segunda-feira, 15 de maio de 2017

Des. Joaquim Vaz da Costa

A 9 de julho de 1932, foi iniciada a Revolução Constitucionalista, liderada pelo Estado de São Paulo, que defendia o lema Tudo pela Constituição, sob o comando do general Isidoro Dias Lopes. O Piauí estava sob o governo do interventor federal Landri Sales, que mandou organizar uma força da Polícia Militar do Estado para combater os revoltosos. Foi denunciado ao chefe da Polícia, capitão Carlos Augusto Colares Moreira, que no dia do embarque da tropa haveria uma rebelião comandada pelo senador Eurípides de Aguiar, ex-governador Antonino Freire, ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado Ney Ferraz, des. Joaquim Vaz da Costa, José Arêa Leão, Pedro Vasconcelos, João Batista Caland, Giovanni Piauiense da Costa, Félix Pessoa, Álvaro e Delfino Brito. O grupo contava, ainda, com o apoio dos policiais militares piauienses Júlio Arêa Leão, Benedito da Luz, Nestor Oliveira, tenente Barradas, Diogo Lustosa e sargentos Francisco Ivo e João Tabaco. Além destes, estavam engajados, também, os empregados e agregados do des. Joaquim Vaz da Costa e de José Arêa Leão. Foram todos presos. O des. Joaquim Vaz da Costa foi considerado o chefe do movimento e tal incriminação o levou a ficar incomunicável nos primeiros doze dias da prisão, ou seja, de 5 a 17 de agosto de 1932. A 3 de setembro, surgiu a notícia de que o interventor Landri Sales iria transferir os presos para a cidade do Rio de Janeiro. O des. Joaquim Vaz da Costa solicita audiência com o capitão Carlos Augusto Colares Moreira. Des. Joaquim Vaz da Costa - É verdade que os presos políticos serão levados para o Rio de Janeiro? - Capitão Carlos Augusto Colares Moreira - Sim, é verdade, e irão todos. Des. Joaquim Vaz da Costa - Capitão, eu não irei como preso político para o Rio de Janeiro. Capitão, com toda franqueza, eu lhe digo, que só sairei do Piauí, morto! Aos pedaços! O capitão Carlos Augusto Colares Moreira foi despachar com o interventor Landri Sales que, após ouví-lo, abriu a gaveta da mesa e tirou um maço de folhas de papel, com requerimentos pedindo o cancelamento da remoção dos presos, especialmente a do des. Joaquim Vaz da Costa. Passou a ler, em voz alta, os nomes dos requerentes: Apostolado do Coração de Jesus (Irmãs Catarinas), Lojas Maçônicas, Instituto dos Advogados, Centro Acadêmico da Faculdade de Direito, Associação Comercial Piauiense. O interventor parou e disse que eram tantos requerimentos, que dava a ideia de que ele havia mexido com Deus e o Diabo ao mesmo tempo. Em seguida, dirigindo-se ao capitão Carlos Augusto Colares Moreira, disse: Capitão! Já resolvi. Manda soltar o des. Joaquim Vaz da Costa e todos os outros presos. Paralelamente, o des. Joaquim Vaz da Costa foi processado pela Justiça Militar, cujo processo foi arquivado por falta de delito, previsto na legislação castrense. Houve também processo na Justiça Estadual, mas o des. Joaquim Vaz da Costa foi absolvido pelo Tribunal de Justiça do Estado, por três votos contra um.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Mário de Andrade

VIDA DO ESCRITOR FOI UM "VULCÃO DE COMPLICAÇÕES"

