinho, e a menina, ainda no piso, descobriu que Papai Noel não existia.

Filmagem da novela global no Piauí

Marcos Palmeira e Taís Araújo, atores da Globo.


O Porto das Barcas, em Parnaíba, núcleo histórico da cidade, será local de uma das locações da próxima novela da sete, da Rede Globo, Marias do Lar (título provisório), escrita por Felipe Miguez e Izabel Oliveira, com direção de Denise Saraceni e Carlos Araújo. A informação foi confirmada à Prefeitura de Parnaíba pela produtora executiva Marília Fonseca, que solicitou providências à secretaria municipal de Transportes para interdição de um dos lados da Ponte, no dia das gravações, e à Secretaria de Saúde, para envio de uma UTI móvel do Samu, por se tratar de cena de ação, incluindo a participação de dublês. “Pedimos apoio para a operação de tráfego em meia pista no sistema “pare” e “siga”, escreveu Marília ao secretário de Transportes, Pádua Melo. As gravações deverão começar por volta do dia 16 de abril deste ano e prevê locações nos municípios piauienses de Teresina, Parnaíba, e Luiz Correa (localidade Lagoa do Sobradinho). Farão parte da nova novela, os atores Taís Araújo, Cláudia Abreu, Jonatas Faro, Marcos Palmeira, Leandra Leal, Isabelle Drummond e Luiz Henrique Nogueira.

Cunha e Silva: enfim, a consagração

Cunha e Silva - da Academia Piauiense de Letras.


As três cidades que amou por igual: Amarante, Teresina e Rio de Janeiro. Está sepultado na primeira desde 1990. Não tem lápide, não tem sepultura de luxo nem tem epitáfio. Apenas ali, em meio à grama que cresce, se encontram seus restos mortais. Ele é de 1905, conforme ele mesmo me confessou em vida -, embora algumas notas biográficas de dicionários e histórias literárias piauienses registrem a data de nascimento em 3 de agosto de 1904. No Arquivo de ex-alunos do Colégio Salesiano Santa Rosa, em Niterói, estado do Rio de Janeiro, no qual ingressou como aluno em 1920, consta, porém, que o nascimento dele, segundo os documentos apresentados ao famoso educandário, traz a data de 1904. Ficam, pois, a minha há dúvida e a alegação do testemunho que me deu quando completara 80 anos.
Resolverei em parte esta dúvida quando consultar os registros de nascimento em Amarante.

Amarante.

Só vim a ter essa dúvida porque, pensando que tivera completado 80 anos, lhe fizera, sem o avisar, um longo artigo homenageando-lhe os oitenta anos, i.e., em 1984. O artigo, publicado no extinto jornal “Estado do Piauí’, de Teresina, do editor Josípio Lustosa, tinha por título o seguinte: “Cunha e Silva :80 anos.” Dias depois, recebo carta de papai, na qual me apontava o erro de data de nascimento: “Meu filho, eu sou de 1905.” Contudo, não me dera maiores explicações para essa questão. Homenageado fora por antecipação de um ano. Vá lá. O importante era a minha intenção.

A meu pai estive muito ligado dentro e fora de casa, já que fora meu professor de francês durante três anos no Domício, nome pelo qual era conhecido um antigo colégio particular de Teresina, o Ginásio “ Des. Antonio Costa”, dos irmãos Magalhães, Francisco Melo Magalhães e Domício Melo Magalhães, grandes educadores que fizeram história.

Quando pequeno, papai sempre me encarregava de buscar as provas de artigo, na época em que escrevia para o jornal O Dia, de Raimundo Leão Monteiro, conhecido como Mundico Santídio, de apelido Mão de Paca. As “provas de artigos” eram para meu pai fazer a revisão, pois sempre escapava um erro do linotipista e meu pai era exigente em questões de revisão. Lia cuidadosamente o artigo já impresso. Fazia um sinal em v inter-palavras e acrescentava as correções a tinta. Não me lembro agora se, no mesmo dia da correção, eu voltava para a redação. Papai, em casa, me falava de Mundico Santídio, o Mão de Paca, que tinha um defeito num dos braços. Era um senhor gordo, baixo, calvo, claro. Dele me contava papai que, na mocidade, fora bem apessoado. Só depois de uma doença perdera a antiga boa aparência. Tinha passado um tempo na Alemanha. Não sei com que propósito. Parecia ser um homem inteligente e sério. Sempre me tratara bem. Muitas vezes, pequeno, fui à redação de O Dia apanhar as saudosas “provas de artigos’, como costumava chamar papai.