Publicado na Folha de S.Paulo, domingo, 26 de setembro de 1993

José Geraldo Couto
Mario Cesar Carvalho
Da Reportagem Local
  
Mário de Andrade era um mistério. Ele próprio ajudou a construir essa imagem. "Eu sou trezentos... sou trazentos-e-cinquenta", escreveu no "Remate de Males" (1930). O verso até agora serviu para interpretar suas múltiplas atividades, de poeta a etnógrafo. Mas um exame mais detalhado de sua correspondência e de suas amizades revela que o homem era mais do que 350, às vezes era 351, como o próprio Mário corrigiu em carta à poeta mineira Henriqueta Lisboa: o 351° era o "indivíduo infame, diabólico, que eu carrego toda a vida comigo". Não foi a única vez que Mário se referiu a essa sina. A José Bento Ferraz, seu secretário particular entre 1934 e 1945, costumava dizer: "Há um lado hediondo no meu caráter". Aos 80 anos, José Bento diz: "Eu não acho que o Mário tenha algum lado hediondo em seu caráter".
Não se sabe por quê, mas foi esse o dogma que ficou na história do modernismo. Enquanto Oswald de Andrade era o devasso, o piadista, Mário era o "scholar", o erudito, o monumento moral, imagem que incomodava o próprio escritor: "Me vejo convertido a erudito respeitável e, o que é pior, respeitado. Isso me queima de vergonha", escreveu em 1942 ao jornalista e crítico Moacir Werneck de Castro.
De santo e erudito, Mário até tinha muito. Nascido numa família católica, foi congregado mariano, ia à missa todos os domingos até o final dos anos 20, carregava vela em procissão e cantava no coro da Igreja Santa Ifigênia, no centro de São Paulo. Mesmo se afastando da igreja, conservou-se cristão até a morte, em 1945. Sua erudição pode ser medida pela extensão e variedade de sua obra (58 livros, entre poesia, ficção, ensaio e correspondência) e pelo tamanho de sua biblioteca (17 mil volumes, principalmente de música, arte, literatura, etnologia e folclore). Mas Mário não era só santo e erudito. Sob o clichê sacralizado se esconde um "vulcão de complicações", segundo autodefinição de 1925. Era vaidoso, sensual, gostava de tomar seus porres, experimentava drogas "com um interesse apaixonado" e dizia ter uma "espécie de pansexualismo". Só usava ternos de casimira inglesa ou linho branco S-120. Em casa andava de robe de seda (alguns desenhados por ele). Mandava seu secretário comprar a loção francesa Rêve Rose para passar na careca, usava pó-de-arroz na face para atenuar o tom amulatado da pele, herança das avós materna e paterna, ambas mulatas. Porres e experiência com drogas Mário reservava principalmente para as viagens. No Carnaval de 1929, na sua segunda viagem ao Nordeste (a primeira foi entre 1927 e 1928), cheirou éter e cocaína "loucamente" com seus amigos de Recife, entre os quais o pintor Cícero Dias e o escritor Ascenso Ferreira. "Passei a noite sob efeitos reprovocados de coca e éter, uma luxúria até 6 da manhã", conta em "O Turista Aprendiz". Radicado em Paris desde 1937, Cícero Dias. 85, diz hoje que há um "certo exagero" sobre a cocaína: "Usava-se mais porre de éter".
Foi no Rio, onde viveu de julho de 1938 a fevereiro de 1941, trabalhando no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que Mário se "desmandou" na bebida, como diz seu secretário Bento. Foi a primeira e única vez que morou fora de São Paulo, de onde saiu depois de chefiar três anos o Departamento de Cultura. Os pileques de choque eram na Taberna da Glória, onde se reunia com Carlos Lacerda, Moacir Werneck de Castro, Murilo Miranda e Lúcio Rangel. Apesar de Mário dizer que chegou a perder três vezes a consciência, Maria Amélia Buarque de Holanda, 83, viúva do historiador Sérgio Buarque de Holanda, recorda que "ele bebia forte mas não era dos mais porristas". Quando Paris foi ocupada pelos alemães, em junho de 1940, Mário e Sérgio esvaziaram uma garrafa de uísque.
A pista sobre o Mário sensual foi dada pelo próprio: "Há também um outro elemento, delicado de tratar, mas que tem uma importância decisória em minha formação: a minha assombrosa, quase absurda - o Paulo Prado já chamou de 'monstruosa' - sensualidade", escreveu à musicóloga Oneyda Alvarenga em 1940.
Essa sensualidade se dirigia a objetos (sobretudo livros e obras de arte), à natureza ("descobri que seria capaz de ter relações sexuais com uma árvore!", contou ao escritor Rosário Fusco em carta de 1934) e a seres humanos de ambos os sexos.
Aí, em torno de sexualidade de Mário de Andrade, esbarra-se no tabu dos tabus. Quase 50 anos depois da morte do escritor, um único libro aborda, embora timidamente, sua homossexualidade: "Mário de Andrade - Exílio no Rio", de Moacir Werneck de Castro. O autor parte das análises literárias de João Luiz Tafetá (no livro "Figuração da Intimidade — Imagens na Poesia de Mário de Andrade") e da correspondência do escritor para concluir que "na raiz do drama existencial de Mário de Andrade jaz a angústia da sexualidade reprimida e transformada em difusa pansexualidade".
Hoje com 78 anos, Werneck lembra que na sua roda de amigos não se suspeitava que Mário pudesse ser homossexual. "Supúnhamos que fosse casto ou que tivesse amores secretos. Se era ou não isso não afeta sua obra, nem seu caráter".
A dúvida é tão antiga quanto o modernismo. Já em 1923, Mário comentava sua fama de "pederasta" em carta a Sérgio Miliet: "Já sabia da reputação. Não me surpreendeu. Será a celebridade que se aproxima? Eis-me elevado à turva e apetitosa dúvida que doira a reputação de Rimbaud, Verlaine, Shakespeare, Miguel Anjo, Da Vinci". Em 1929, quando rompe com o escritor Oswald de Andrade, a dúvida cresce mais ainda, impulsionada pelo que o ensaísta Antonio Candido chamou de "piadas sangrentas" de Oswald. Uma delas: Mário é "muito parecido pelas costas com Oscar Wilde".
A curiosidade é estimulada por um pedido de Mário: as cartas que recebeu, hoje trancadas em cofre no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, só podem ser abertas em 25 de fevereiro de 1995, 50 anos após sua morte. Uma carta do próprio Mário ao poeta Manuel Bandeira também está vetada até 1995. O mistério está guardado na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio. Só em 1990 Antonio Candido, que conviveu com os dois Andrades, tocou de forma mais direta no assunto: "O Mário de Andrade era um caso muito complicado, era um bissexual, provavelmente", afirmou em depoimento ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo. "Os únicos casos concretos que a gente tem sobre a vida afetiva dele são casos com mulheres que a gente sabe quais foram. Ele tinha uma sensibilidade de homossexual, isto é fora de dúvida, vê-se pela obra dele". Mário diz no poema "Girassol da Madrugada" que teve quatro "amores eternos": "O primeiro era a moça donzela,/ O segundo ...eclipse, boi que fala, cataclisma,/ O terceiro era a rica senhora,/ O quarto és tu...", O "tu" era R.G., a quem o poema é dedicado. Mário revelou seu nome completo a Manuel Bandeira, que teve o cuidado de suprimi-lo quando o publicou em 1958 as cartas que Mário lhe mandara.
Dos outros amores sabe-se que "a rica senhora" é Carolina Penteado da Silva Telles, filha de Olívia Guedes Penteado. Durante dez anos, de 1924 a 1934, Mário frequentou os saraus no casarão de Olívia e via Carolina quase semanalmente, casada com Gofredo Teixeira da Silva Telles. "Ele sempre foi muito cavalheiro, muito respeitoso, uma pessoa corretíssima", lembra Carolina hoje com 99 anos, "Só fui saber que eu era a paixão da vida dele quando a Tarsila me contou na missa de sétimo dia de Mário. Eu nunca soube de nada".
Tarsila, a pintora Tarsila do Amaral, foi outro amor platônico de Mário nos tempos heróicos do modernismo, época em que era casada com Oswald. O episódio Carolina ilustra como Mário era "um homem difícil, que só lentamente rompia suas barreiras defensivas", como escreveu o crítico Mário da Silva Brito. Embora sempre cercado de amigos, parentes e administradores, o próprio escritor parecia condenar-se a uma solidão sem remédio. Na última carta que escreveu à pintora Anita Malfatti, em 26 de julho de 1939, confessou: "Ninguém poderia chegar a gostar inteiramente de mim, porque com meu jeitão feiúdo e a forma pouco esperta e ácida do meu espírito não dou bem-estar a ninguém".
O represamento afetivo, não raro, virava tormenta. Foi no período que viveu no Rio que seus dilemas se intensificaram. Acima de tudo, Mário se atormentava com a distância da mãe, Maria Luísa, com quem morou até a morte: "Estou literalmente desesperado, não aguento mais esta vida do Rio, e ou acabo comigo ou não sei. Às vezes sinto que a única salvação é voltar pra S. Paulo de uma vez. Lá eu tenho de perto a imagem de minha mãe, que de longe não é suficientemente forte pra vencer meus desesperos", queixava-se a Paulo Duarte em 1939.
Havia também a Guerra. Embora nunca tenha ido à Europa (só saiu do Brasil uma vez, em 1927, quando foi ao Peru), lamentava a destruição de bens culturais e valores que prezava. Por tudo isso, Mário se dilacerava em, dúvidas: não sabia se devia se dedicar exclusivamente à ficção, à pesquisa mais erudita ou à participação direta na vida política (vivia-se a ditadura de Vargas).
Em 1942, quando já voltara a São Paulo, as dúvidas transformam-se em "mea culpa", uma espécie de autoflagelação intelectual. Na conferência sobre os 20 anos do modernismo, faz ataques ao movimento ("era nitidamente aristocrático") e considerava-se pessoalmente um fracassado: "Tendo deformado toda minha obra por um antiindividualismo dirigido e voluntarioso, toda a minha obra não é mais que um hiperindividualismo implacável. É melancólico chegar assim no crepúsculo sem contar com a solidariedade de si mesmo". Tinha 48 anos à época. Vivia se queixando de doenças e da falta de dinheiro.
O poeta Carlos Drummond de Andrade reuniu trechos de 114 cartas a vários destinatários nas quais Mário descreve seus males —úlcera, hemorróidas, sinusite, enxaqueca, dores nos rins, colite, gripes frequentes, estafas e depressões nervosas. Debochava das doenças, vivia prevendo que morreria aos 50 ou 55 anos e chegou a escrever a Paulo Duarte em 1942; "Estou me suicidando aos poucos".
Morreu a 25 de fevereiro de 1945 de infarto, aos 51 anos. Dois anos antes, admitia "melancólico" suas vaidades: "Sou bastante artista, pelo menos até o ponto de desejar essa besteira inacreditável e inexplicável de continuar querido depois de cadáver, osso, pó filho da puta".