Grande jornalista político, Cunha e Silva, nome literário com o qual assinava seus numerosos artigos, talvez tenha sido no Piauí, no seu tempo, o jornalista que maior quantidade de artigos escreveu em jornais. 
A. Tito Filho - da Academia Piauiense de Letras.
 
Na época em que eu já era adolescente, ele se indispôs com o professor, jornalista e cronista A. Tito Filho e com este travou uma polêmica acirrada de parte a parte, mas meu pai, no terceiro artigo contra o adversário, encerrou a polêmica, porquanto A. Tito Filho não aguentou o talento de exímio esgrimista e a veia satírica e demolidora de papai. Se não me engano, a polêmica foi publicada, de parte a parte, no mesmo jornal, acho que nO Dia. Os leitores, ex-alunos de um e de outro, acompanhavam com ansiedade o que um dizia em detrimento do outro. Na minha rua, a Arlindo Nogueira, havia umas jovens que tinham sido alunas do A. Tito Filho - que os alunos chamavam de Arimathéa ou professor Arimathéa. -, as quais eram fãs dele. Eu, de minha parte, torcia pelo nocaute de A. Tito Filho e saía exaltado em defesa de papai.

Ora, para defender papai não havia ninguém melhor do que eu, que mesmo cheguei a me intrigar com um vizinho de outra rua próxima, a São Pedro, outro admirador do professor. Arimathéa. Para mim, papai era o melhor, o mais duro nas verrinas, um pulverizador implacável do seu êmulo. Papai tinha mais preparo geral, memória portentosa, conhecia latim, francês, italiano, uma boa base de inglês, filosofia, história universal, geografia, imensa leitura do que havia de melhor em autores literários. Alem isso, tinha uma sólida leitura em temas sociais e políticos, o que muito o ajudava a se tornar um jornalista bem equipado em vários eixos do conhecimento humano. Até em matemática fora bom. Apreciava todas as ciências, tinha o progresso em altíssima conta, leitor incansável , a ponto de um sobrinho dele uma vez me dizer: “Meu tio Chiquinho (nome carinhoso entre os familiares), sempre que o ia visitar em casa, adivinhe como eu o encontrava: lendo!” Essa era a imagem que tinha de meu pai.

Cunha e Silva - jornalista do bom combate.

Todos esses registros e anotações sobre meu pai me vêm à baila em decorrência de três estudantes do Piauí, dois estão fazendo o mestrado na UFPI, uma na área de História, outro na de educação e uma outra também em história, em trabalhos de monografia. Todos me procuraram a fim de obterem informações e material sobre Cunha e Silva. A todos tenho atendido com alegria e gratidão dentro de minhas possibilidades de recursos materiais que guardo de meu pai.. Não mais posso oferecer a esses pesquisadores porque não tenho toda a sua produção jornalística , só uma pequena parte, que venho guardando ao longo de vários anos e que compreendem sobretudo recortes de artigos de jornais das décadas de sessenta ao final da década de oitenta. Além disso, disponho de um bom número de poemas, a maioria deles na forma de soneto. De sua obra publicada tenho a tese dele – defendida - para professor catedrático de história do Brasil da Escola normal Antonino Freire, A odisséia do cativeiro no Brasil (Teresina, Imprensa Oficial, 1952, 60 p.), uma outra tese, O papel de Floriano Peixoto na obra da proclamação e consolidação da República (1957), apresentada à cátedra de História do Brasil do Liceu Piauiense (Colégio Estadual “Zacarias Góis”), que acredito não foi defendida, A república dos mendigos (novela), publicada no Rio de Janeiro, em 1984,135 p. pela Folha Carioca Editora Ltda, com orelhas e brevíssima apresentação deste colunista, Copa e cozinha (Academia Piauiense de Letras / Projeto Petrônio Portella, Teresina, 127 p.), sátira política local, memorialismo, e ensaios políticos. Dele ainda há um livro, até hoje, inédito, de título Gatos de palácio, igualmente uma sátira da política local.