Cronologia
  
1893
No dia 9 de outubro, nasce Mário de Andrade em SP.
1900
Mário cursa o primário.
1905
Cursa o ginásio.
1904
Faz Primeira Comunhão
1909
O poeta italiano Marinetti lança em Paris o "Manifesto Futurista", que exalta o progresso tecnológico, entre outros temas.
1910
Mário faz um curso de piano no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e ingressa na Escola de Comércio Álvares Penteado. Frequenta por uma ano a Faculdade de Filosofia de SP.
1912
O escritor Oswald de Andrade volta da Europa trazendo repercussões do "Manifesto Futurista".
1914 Começa 1ª Guerra Mundial.
1915
Mário publica seu primeiro texto, uma critica musical.
1916 Conclui o serviço militar.
1917
Forma-se no curso de piano e vira professor do Conservatório. Publica seu primeiro livro, "Há uma Gota de Sangue em Cada Poema". Conhece Oswald.
1918
Fim da 1ª Guerra Mundial. O poeta Guillaume Apolinaire lança na França o "Manifesto do Espírito Novo".
1919
Mário faz uma primeira viagem à Minas, onde descobre o barroco e o pintor Aleijadinho.
1920
Estréia como cronista na revista "Illustração Brasileira".
1921
Publica no "Jornal do Commercio" a série "Mestres do Passado", análise dos parnasianos.
1922
Entre os dias 11 e 17 de fevereiro é realizada em São Paulo a Semana de Arte Moderna. Os modernistas se unem torno da revista "Klaxon". Mário lança "Paulicéia Desvairada".
1923
Mário começa a escrever "Fraeulein", que depois se tornaria "Amar, Verbo Intransitivo". Inicia-se na fotografia.
1924
Oswald o "Manifesto Pau-Brasil", pregando o fim de uma poesia" de importação". Mário critica "Memórias Sentimentais de João Miramar", de Oswald. Publica o ensaio "Manuel Bandeira", sua primeira obra na "língua brasileira". Faz traduções do alemão.
1925
Publica "A Escrava que não é Isaura" (ensaios). Surge o Movimento Verde-Amarelo contra o Futurismo e a poesia pau-brasil.
1926
Realizado o Congresso Regionalista do Recife, contra a "imitação" do Modernismo europeu e com raízes na cultura nacional e regional, Mário escreve "Macunaíma" nas férias de fim de ano em Araraquara (SP).
1927
Mário viaja para a Amazônia. Publica "Amar, Verbo Intransitivo" e "Clã do Jaboti". Do grupo Verde-Amarelo surge o da Anta, com preocupações mais políticas do que literárias. Surge o grupo da revista "Festa", de tendência espiritualista.
1928
Mário publica "Macunaíma" e "Ensaio sobre a Música Brasileira". Em oposição ao grupo da Anta, Oswald lança o "Manifesto Antropofágico", que repudia a linha moderna do pensamento artístico e literário europeu e prega o retorno ao primitivismo. Mário viaja para o Nordeste.
1929
Quebra da Bolsa de Nova York leva à crise da monocultura cafeeira, base econômica do movimento modernista brasileiro. Rompe o núcleo modernista: do grupo Verde-Amarelo surge a Bandeira, de linha autoritária, da Anta surge o Integralismo; a Antropofagia se divide entre o radicalismo de esquerda e o Partido Democrático. Oswald publica na "Revista da Antropofagia" ataques a Mário.
1930
As revoltas tenentistas —contra o controle das eleições pelo poder estatal— desembocam na Revolução de 30, que Mário apóia, Publica "Remate de Males" (poesia) e "Modinhas Imperiais" (ensaios).
1932
Acontece em SP a Revolução Constitucionalista, que Mário também apóia, contra o regime de exceção imposto pelo governo.
1933
Mário publica "Belazarte".
1934
Cria o Departamento Municipal de Cultura.
1935
Publica "Aleijadinho e Álvares de Azevedo" (ensaios).
1937
Mário elabora a lei de criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
1938
Cria no Brasil, com o antropólogo francês Lévi-Strauss, a Sociedade de Etnografia e Folclore. Deixa o Departamento de Cultura e segue para o Rio, como diretor do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal.
1939
Começa a 2ª Guerra Mundial. Numa conferência, Mário ataca o fascismo e a política expansionista da Alemanha. Viaja pelo Brasil.
1942
Volta para SP e para o Serviço do Patrimônio.
1945
No 1° Congresso da Associação Nacional dos Escritores, protesta contra a ditadura do Estado Novo, implantada por Getúlio Vargas. No dia 25 de fevereiro, morre Mário de Andrade na sua casa da rua Lopes Chaves, vítima de um infarto.

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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Mário de Andrade, o Piauí de Laura Moura e outras paixões

O poeta e crítico Francisco Miguel de Moura, no caderno Torquato (dia 7 de setembro de 1997), do jornal O Dia (Teresina-PI), escreveu interessante artigo dando a sua "certeza de que pelo menos dois poetas famosos lembraram do Piauí em seus poemas". 
Francisco Miguel nos fala do Carlos Drummond de Andrade, com os poemas (O Padre, A Moça (Lição de Coisas - I ATO, segunda estrofe)

“(...) Lá vai o padre atravessa o Piauí, lá vai o padre
 bispos correm atrás, lá vai o padre
 lá vai o padre, a maldição monta cavalos telegráficos,
lá vai o padre lá vai o padre lá vai o padre,
o diabo em forma de gente, sagrado.(...)”
e Cemitérios (Fazendeiro do Ar - Item II - Campo-Maior)

“No cemitério de Batalhão os mortos do Jenipapo
Não sofrem chuva nem sol; o telheiro os protege
Asa móvel na ruína campeira.”

O poeta Francisco Miguel de Moura informa que não sabia o título do segundo poema e nem o havia decorado. Também não diz o título do primeiro poema. Neste, cita o nome do livro errado - Lição das Coisas, quando é Lição de Coisas. Naquele, nada do nome do livro. No livro Reunião, do poeta Carlos Drummond de Andrade, quarta edição, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1973, conferi O Padre, A Moça, página 250, e Cemitérios, página 207.
Ao transcreverem parte do poema Cemitérios (Item II - Campo-Maior), do Carlos Drummond de Andrade, no Monumento à Batalha do Jenipapo, cometeram três erros. Primeiro: erraram o nome do poeta. Segundo, escreveram Asa com Z - AZA. Terceiro, não obedeceram à disposição visual dos versos no poema.
Mas, deixando isso um pouco de lado, tratemos do outro famoso poeta citado pelo Francisco Miguel de Moura, que nada mais é do que o Mário de Andrade, com o poema Eu Sou Trezentos... (7/VI - 1929 - Remate de Males, São Paulo, 1930), aqui reproduzido para melhor leitura de um dos trabalhos mais citados do autor de Macunaíma.

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh, espelhos, ôh.' Pirineus.' ôh caiçaras!,
Se um Deus morrer irei no Piauí buscar outro! *

Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis nas camarinhas seus próprios beijos.

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

Sem qualquer pretensão de partir para uma análise da obra em questão (ou outra que se apresente), apenas chamo a atenção para este verso

Se um Deus morrer irei no Piauí buscar outro!

inspirado pela quadrinha popular:

o meu boi morreu
que será de mim
manda buscar outro, ó maninha, lá no Piauí.

Mário, pesquisador contumaz, conhecia, como ninguém, as coisas da nossa cultura. Dai este belo exemplo de aproveitamento dessa que é uma das principais manifestações da nossa arte popular.

NAS TERRAS DO MACUNAÍMA

O Piauí, por duas vezes, será citado em Macunaíma, o mais conhecido e comentado livro de Mário de Andrade.
A primeira, no Capítulo XI. A Velha Ceiuci (pág 107):

(...) Então a velha apeou do tapir e montou num cavalo gázeo-sarara’que nunca prestou nem prestará e seguiu. Quando ela virou a serra do Paranacoara os padres tiraram o herói do pote, deram pra ele um cavalo melado-caxito que tanto é bom como é bonito e mandaram ele embora. Macunaíma agradeceu e galopou. Logo adiante encontrou uma cerca de arame porém era cavaleiro: deu um sacalão, esbarrou o pongo e ajuntado as mãos do animal caído com um jeito forte fez o cavalo girar e passar por debaixo do arame. Então o herói pulou a cerca e amontou de novo. Galopeou galopeou galopeou. Passando no Ceará decifrou os letreiros indígenas do Aratanha; no Rio Grande do Norte costeando o serrote do Cabelo-não-tem decifrou outro. Na Paraíba, indo de Manguape pra bacamarte passou na Pedra-Lavrada com tanta inscrição que dava um romance. Não leu por causa da pressa e nem a da Barra do Poti no Piauí, nem a de Pajeú em Pernambuco, nem a dos Apertados do Inhamum: “Baúa! Baúa!” Era a velha Ceiuci chegando. Macunaíma pernas pra que vos quero pelo eucaliptal. Mas o passarinho sempre mais perto e Macunaíma isso vinha que vinha acochado pela velha. Afinal topou com a biboca dum surucucu que tinha parte com o canhoto. (...).

A outra passagem está no Capítulo XVI. Uraricoera (Págs. 154):

(...) Os trabalhadores estumaram a cachorrada no herói. Isso mesmo que ele queria porque teve medo e chispou bem. Na frente abria a estrada das boaidas. Macunaíma isso vinha que vinha acochado pela sombra, nem turtuveou: meteu pelo estradão. Mais adiante estava dormindo um boi malabar chamado Espácio que viera do Piauí. O herói deu um trompaço nele de tanta fúria. Isso o boi saiu numa galopada louca de susto e lá goi cego manadeiro abaixo. Então Macunaíma quebrou por uma picada sem jeito e se amoitou por debaixo dum mucumuco. A sombra escutava a bulha do marruá galopeando e imaginou que era Macunaíma, foi atrás. Alcançou o boi e pra não perder a pernada fez poleiro no costado dele. E cantava satisfeita:

“Meu boi bonito,
Foi alegria,
Dá uma deus
Pra toda a família!

Ôh... êh bumba,
Folga meu boi!
Ôh... êh bumba,
Folga meu boi!” (...)

UMA HISTÓRIA APÓS A OUTRA

Francisco Miguel de Moura contou a historinha do famoso papo entre o saudoso mestre A. Tito Filho e o poeta Carlos Drummond de Andrade, quando este recebendo, por intermédio do ex-presidente da nossa Academia Piauiense de Letras, convite do governador Alberto Silva para fazer uma conferência na reinauguração do Theatro 4 de Setembro, declinou à sua maneira:
- “Nunca fiz uma conferência em toda a minha vida, não iria começar pelo Piauí”.
 - “Poeta, seria uma forma de promovê-lo. É que lá ninguém o conhece”.
Drummond não perdeu a pose:
- “Pois diga para o seu governador que eu vou ficar desconhecido no Piauí”.
CDA não veio ao Piauí mas trocou 4 ou 5 cartas com o nosso Francisco Miguel de Moura. E todos vivemos felizes para sempre.

NA PANCADA DO GANZÁ

A historinha que conto, aqui, diz respeito a uma paixão que Mário de Andrade teve por uma moça do Piauí, que, por pouco, não o faz vir morar em nossas terras. 
Eis  o começo da confissão de Mário de Andrade, extraída do livro Na Pancada do Ganzá:

- “Eu me dirigia diretamente por Recife, onde esperava passar uns dias de descanso. A viagem no casquinho frágil do "Manaus" com apenas duas mil toneladas, lerdo e movediço, foi de deliciosos interesses. Os passageiros poucos se deixavam olhar, enjoados nos camarotes. Mas havia, ponhamos, Laura Moura, que não enjoava, e por ela me apaixonei. Era uma moça do Piauí, com filhotinho a bordo e coronel à espera lá em casa. No princípio ela me recebeu com duas pedras na mão, só porque delicadamente lhe perguntei se o povo do Piauí gostava muito de cantar”.
- “Então o senhor pensa que o Piauí é a terra do 'Meu boi morreu”? ela me cortou muito irritada. Popularesca e pouco instruída, ela era de-certo como todas essas Polícias do Nordeste que fazem o impossível pros cordões de Bumbas, Caboclinhos e Fadangos não saiam nas ruas das cidades, pra não estragar a civilização. Me afastei de Laura Moura por metade de um dia, cheio de raiva. Mas não tive raiva pra mais, porque ela era mesmo atraente, gordinha, muito mulher séria pra se ver assim de longe. Se estabeleceu logo uma intimidade mais graciosa, em que pudemos os dois viver mas muito bem”.

O TURISTA APRENDIZ

Muito reservado no que diz respeito à sua vida sentimental, este assunto sempre foi tabu quando vivo; e morto, os amigos tratam de respeitá-lo sempre que podem. Mas, de quando em vez, algumas revelações aparecem em prosa ou em versos, como pretendemos mostrar neste breve trabalho que estamos a fazer.
No livro O Turista Aprendiz, Mário de Andrade se abre mais sobre Laura Moura. Leiamos:

Página 214.

Atlântico, 8 de dezembro, 13 horas -
... Dos companheiros não tiro nada. Nem mesmo da senhora piauiense, a segunda das duas apontadas  outro dia. Estava cantalorando ontem de noite, aproveitei o assunto pra entabular conversação com ela hoje de manhã... Laura Moura me recebeu com duas pedras na mão, se então eu imaginava que no Piauí nem tinha canções populares, que em toda parte do mundo morre boi e não é só no Piauí que o meu boi morreu... Meu Deus, eu não caçoara nem perguntara nada disso não! Só perguntara se ela podia cantarolar alguma canção típica da terra dela... Sebo! Me calei. Felizmente que chegou o filhinho dela, um piá saci temível, que me chama de retratista por causa da codaque.
- Como é seu nome, heim?
- José Camargo Machado.
- Como é o nome de sua mãe?
- Laura Moura.
- Ôh que nome bonito... e o de seu pai?
- Coronel Antônio Camargo Machado.
- Fique quieto, José!
O filho de Laura Moura jamais não saberá porque estava quieto no único momento de quietude que tivera a bordo...

Página 219.