O espólio do grosso da produção de meu pai em jornais e revistas por ele reunido em décadas de atividade na imprensa, constava de pelo menos dois ou três caixotes de papelão. Por descuido e falta de empenho de meus irmãos, parece que foi perdido, o que é de se lamentar profundamente agora que alguns jovens pesquisadores piauienses, certamente orientados por seus professores, recomendaram estudos sobre meu pai e com isso aquele arquivo pessoal seguramente teria muitíssimo a abreviar o trabalho exaustivo que é o de se debruçar sobre velhos e poeirentos jornais da Biblioteca Pública do Piauí e do Arquivo Público. Confesso, leitor, eu era o fiel e rigoroso “warder” dos livros de meu pai. Conhecia todos os que compunham duas estantes antigas, com obras valiosas de literatura universal, livros de gramática, excelentes dicionários em três línguas, história, filosofia, literatura, política, sociologia, livros didáticos de grandes autores do passado etc.

Wilson Brandão, R. N. Monteiro Santa, José Lopes dos Santos, Nerinha Castelo Branco, Alberto Silva, A. Tito Filho (então presidente da Academia Piauiense de Letras), Clidenor de Freitas Santos, Josias Clarence Carneiro da Silva (em pé). João Gabriel Batista, Austragésilo de Athayde (então presidente da Academia Brasileira de Letras) e Cunha e Silva.

O professor Cunha de Silva, o acadêmico imortal da APL, o jornalista político, o poeta, o contista (ele fez alguns contos), o bom resenhista de livros, o orador, o polemista, o educador e o homem de coragem que sempre foi, o bom pai, bom avô, o bom amigo, o amigo dos seus incontáveis alunos, tanto em Amarante, quanto em Teresina, conquistou um nome consagrado na vida intelectual do Piauí. Ele morreu sem saber que a sua obra e o seu exemplo de escritor, vinte anos depois, seriam recuperados e reconhecidos dentro dos muros da universidade que, através de alguns estudiosos, estão situando-o no destacado lugar que o valor de sua obra sempre mereceu. A posteridade, finalmente, lhe está fazendo justiça. Que seu valor e sua lembrança perdurem para sempre.

Ação Popular contra Mons. Chaves

Nelson Nery Costa.

José Marques FilhoJornalista – DRT 1002

O advogado Nelson Nery Costa, advogado, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, ex- presidente do CMC - Conselho Municipal de Cultura de Teresina, após o carnaval, vai encabeçar uma Ação Popular contra a PMT – Prefeitura Municipal de Teresina exigindo providencia da FMC – Fundação Mons. Chaves em relação à Lei A. Tito Filho, que garante incentivos fiscais do município para a cultura local.

“Já foi feita uma Notificação Judicial ao Prefeito (Datado em 23/11/2011), dando um prazo para que ele pudesse aprovar um novo CMC e, também, um edital com os valores devidos para isso (Lei A. Tito Filho), que nós estamos discutindo agora a perspectiva de ser 5% do ISS – Imposto Sobre Serviço e IPTU – Imposto Predial e Territorial Urbano”, disse Nery Costa.

O advogado conta que já esteve com o atual presidente da FMC, Marcelo Leonardo, que teria indicado o advogado, assessor dele, Rodrigo Mesquita, para conversar com ele (Nery Costa). Ele disse que foi dado um prazo que, se não fosse tomada nenhuma providência, ele entraria com a Ação Popular. “Se não tiver a posse do Conselho e o anuncio do Edital assim: __Em trinta dias vai ser lançado um Edital com um valor razoável, certamente que a gente vai entrar com essa ação Popular”, comenta Costa.

Ação Popular é um procedimento jurídico que, “depois que começa não para até chegar ao julgamento definitivo. Se a parte desistir, o MP – Ministério Público assume a Ação. Então, é um passo decisivo. Acho que ela é o caminho, já que, quem pode entrar com Ação de Improbidade Administrativa é a autoridade pública (...). Acho que, como ex-presidente (Do CMC) o mínimo que posso fazer é ver um novo presidente do CMC e o CMC funcionando”, finaliza Nery Costa.

Nelson Nery Costa - celular: 9982 - 6504

Dirce & Helo

Torquato Neto e Luiz Otávio Pimentel, RJ, outubro de 1972.

Dirce & Helo
Histórico Critica Referencias
DATA/LOCAL
1971 - Rio de Janeiro RJ
SINOPSE
Na rua, dois rapazes se encontram. O filme se encaminha para sugestões homoeróticas de delicadeza e violência. Acompanhadas pela câmera veloz, as performances de Torquato Neto e Zé Português dialogam com a trilha sonora, composta por músicas cantadas por Luiz Melodia, como Negro Gato. Elementos gráficos e cartazes compõem a narrativa.
FICHA TÉCNICA
Luiz Otávio Pimentel
16min, cor, som
Imagens e montagem: Luiz Otávio Pimentel
Elenco: Torquato Neto e Zé Português

Luiz Otávio Pimentel
Biografia Filmografia Critica Referencias

Luiz Otávio Pimentel (Rio de Janeiro RJ ? - 1990c.), músico, pianista, figura lendária do underground carioca, amigo de Torquato Neto, Hélio Oiticica, Waly Salomão, Ivan Cardoso, Rogério Sganzerla, Luiz Melodia e outros, começa a estudar direito, mas logo desiste do curso. Participa ativamente da cena alternativa carioca na década de 70.
Seus projetos - muitos não realizados - eram constantemente referidos por Torquato na sua coluna Geléia Geral do jornal Última Hora ("Luiz Otávio Pimentel numa transação violenta com os produtores da vida. O Evangelho Segundo São Tomé ou Um Salto Espetacular para a Morte, seu novo filme, em pleno andamento. Enquanto isso, um outro superoito vai pintando: Helô e Dirce, duas jovens" - 7/1/72; "Luiz Otávio acertou detalhes com José Mojica Marins e com a turma do tutu" - 1/11/71). O Evangelho Segundo São Tomé não chega a ser realizado, mas Pimentel faz alguns filmes nos anos 70, inclusive um sobre Oswald de Andrade. Agitador cultural, chegou a escrever e assinar alguns dos textos publicados na Geléia Geral, em que descrevia projetos artísticos (como orgramurbana, com Hélio Oiticica), ou polemizava com os "meninos" Antonio Calmon e Gustavo Dahl, em defesa do Cinema Marginal e contra o Cinema Novo, que à época, para o grupo "marginal", já tinha se academizado nos cargos e verbas oficiais.

1971 - Dirce & Helô - super-8

Pra mim chega


William Tito

Encerrei a leitura de mais um volume que trata sobre a vida de Torquato Neto. Como separar Vida & Obra? Já que se confundem, mas, o jornalista Toninho Vaz – autor de Pra Mim Chega, editora Casa Amarela (Caros Amigos), se debruça intensamente e percorre a trilha da vida e o que levou Torquato Neto a ser o que foi. Sua pesquisa tem a sede de explorar o universo torquateano buscando indícios para subsidiar o leitor a fazer suas próprias deduções.

Toninho veio buscar informações em Teresina, investigando a história bem antes do casamento de Dr. Heli Nunes e Dona Salomé, os pais do poeta. Foram 73 entrevistas com familiares, amigos e parceiros. No Piauí, Toninho esteve com o Dr. Antônio Noronha Pessoa Filho que foi seu anfitrião e a quem rende agradecimentos pelo empenho e cooperação. Esteve ainda com Arnaldo Albuquerque, Kenard Kruel, Aderbal Tomas de Aquino, Viriato Campelo, Durvalino do Couto Filho, Dr. Heli Nunes e George Mendes que mantém este belíssimo site sobre o primo: Torquato Neto.

Muitas das histórias reveladas no livro já eram do conhecimento de muita gente. Episódios que os familiares não tinham nenhum interesse em revelar. A respeito de sua orientação sexual, saúde física e psíquica e os excessos com álcool, cigarro e outras drogas são abordados no livro. O autor cita os personagens pelo nome. Imagino que deva ter acontecido sérios constrangimentos para alguns. Tenho informações de processos que renderam ao autor pela não autorização da obra, especialmente pela viúva, Ana Duarte e Caetano Veloso.

Toninho revela também várias das possíveis causas que podem ter desencadeado o afastamento de Torquato dos demais membros do movimento Tropicalista. Suas diferenças com Capinam. A polêmica autoria da música Soy Loco Por Ti America. As diversas internações decorrentes das crises depressivas. O jornalista recuperou laudos e prontuários médicos.