Atlântico, 10 de dezembro, 4 horas -
Hoje com alguma probabilidade chegaremos a Recife e o mar se acaba. Isso me enquiliza bem porque estou principiando a gostar freqüentemente de Laura Moura. Ela afinal resolveu ser um bocado mais amável comigo e mesmo na janta de anteontem conversamos com fartura e se deu entre nós dois a semelhança de um prazer. Semelhança apenas porque depois do desentendimento eu inda muito paulista e ela pra se justificar da aspereza passada botara na fala a prudência das insensíveis. A conversação me lembro que ocorreu principalmente sobre bananas. Afinal a amabilidade fez o resto e já no fim da comida tomei a liberdade de dizer bem nos olhos de Laura Moura o desejo sincero de ir comer bananas em Teresina. Ela ficou bem quietinha e não nos arrependemos.
Laura Moura afinal é uma dona regularmente vulgar e sou obrigado a reconhecer que se de primeiro a distingui dentro das cunhãs de bordo foi por uma simples questão topográfica. Ela senta ao meu lado na mesa e estou com vontade de falar que senta a meus pés  tanto a carinho. Agora ela é mirim junto ao meu corpo grande. E além de sentar a meus pés, os vizinhos próximos da mesa tiveram a discrição de se conservarem enjoados pra nunca mais. Não vêm à mesa, que nem ela nos primeiros dias, e Laura Moura mais eu vogamos sozinhos numa jangada de soladamente insubmersível pelos mares.
Porém agora o mar se acaba, Laura Moura vai-se embora, eu sofro. Nada mais razoável que esta precisão de esvaziar o desejo nalgum verso... Porque Laura Moura deixou de ser vulgar, é rápida, é admiravelmente central - coisa rara nestes tempos de ambição e ganância.  E no rostinho piauiense as linhas todas convergem pra boca nova, tão vertiginosamente nova que é justo a gente se enganar tendo a impressão de que ensina pra ela... De novo a abertura do beijo.

Laura Moura...

Quando as casas baixarem de preço
Lá na cidade, Laura Moura,
Uma delas será sua sem favor.
Será um bairro bem central
Pra que o nosso mistério engane mais.

Quando as casas baixarem de preço
Você há-de ter a vossa, Laura Moura,
Lá na Cidade em que trabalho...
Há-de ser bom, pousando o rosto em vosso colo,
Prenda minha,
Me entediar como um dono,
Mal escutando as máguas de você.

Laura Moura viverá bem sossegada,
Me Servindo,
Toda Puxada pelo Piauí.
Num Longing quase bom,
Comendo alimentos comprados
Laura Moura falará de Teresina
E das Boiadas dos boiadeiros
e da polvadeira seca do Piauí.
Quando as casas baixarem de preços,
Laura Moura, prenda minha,
Uma delas será sua sem favor.
Lá fora a bulha vasta da cidade
Disfarçará nosso prazer,
E a gente numa rede maranhense
Ao som dum gramofone blue,
Balancearemos no calor da noite
Sonhando com o sertão...

PAPA DO MODERNISMO

Rubens Borba de Moraes, em Lembrança de Mário de Andrade, 7 Cartas, São Paulo, 1979, dá outras dicas amorosas do Papa do Modernismo:
... “Uma das características de sua personalidade era a reserva sobre a sua vida sentimental. Tinha pudor de sua vida íntima. Rapaz, na idade onde não se tem a menor discrição sobre aventuras femininas, nunca ouvi falar de conquistas ou proezas amorosas. Entretanto, nosso grupo vivia na maior intimidade e sabíamos tudo da vida de todos. Era tão discreto nesse particular que inventamos que deveria ter lá pelas bandas da Barra Funda ‘uma morena de jeito, teúda e manteúda’. Descobrimos, com curiosidade de meninos, que ele frequentava um rendez-vous discreto.
Perto da pensão onde morei uns tempos, na rua Jaguaribe, vivia uma mulatinha linda. Todos os rapazes a namoravam em vão. Qual não foi minha surpresa quando, uma noite, voltando para casa, vi Mário passeando de braços, muito apertadinho com a linda criatura. Casos como esse devem ter lhe acontecido com frequência. Em muito de seus contos, em certos poemas, vejo reflexos desses amores populares, pelos quais teve uma predileção em certa época. Custaram-lhe caro com tratamento e médicos.
Na rua de minha pensão morava uma jovem alemã, muito bonita que ensinava línguas. Tinha sido governanta de dois meninos em casa da família Assumpção. Nesse tempo Mário estudava alemão e andava com uma gramática na mão para aproveitar o tempo que passava em bonde, da Barra Funda à avenida São João, onde ficava o Conservatório. Uma noite, em horas que não eram absolutamente de aula, vi Mário entrar em casa da professora. Foi dessa maneira agradável e eficiente que aprendeu alemão.
Quando publicou Amar, Verbo Intransitível (que devia chamar Fraulein), notei o partido que havia tirado dessa aventura. Anos mais tarde tomei algumas aulas de inglês com essa professora. Falava-me de Mário com admiração entusiástica e saudosa.”
Telê Porto Ancona Lopez, em Uma Difícil Conjugação, prefácio ao livro Amar, Verbo Intransitivo - Idílio, de Mário de Andrade, informa que ele “estudou alemão, muito provavelmente, com duas professoras: Else Schöler Eggebert e Käthe Blosen esta, Fräulein, jovem, loura, ensinando-o na época de redação de Idílio.”
Sobre Käthe Blosen falou a miga Lotte Stevers, em 1951:
“Quando, em março de 1923, conheci Mário de Andrade, ele era para mim apenas um aluno de minha colega Kaethe, com quem eu havia alugado uma casinha, onde dávamos parte de nossas aulas e onde reuníamos nosso grupo de amigos, constituído, por falta de nossos conhecimento da língua portuguesa, na maioria de alemães recém-chegados da Europa.
Kaethe já me havia falado muito nesse seu aluno, interessante, bondoso e delicadíssimo, embora de uma feiura impressionante, que era poeta moderno e a presenteara  com um livro de sua autoria: Paulicéia Desvairada. Em sua opinião ele tinha uma coleção de quadros muito esquisita e estava loucamente apaixonado por ela.
Encontrávamos Mário de vez em quando em concertos, sempre amável, sempre disposto a ajudar”.
No livro Losango Cáqui ou Afetos Militares de Mistura com os Porquês de eu Saber Alemão aparece a história dessa jovem “de olhos matinais sem nuvens” e de “cabelos fogaréu” por quem - revela o autor - meu coração estala”.

SABE RIR, SABE GOZAR

Rubens Borba de Moraes revela ainda que Mário de Andrade “Apaixonava-se platonicamente com a maior facilidade. Muito de seu versos de amor são frutos dessas paixões sem maiores consequências. Eram amores de poeta, paixões líricas e puras como a de Petrarca. Tarsila do Amaral, antes de casar-se com Oswald de Andrade, inspirou-lhe muitos poemas. Dona Maria Carolina, filha de D. Olívia Penteado, inspirou-lhe outras série de poemas. Quase todos os versos publicados com o título de Tempo de Maria, no volume Poesias, provém dessa amor platônico.
Uma noite, em casa de Tarsila, D. Olívia pediu-lhe que dissesse um de seus poemas. Mário recitou:

Passa pura nesse mundo,
Sendo chique e sendo rica,
Tem marido, quatro filhos,
Sabe rir, sabe gozar,
O nome dela é Maria.

À medida que recitava, íamos ficando frios. Foi um alívio quando acabou. Não era para menos, pois “o nome” dela era Maria mesmo, e estava presente com o Marido! Tanta simplicidade deixou-nos perplexos. Porém “Maria” e o marido - este fora poeta - tinham superioridade e inteligência bastante para compreender e fingir que nada tinham percebido”.

UMA PAIXÃO DO PERU 

Quando em Iquitos, no Peru (única vez que Mário botou os pés fora do Brasil), em excursão com dona Olívia Guedes Penteado e sua camareira, a embaixadora Margarida Nogueira e Dulce Amaral, filha da pintora Tarsila do Amaral, o nosso dom Juan apaixonou-se perdidamente pela peruana Isabel, de apelido Chabuca. - “Foi seu amor passageiro, inclusive nas danças de todas as noites”, dedura a embaixadora Margarida Nogueira.