Embora parte da família não tenha colaborado com a realização do livro, percebo que não há por parte de pai do poeta, Dr. Heli Nunes, nenhuma dificuldade em abordar quaisquer temas que revelem a vida de Torquato Neto. Muito menos por parte do único filho com Ana, Thiago, a quem escreve suas últimas linhas no dia do sinistro de sua passagem. Toninho Vaz faz agradecimentos especiais a Thiago por sua colaboração e empenho em revelar a história de seu pai.

No final do livro o autor faz várias referências de letras musicadas postumamente, espetáculos-homenagens, poemas, artigos e teses de mestrado editados, publicados, gravados e realizados após a morte de TN. Senti falta de referência a obra do Dr. em Semiótica Feliciano Bezerra, que defendeu tese que tornou-se livro, A Escritura de Torquato.

Sem dúvidas é um livro primordial para quem quer conhecer o mundo torquateano a partir de sua vida e daí compreender em que circunstância e motivação foi criada boa parte de sua obra. É estranho que Toinho Vaz nunca tenha sido convidado para participar do Salão do Livro do Piauí. Existirmos, a que será que se destina? Com a palavra a Fundação Quixote.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Rogério Duarte entrevista Torquato Neto

Em 1968, o designer Rogério Duarte, autor de algumas das grandes capas dos discos tropicalistas, além do cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol (e também do livro Tropicaos, Azougue Editorial, 2003), realizou uma entrevista delirante com o poeta e compositor Torquato Neto.

Torquato Neto encarnando Nosferato.

Essa entrevista está no volume especial da Coleção Encontros sobre a Tropicália, que acaba de ser lançado, e que reunirá entrevistas e documentos entre 1966 e 1969 dos principais expoentes do movimento, como Gil, Caetano, Hélio Oiticica, Glauber Rocha, Zé Celso, Rogério Sganzerla, Torquato, Capinam, Tom Zé, Mutantes, Rogério Duprat e Rogério Duarte. Como um aperitivo, segueo diálogo na íntegra:

*

[Rogério] Torquato, você acha que está cumprindo seu dever de brasileiro?

[Torquato] Yes.

[Rogério] Porque você respondeu em inglês?

[Torquato] Devido a minha formação (Joaquim Nabuco) de comunista.

[Rogério] Presentemente está atuando em alguma emissora?

[Torquato] Não.

[Rogério] Em inglês ou português?

[Torquato] Em português. Nós temos Bananas. Fale.

[Rogério] Assim não, isso é plágio de João de Barro e Alberto Ribeiro. Que tem a declarar?

[Torquato] Vinícius jamais escreveria isso. Vinícius é a minha miss Banana Real. Geraldo Vandré é um gênio.

[Rogério] Você diz um gênio sexual ou matemático?

[Torquato] Nunca dormi com ele.

[Rogério] Por que, você sofre de insônia?

[Torquato] Eu era viciado em psicotrópicos. Hoje em dia eu dou mais valor ao salcalóides…

[Rogério] Eu por minha parte dou mais valor aos aqualoucos.

[Torquato] O Golias é ótimo.

[Rogério] Ele já foi aqualouco?

[Torquato] Yes.

[Rogério] Você não acha que nós devemos tratar melhor os negros?

[Torquato] Yes.

[Rogério] Por exemplo, lá em casa estamos há 2 meses sem empregada. Nesse sentido Malcolm X ou Bertrand Russel foram muito compreensivos. Veja o caso de Sérgio Pôrto com aquela estória do crioulo doido, puro racismo, e racismo paulista, o que é mais grave sendo ele cocarioca, isto é, carioca, não acha nego?

[Torquato] Yes. Acho sim. Agora: o Bertrand Russel é mais branco do que Malcolm X. O que estarei querendo dizer com isso?

[Rogério] Talvez que a noite deste século seja escura e de uma escuridão tão impotente que mesmo no seu âmago mais profundo não são pardos todos os gatos.

[Torquato] Non sense. Auriverde pendão das minhas pernas que a brisa do funil beija e balança. Onde está funil leia-se mesmo Brasil. Nelson Rodrigues inventou a subliteratura e eu endosso..

[Rogério] Mas você não acha que depois de C. Veloso já devemos começar a cuidar mais seriamente da superliteratura?

[Torquato] Yes. Freud explica, não é mesmo?

[Rogério] Seria se fosse. Mas tanto Freud como Sartre como Lévi-Strauss não passam de romancistas da Burguesia. E Lukács?

[Torquato] Foi o caso mais grave de Geraldo Vandré que já conheci. E com a desvantagem de ser tão polido como Leandro Konder. Só que de Romance ele não manjava bulufas. Mas, não exageremos porque Lukacs é um moço de muito futuro.

[Rogério] Além do mais Torquato todas as nossas tragédias ou melodramas individuais fazem parte de um projeto coletivo nosso. Nós fumamos maconha para ter um sucedâneo da fome dos operários e damos a bunda porque não entendemos bem a razão pela qual temos tantas bananas e os camponeses continuam tão desenxavidos.

Atentado na Teresina FM (91,9 MHz)...

"A Rádio Teresina FM (91,9 MHz) está fora do ar desde a segunda-feira por queima de equipamento. Ainda não sabemos a causa, mas isso está sendo investigado. Antes, estamos priorizando a resolução do problema para podermos retornar com a maior brevidade. A expectativa é de que estejamos no ar por volta do meio dia de hoje. Vamos torcer para que tudo dê certo. Muito obrigado a todos pela compreensão e torcida. Abraços fraternos." (Toni Rodrigues).

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O talento de Luizão Paiva

Luizão Paiva - maestro, pianista, compositor e arranjador.

Começou, ainda na infância, a desenvolver suas aptidões artísticas sob a influência da sua avó, Adalgisa Paiva, que estudou com Villa-Lobos.

É o próprio Luizão Paiva quem nos conta sobre essas influências:

Minha bisavó, mãe da minha avó, dona Alípia de Paiva, cantava muito bem. E havia minha avó, Adalgisa Paiva, que teve influência mais forte. Ela estudou com Villa Lobos, um dos maiores maestros que o Brasil já teve. Durante um ano e meio no Rio de Janeiro, ela fez um curso de música e trouxe seu aprendizado pra cá. Foi uma das pioneiras aqui no Piauí”.

“Luar da Minha Terra” (Adalgisa Paiva) # Bibi Ferreira (voz) / Luizão Paiva (piano/ arranjo e regência) / Jaques Morelembaum (cello).
Saindo do seio familiar com o propósito de aprofundar seus estudos foi, inicialmente, para São Paulo onde estudou no Colégio Arquidiocesano com um mestre italiano.

No Rio de Janeiro, visando atender a um desejo do pai, Luizão Paiva ainda estudou Engenharia até o terceiro ano, mas a paixão pela música prevaleceu abraçando totalmente a Escola de Música Pró-Arte, que funcionava no bairro Laranjeiras.

De lá seguiu para os Estados Unidos tornando-se Bacharel em Professional Music (composição, arranjo e performance), na Berklee College of Music, em Boston.

Estreou bem como compositor da trilha sonora de abertura da primeira versão da novela Roque Santeiro (TV Globo). Pena que a novela foi censurada (1975).

“Avoante” (Luizão Paiva) # Jaques Morelembaun (cellos) / Luizão Paiva (piano) / Guilherme Maia (eletric bass) / Marcos André (drums) / Fernando Moura (keyboards and programming).
Como instrumentista, trabalhou na peça “Gota d’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes, sob a direção musical de Dori Caymmi.

Bibi Ferreira no espetáculo Gota d’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, baseado no samba homônimo de Chico.

 Com Bibi Ferreira trabalhou na peça“Brasileiro: Profissão Esperança”. Tocou ainda com músicos como Robertinho Silva, no Free Jazz, Edson Machado, Sivuca, Paulo Moura e cantores importantes da MPB, entre outros, João Bosco, Nana Caymmi, Moraes Moreira, Carmem Costa, Nora Nei e Jamelão. Com a família Caymmi, fez temporada no "Blue Note", em New York e na Europa.

O vídeo abaixo tem péssima qualidade de imagem, mas vale assistir pelo som, ao vivo, do Sexteto de Edson Machado com Luizão Paiva ao piano, na boate People, no Rio de Janeiro, em 1990.