GIRASSOL DA MADRUGADA

Em Girassol da Madrugada, encontraremos outras inspirações oriundas destas suas fugas psicológicas.

I

De uma cantante alegria onde riem-se as alvas uiaras
Te olho como se deve olhar, contemplação,
E a lâmina que a luz tauxia de indolências
É toda um esplendor de ti, riso escolhido no céu.

Assim. Que jamais um pudor te humanize. É feliz
Deixar que o meu olhar te conceda o que é teu,
Carne que é flor de girassol! sombra de anil!
Eu encontro em mim mesmo uma espéciel de abril
Em que se espalha o teu sinal, suave, perpetuamente.

II

Dia aos menos que você quer mais desses gestos traiçoeiros
Em que o amor se compõe feito uma luta;
Isso trará mais paz, porquanto o caminho foi longo,
Abrindo o nosso passo através dos espelhos maduros.

Você não diz, porém, o vosso corpo está leindo no ar,
Você apenas esconde os olhos no meu braço e encontra a paz na escuridão.
A noite se esvai lá fora serena sobre os telhados,
Enquanto o nosso paz guarda, soleníssimo,
Radiando luz, nesse esplendor dos que não sabem mais pra onde ir.

III

Si o teu perfil é puríssimo, si os teus lábios
São crianças que se esvaecem no leite,
Si é pueril o teu olhar que não reflete por detrás,
Si te inclinas e a sombra caminha na direção do futuro :

Eu sei que tu sabes o que eu nem sei si tu sabes,
Em ti se resume a perversa e imaculada correria dos fatos,
És grande por demais para que sejas só felicidade!
És tudo o que eu aceito que me sejas
Só pra que o sono passe, e em acordares
Com a aurora incalculavelmente mansa do sorriso.

IV

Não abandonarei jamais de-noite as tuas carícias,
De-dia não seremos nada e a ambições convulsivas
Nos turbilhonarão com as malícias da poeira
Em que o sol chapeará torvelins uniformes.
E voltarei sempre de-noite ás tuas carícias,
E serão búzios e bumbas e tripúdios invisíveis
Porque a Divindade muito naturalmente virá.
Agressiva Ela virá sentar em nosso teto,
E seus monstruosos pés pesarão sobre nossas cabeças,
De-noite, sobre nossas cabeças inutilizadas pelo amor.

V

Teu dedo curioso me segue lento no rosto
Os sulcos, as sombras machucadas por onde a vida passou.
Que silêncio, prenda minha... Que desvio triunfal da verdade,
Que círculos vagarosos na lagoa em que uma asa gratuita roçou...

Tive quatro amores eternos...
O primeiro era uma donzela,
O segundo... eclipse, boi que fala, cataclisma,
O terceiro era a rica senhora,
O quarto és tu... E eu afinal me repousei dos meus cuidados.

VI

Os trens-de-ferro estão longe, as florestas e as bonitas cidades,
não há senão Narciso entre nós dois, lagoa,
Já se perdeu saciado o desperdício das uiaras, 
Há só meu êxtase pousando devagar sobre você.

Ôh que pureza sem impaciência nos calma
Numa fragrância imaterial, enquanto os dois corpos se agradam
Impossíveis que nem a morte e os bons princípios.
Que silêncio caiu sobre a vossa paisagem de excesso dourado!
Nem beijo, nem brisa... Só, no antro da noite, a insônia apaixonada
Em que a paz interior brinca de ser tristeza.

VII

A noite se esvai lá fora serena sobre os telhados
Num vago rumor confuso de mar e asas espalmadas,
Eu, debruçado sobre vossa perfeição, num cessar ardentíssimo,
Agora pouso, agora vou beber vosso olhar estagnado, ôh minha lagoa!

Eis que ciumenta noção de tempo, tropeçando em maracá,
Assusta guarás, colhereiras e briga com os arlequins,
Vem chegando a manhã. Porém mais compacta que a morte,
Para nós é a sonolenta noite que desce detrás das carícias esparsas.

Flor! Flor!...
Graça dourada!...
  Flor...

Rubens Borbas de Moraes traça um perfil do Mário, que me lembra Caetano Veloso na sua canção Sampa

É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes

Eis o perfil:

- “Uma noite na casa de D. Olívia, indo lavar as mãos, aproveitou para esfregar no nariz um papelzinho. Acabada a operação em frente ao espelho, exclamou:
- Meu Deus, como sou feio!
De fato era feio, mas, como dizem os caboclos, de uma feiúra simpática!
Não reparávamos nessa feiúra. Só quando alguém estranho ao grupo a mencionava é que atentávamos para aquele queixo forte e prognata, mundo de dentes grandes. Acabou-os substituindo-os por uma linda dentadura. Inventamos que ela custara tão caro que, para pagá-la tinha hipotecado a casa e, para fazer funcionar um aparelho tão grande, usava um motorzinho elétrico disfarçado no bolso. Mário ria-se. Ninguém se divertia mais que ele com essas brincadeiras.
Tinha as mãos grandes de pianista e peludas. Os traços bem marcados. Os cabelos pretos perdeu-os muito cedo, ficou com uma vasta careca.
Era o queixo que o enfeiava. Os olhos ainda que muito pequenos e míopes pareciam vivíssimos. A fisionomia era tão expressiva que nela se liam todas as suas emoções. Os lábios estavam quase sempre abertos. A voz era extremamente agradável.
Mário cantava bem, com voz agradável e sem pretensão.
Vejo-o ao piano em casa de D. Olívia, tocando e cantando. Um dia apareceu entusiasmado. Tinha composto a leta e a música de uma modinha. Sentou-se ao piano e balançando o corpo, a cabeça para trás, os olhos semi cerrados, embalado pela música, cantou langorosamente:
Minha viola gemeu,
Meu Coração estremeceu,
Minha viola quebrou,
Teu coração me deixou.

Foi um sucesso! Villa Lobos, D. Olívia, Tarsila, todos os presentes acharam a canção esplêndida. Elsie Houston e Germaninha Bittencourt passaram logo a cantá-la em seus concertos. Mário porém proibia que se mencionasse seu nome no programa. Dizia que sua ambição era que a modinha passasse para o folclore anônimo como toda toada popular paulista. E passou. Tenho ouvido cantar a viola quebrada sem a menção do nome do autor. Minha sobrinha costumava cantá-la ao violão e ficou muito surpresa quando lhe disse que era do Mário de Andrade”.
Mário tinha tudo para encantar. Falava francês muito bem. Lia alemão e inglês sem dificuldades. Italiano e espanhol também. Tinha cultura geral. Era um verdadeiro erudito. Era professor de música e outras artes.
Assim, apesar do seu recato, tinha tudo para ser um danadinho. E foi. Mário, teve às escondidas, platonicamente ou não, teve inúmer(o)as amantes, ainda que passageir(o)as, “don(o)as de todas as classes sociais e de todas as matizes de pele”.