Músicos: Edison Machado - Drums, Luiz Alves - Bass, Paulinho - Trompete, Macaé - Sx tenor, Edson Maciel - Trombone, Luizão Paiva - Piano.

Quando estamos fora do nosso Estado e nos deparamos com nossos conterrâneos e/ou com sua obra a emoção rola solta. Foi o que aconteceu comigo na Modern Sound (loja de discos, vizinha do apartamento em que fiquei hospedada) situada em Copacabana (Rua Barata Ribeiro, 502). Foi um dia memorável em companhia de amigos que pesquisam comigo a temática do Teatro de Revista.

Depois de explorarmos toda a loja (e o nosso bolso, também) nos sentamos para almoçar no espaço “Allegro Bistrô” ao som do sensacional Samba Jazz Trio- Kiko Continetino (piano), Luiz Alves (baixo) e Clauton “Neguinho” Sales (bateria/trompete). Esse último deu um show à parte tocando ao mesmo tempo bateria e trompete.
 
A emoção maior foi quando eles tocaram duas músicas do Luizão Paiva: “Agora sim!” e “Praça Pio XI”, ambas em parceria com Luiz Alves.


Agora Sim” (Luizão Paiva / Luiz Alves) # Samba Jazz Trio
Praça XI” (Luizão Paiva / Luiz Alves) # Samba Jazz Trio
 Foto: Laura Macedo
  
Luizão Paiva esteve recentemente na Europa (Holanda e Alemanha), por dois meses, realizando shows, gravação de CD e promoção de workshops, bem como cursos para alunos holandeses do Conservatorium de Amsterdam.

Fez shows com a cantora americana Débora Carter no Jazz Club de Minden (Alemanha), onde já tocaram nomes importantes do jazz como Charlie Parker, compositor e saxofonista americano e o trompetista Dizzy Gillespie, um dos mentores de bebop. Fez shows ainda na cidade de Alkmar (Holanda), no Krokenbier Jazz Club.

Com a cubana, naturalizada holandesa, Estrella Acosta, o pianista Luizão Paiva se apresentou no Theatro de Catricum e no Badycuup Jazz Club, na Holanda.

No repertório dos citados shows além de standarts americanos (clássicos de Cole Porter e George Gershwin), as cantores optaram por Bossa Nova, em especial, composições de Tom Jobim.

Luizão Paiva aproveitou sua estada na Europa para gravar o primeiro CD da sua irmã, Eleonora Paiva [primeira à direita na foto acima], coreógrafa que reside na Holanda há mais de 25 anos. O disco de estreia tem a produção, direção musical e arranjos assinados por Luizão. Nele constam composições do próprio pianista e de músicos consagrados como Tony Costa e Orlando Moraes. Há ainda uma música do cantor e compositor piauiense, Roraima. O CD tem como título uma música da maestrina, avó dos irmãos Paiva, Adalgisa Paiva, intitulada “Luar da Minha Terra” [áudio disponibilizado mais acima]. (Dina Magalhães).

Entre as inúmeras qualidades do músico Luizão Paiva destaca-se o seu amor ao Piauí. Após décadas acompanhando artistas pelo mundo ele abraça um projeto de dimensão teleológica – a criação da Escola de Música Adalgisa Paiva (EMAP)– que hoje colhe seus frutos com excelentes músicos absorvidos pelo mercado piauiense e brasileiro.

Eu estava no Rio, casei novamente e tive outro filho. Nessa época, o Rio estava em uma ‘entre safra’ musical. Aí eu pensei: por que não o Piauí? Eu já rodei o mundo, já toquei em tanto lugar: Europa, América do Norte. Pensei, então: por que não fazer um trabalho no Piauí? Por que essa discriminação? Então eu vou! Aí eu vim pra cá, e fui convidado pelo então senador Alberto Silva. Ele me chamou pra fazer um projeto pra UFPI [Universidade Federal do Piauí] junto com ele. Montamos, e hoje está aí, a Escola de Música Adalgisa Paiva, que foi um projeto meu e do senador Alberto Silva. Projeto consolidado que está formando bons músicos. A EMAP é uma escola muito boa. Não conheço nenhuma igual no que ela se propõe a fazer, que é colocar músicos no mercado”. (Luizão Paiva).