O RIO DO RISO E DO GUIZO

Rubens Borba de Moraes divide a vida de Mário de Andrade em duas partes:
“A primeira passou em São Paulo, firmemente ancorado no seio da família, na sua casa, cercado dos livros, quadros, os objetos de que gostava e entre amigos íntimos. Era extremamente apegado a tudo isso e nesse ambiente é que se sentia realizado e feliz. Salvo umas viagens pelo norte do Brasil e Minas, Mário nunca viveu fora de casa, longe de seu ambiente. De repente a derrocada do Departamento de Cultura, provocada pelo prefeito Prestes Maia, deixou-o no ar. recomeçar sua carreira de professor do Conservatório, há tanto abandonada, não era mais possível. Mário passou por uma crise terrível de desilusão, de desânimo e de nojo. Seus amigos do Rio, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Rodrigo Melo Franco de Andrade e o ministro Capanema, insistiram para que fosse para o Rio. Ofereceram-lhe diversos cargos. Mário hesitou. Discutimos muito o assunto em casa de Paulo Duarte. Acabou indo. Alugou um apartamento no Catete, procurou recomeçar a vida, a restabelecer o equilíbrio de suas finanças.
O que sofreu nesses primeiros tempos de ambientação não sei se escreveu nos seus caderninhos. Ela leu algumas das cartas que me mandou nessa época transparece seu desespero. Não me esquecerei uma visita que lhe fiz no Rio. Cheguei no seu apartamento quase ao meio dia com a intenção de irmos almoçar em qualquer lugar e conversamos à vontade. Toquei a campainha diversas vezes antes que me viesse abrir, de pijama, com os olhos empapuçados, a fala pastosa. Desculpou-se, estava dormindo. Sentado na cama disse-me que sentia um vazio, não se ambientava, não conseguia fazer sua vida, trabalhar direito. Tudo lhe parecia inútil e fútil. Não conseguia equilibrar-se de novo.
- Sabe, dei para beber. Tomo bebedeiras! Caí na farra... Mas basta de dizer besteiras! Me fale de São Paulo, conte com vai tudo.
Falei e contei as novidades. Fomos almoçar e conversamos longa e intimamente. Voltei no dia seguinte para São Paulo, desolado. Tinha a impressão de ter visto uma amigo afogar-se muito longe no mar e, eu, na praia, sem poder fazer nada!
Mário, nesta segunda fase de sua vida no Rio de Janeiro, caiu numa roda de rapazolas literatos e boêmios e fez o que não fizera em moço: farras. Nos intervalos conseguia, assim mesmo, trabalhar, dar aulas na universidade do Distrito Federal, escrever artigos e redefinir projetos para o ministro Capanema. Mas, na sua idade, não tinha mais saúde para aguentar uma vida boêmia. Ficou doente. Vivia doente. Quando voltou para São Paulo, estava com a saúde seriamente abalada.
Vi pouco meu amigo nessa época. Eu também fora obrigado a mudar-me para o Rio. Mário já tinha voltado para a rua Lopes Chaves. Vinha raramente a São paulo. Numa dessas viagens rápidas encontrei-o na rua Libero Badaró. Estava magro, esverdeado, acabado. Queixou-se da saúde longamente. Quando o deixei percebi claramente que Mário estava passando por um processo de auto-destruição. Esse processo vinha de longe. Vinha do tempo do Rio. Estava agravado. Deixara-se invadir pelo grande nojo da vida. Nada mais encontrava como motivo para viver. Tinha ido até o fundo e só encontrara o vazio. Suas moléstias indefinidas eram psicossomáticas: resultado dessa falta de vontade de viver. Não tinha ânimo para reagir, deixou-se morrer”.
Este lado do Mário, que pouca gente sabe e que poca gente comenta, ganha agora um capítulo inteirinho do livro Tantos Anos (Siciliano), de Raquel de Queiroz. A autora de O Quinze fala do homossexualismo reprimido e sufocado desse que foi um dos maiores nomes do movimento modernista brasileiro.
“Tenho a impressão que a vida pessoal de Mário de Andrade era muito vazia. Talvez porque ele não ousasse assumir o seu sufocado homossexualismo. Tinha umas irmãs solteironas, com quem vivia. E assim, a todo jovem que o procurava, ele correspondia amigavelmente”.
Raquel atribui a compulsão do Mário em escrever cartas por cima de cartas justamente ao homossexualismo reprimido.
“Ele mantinha amizades a distância para compensar a frustação em sua vida pessoal”.
Pelo que lemos acima, quem estiver disposto a pesquisar o amor em Mário de Andrade encontrará muitas maçãs pelo meio do caminho. Isso porque, a vida pessoal do Mário é uma mar de enigma a todos a dizer: Decifra-me ou Defloro-te?.
Quem se habilita?

NOTAS:

O Turista Aprendiz (Diário de Viagem). Estabelecimento de texto, introdução e notas de Telê Porto Ancona Lopez. Sp. Duas Cidades, 1976.

 Na Pancada do Ganzá (- página 57. Prefácio de Mário de Andrade).

Pompílio Santos


Pompílio Santos - As Quatro Faces do Diabo. Corina Barbosa Lopes, a taquigrafa mais tchan da cidade, acaba de me enviar, copiada do gravador para o computador, a entrevista que eu fiz com o velho amigo Pompílio Santos, um dos jornalistas mais polêmicos, temidos, odiados (e amados) que já passou por nossas redações de jornais. Sua coluna, para terem uma ideia, chamava-se As Quatro Faces do Diabo. Processado, inúmeras vezes, nunca foi condenado, porque o que escrevia podia provar. Pois bem, esta entrevista vai virá mais um livro meu, cujo titulo será Pompílio Santos - As Quatro Faces do Diabo. Vejam um dos trechos. Se gostarem, peçam mais, mas não entrevista toda. Fiquem de tocaia para o livro. Com fé, esperança e amor.
Kenard Kruel – Pompílio Santos, o senhor era o editor do Jornal O DIA, do coronel Octávio Miranda, e, por não gostarem de uma notinha que saiu uns militares foram lá para matá-lo. Como foi esta história?
Pompílio Santos – Realmente eles foram para me matar. Aconteceu por volta de 1970, na época do presidente Médici (30 de outubro de 1969 a 15 de março de 1974). Eu sou um cara devoto de São Francisco. Tudo que aconteceu comigo acabou se frustrando. Chegaram três tenentes, com aquelas 45, todos com cara de poucos amigos. Um dos tenentes, na farda tinha o nome de Guimarães, era irmão do Napoleão Guimarães, que era o prefeito de Timon. Ele era tio do empresário Paulo Guimarães, do Grupo Meio Norte de Comunicação. Ai eu recebo um telefonema, às 8 da manhã, o jornal funcionava no porão de uma casa, entre as Ruas Sete de Setembro e Areolino de Abreu, demolida para dar lugar à construção da Igreja Batista... O coronel Octávio Miranda mandou fazer o sótão. Quando eu atendo, do outro lado da linha, a voz disse: “Eu quero falar com o senhor Pompílio Santos, editor do jornal”. Eu disse: - “Está falando com ele”. Ele replicou: “Você publicou, em seu jornal, que o meu irmão e ladrão. Pois bem, eu não quero tratar disto por telefone, eu quero ir ai para tratarmos do assunto cara a cara”. Eu disse: “Pois não!” E eu achando só podia ser trote. “Pois não, pode vir agora”. Não demorou 10 minutos, descem os 3 tenentes, de um Jipe. Eu, então, tive a noção do perigo: “Porra, não é trote não, estou f.....” (Rindo). Era verdade. Ai quando os dois subiram – um ficou na direção do veículo. “Quem é o editor Pompílio Santos?” “Está falando com ele. Ah, foi o senhor quem telefonou agora?” “Foi, eu sou o tenente Guimarães, irmão do prefeito de Timon, o Napoleão Guimarães e vim passar a limpo esta história do senhor publicar que ele é ladrão'” Eles pensaram que eu me intimidaria. Claro que eu estava intimidado. Dois militares de armas nas mãos, mas eu não podia demonstrar fraqueza. Eu tinha que ser o exemplo para os demais da redação. Um jornalista que se acovarda deve procurar outro emprego. Então, eu disse: “Os senhores acham que o seu comandante aprovará esta proeza dos senhores virem aqui, na redação, com estas armas em punho? Sentem aqui dois minutos, que eu vou telefonar para o seu comandante, o coronel Mário Ramos”. Os dois já ficaram apavorados. Ai já se levantaram. E eu disse, com voz forte, encarando-os nos olhos: “Não se levantem, os senhores continuem sentados ai que já eu falo com o Coronel Mário Ramos”. Ai não houve jeito, eles foram saindo da redação me esculhambando: “Filho da puta, cretino, canalha, imprensa marrom, isto não vai ficar assim não, nós vamos te pegar, tom cuidado!” E não sei o que mais, uma porção de palavrões. Com o telefone nas mãos e as mãos tremendo assim, de medo, eu vi que eles queriam mesmo era me matar. Caso eu não tivesse agido com firmeza, eles teriam me matado. Seu Kenard Kruel, eu fiquei com muito medo. Então, quando eles estavam lá em cima, com as armas nas mãos, e, quando eu vi as mãos deles tremerem, eu pensei: “Estes caras estão com medo também. Agora, com muita fé, eu me sentia protegido por São Francisco. Eu sempre foi protegido por São Francisco. Eu passei várias ocasiões deste tipo. Quer ver, você fale com o major Joel Ribeiro, que era o chefão do setor de imprensa da Guarnição Federal em Teresina, e testemunhou algumas destas paradas.
Com Albert Piauhy, que pegou furo meu nesta entrevista.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Marechal Firmino Pires Ferreira