 

Em 2004, Luizão Paiva gravou o excelente CD duplo “Piauí”, onde reuniu o talento piauiense a outros tantos talentos brasileiros, gente do primeiro time como Bibi Ferreira, Danilo Caymmi, Toninho Horta, Moraes Moreira, Luís Alves, Robertinho do Recife, Ney Conceição, Marcelo Bernardes, Wilson Meireles, Mariana Bernardes, João Pedro Dias, Marcos André Barcelos, Coral Abicalil (Gerli Araújo/Gederni Araújo/Rose Araújo/Fernando Terra/Roberto Correia Filho [RJ]), Rubens Moreira, Jacques Morelembaum e Toninho Barbosa (produção técnica).

A prata da casa está bem representada por Glauco Luz (autor de cinco faixas), Toni França, Geraldo Brito, Elládio Jardas, Carol Costa, Gustavo Baião, Três Vozes (Adalgisa Paiva/Luíza Miranda/Vanda Queiroz), Maria Rio Lima, Ana Miranda, Tony França, Dina Magalhães, Ellaim Jarlon, Bebeto Filho, Arimathan Martins, DJ Paulo, Gustavo Baião e Pepe [Pem Arne Johansonn] (produção técnica).

Algumas faixas do excelente CD Piauí
Berenguendém” (Luizão Paiva/Geraldo Brito [música] / Glauco Luz [letra]) # Maria Rio Lima (voz), Ellaim Jarlon (baixo elétrico), Bebeto Filho (bateria), Elládio Jardas (guitarra), Luizão Paiva (piano/teclados/arranjo).
Ilha Grande de Santa Isabel” (Luizão Paiva [música] / Toninho Horta [letra]) # Toninho Horta (voz/violão/arranjo), Coral Três Vozes, Bebeto Filho (percussão), Luizão Paiva (piano/teclados/arranjo).
Outras praias” (Pedra do sal nº 2) (Luizão Paiva [música] / Glauco Luz [letra]) # Danilo Caymmi (voz/flauta), Luizão Paiva (piano/ arranjo), Jaques Morelembaum (cello), Luís Alves (baixo acústico), Marcos André [Doutor] (bateria), João Pedro Dias [Didito] (guitarra).
Praia Grande de Atalaia” (Luizão Paiva) # Mariana Bernardes (voz), Luiz Alves (baixo acústico), Marcelo Bernardes (sax tenor), Robertinho Silva (bateria e percussão), João Pedro Dias [Didito] (guitarra), Luizão Paiva (piano/arranjo).
Serra da Capivara” (Luizão Paiva [música] / Glauco Luz [letra]) # Gustavo Baião (voz), Coral Abicallil (RJ), Jaques Morelembaum (cello), Luiz Alves (baixo acústico), Robertinho Silva (bateria e percussão), João Pedro Dias (guitarra), Marcelo Bernardes (sax), Luizão Paiva (piano/arranjo).
Chapada do Corisco” (Luizão Paiva) # Jaques Morelembaum (cello), Ney Conceição (baixo acústico), Wilson Meirelles (bateria), João Pedro Dias [Didito] (guitarra), Marcelo Bernardes (sax), Luizão Paiva (piano/arranjo)..
Eu desejo muito poder escrever toda a minha obra. Está tudo digitalizado e são mais de 300 músicas, entre arranjos, composições jazzistas e composições pra orquestra. O que eu mais quero nesse momento é poder divulgar isso. Poder levar isso pra Europa quando eu for, e apresentar, pra ninguém dizer que eu deixei uma obra, mas sim que a fiz e apresentei em vida”.
  
Assim como eu, o Piauí como um todo adorou e agradece o retorno à casa paterna do maestro Luizão Paiva, um dos maiores pianistas de jazz da atualidade. É maravilhosa a opção de sair à noite e encontrar o Luizão, em uma das várias casas noturnas de Teresina, deslizando, suavemente, suas mãos no piano com competência, erudição e lirismo. A plateia arrebatada pela emoção, produzida pela melodia, harmonia e ritmo irretocáveis, aplaude e pede bis.

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Fontes:
- Revista Cidade Verde – O Piauí com todas as letras. Edição 22 / janeiro de 2012.
Blog História & Música no Piauí  (Maestro Rocha Sousa) – Entrevista concedida por Luizão Paiva ao Portal Medplan).
- CDs: Luizão Paiva: “Avoante" e “Piauí”