Vaca Brava, com o era chamado o marechal e senador Firmino Pires Ferreira, nasceu em Barras do Matatoan, em 25 de setembro de 1848. Filho do coronel José Pires Ferreira e de Maria Joaquina de Jesus Castello Branco Carvalho de Almeida. Neto paterno de Maria da Assumpção Pires Ferreira e de Luiz de Souza Fortes Bustamante de Sá Menezes. Bisneto de José Pires Ferreira e de Marianna de Deus Castro Diniz. Firmino Pires Ferreira. Entrou para o Exército em 11 de janeiro de 1865, como soldado. Cadete, tomou parte na Guerra do Paraguai (1866 a 1870) - Durante a Guerra do Paraguai serviu com o capitão, depois coronel Deodoro da Fonseca, com o 1º tenente Floriano Peixoto e com o tenente Hermes da Fonseca, daí surgindo amizades duradouras. Quando da proclamação da República, a 15 de novembro de 1889, encontramos o então tenente-coronel Firmino Pires Ferreira ao lado do Marechal Deodoro da Fonseca. Curiosamente, setenta anos antes seu tio-bisavô, Gervásio Pires Ferreira tentara em vão implantar a República no Brasil nas Revoluções Pernambucanas de 1817 e 1821 - . Em 18 de janeiro de 1868 já era Tenente. No ano de 1868 foi-lhe confiada a espinhosa missão de transportar o material de construção para a famosa travessia do chaco, recebendo citação especial, em ordem do dia do comandante da 6ª Companhia do Batalhão de Engenheiros, capitão Manoel Peixoto Cursino do Amarante, "por sua ação pronta, enérgica e incansável". No combate de 8 de maio, diz a ordem do dia, "comandando 24 praças de sapadores, destruiu na frente as obras de defesa com que o inimigo havia interceptado a estrada por onde as tropas brasileiras deveriam passar". No mesmo ano, seria novamente elogiado, pelo então Marquês de Caxias, Comandante-em-chefe das Forças em operação no Paraguai, por sua ação à bordo do monitor "Rio Grande" encarregado de proteger a retirada de uma linha avançada de nossa Infantaria. Os atos de heroísmo do jovem filho de Barras não terminaram aí. Participou da famosa batalha de Humaitá, na guarnição das chalanas, combatendo o inimigo que tentava evadir-se. Tomou parte na tomada das fortificações que cobriam a passagem de Jebiquari e no reconhecimento das posições fortificadas de Angostura. No ano seguinte em 1869 integrou a vanguarda das forças que tomaram a praça forte de Peribebui, ocasião em que foi ferido, sendo elogiado pelo então capitão Deodoro da Fonseca, comandante da 8ª Brigada de Infantaria, e promovido a 1º Tenente por ato de bravura. Terminada a guerra, voltou ao Brasil em 1870, ingressando na Escola Militar da Corte, onde fez o curso superior, sendo promovido a capitão em 1874. Em 1875, foi designado instrutor do Tiro de Guerra de Campo Grande, em Mato Grosso. Em 1879, foi integrado ao Estado-Maior da artilharia, já no posto de major. Subdiretor do Arsenal de Guerra. Seguiram-se, daí em diante, sucessivas promoções: tenente-coronel em 1889; comandante da Sexta Brigada, em 1894; general de Brigada em 1895; general de Divisão em 1901; Marechal em 1906. Foi o primeiro piauiense a atingir o posto de marechal na ativa do Exército. Reformou-se em 1913. O marechal Firmino Pires Ferreira desenvolveu, paralelamente, à vida da caserna, uma longa e extraordinária carreira política. Foi, incontestavelmente, o político de maior projeção e prestígio por várias décadas no Piauí. Foi um dos fundadores do Partido Republicano Conservador - PRC, em 5 de novembro de 1910. Chegou a vice-Presidente do PRC, ocasião em que o partido era presidido por seu grande amigo e companheiro na guerra do Paraguai, Pinheiro Machado. Como Pinheiro Machado era, também, um típico "Coronel", controlando com mão de ferro suas bases políticas no Piauí. O marechal Pires Ferreira tinha para com seu Estado, uma postura feroz, enquanto que no Rio de Janeiro, era cortês, afável e amigo apaziguador. Sobre o lado cortês do Marechal Pires Ferreira, é interessante lembrar que as escadarias das residências do Rio de Janeiro em forma de ferradura ou de "U", como se fossem dois braços acolhedores, eram conhecidas como "escadarias Pires Ferreira", em homenagem à sua postura sempre conciliadora. Sua casa no Cosme Velho, no Rio de Janeiro, era frequentada tanto pelos amigos e adversários políticos, como por todos os seus familiares e estudantes piauiense que viviam no Rio de Janeiro. Com Pinheiro Machado controlou o Senado durante anos, até a brutal morte deste. Como "Coronel" controlava o seu estado natal através de seus familiares, como vemos em sua correspondência: .... "O sangue (dos Pires) puxa mais do que cem bois de carro". E como "político" através de grandes alianças familiares, como a do casamento de seu neto Firmino Pires de Mello com a filha do Presidente Washington Luis. Com a República, o marechal Firmino Pires Ferreira elegeu-se deputado federal à constituinte (1890), pelo Piauí; e para a primeira legislatura ordinária (1891-1893); depois, Senador pelo Piauí de 1894 a 1930 (11 legislaturas), de nove anos cada uma, interrompendo-se a última com o golpe de 1930 dado por Getúlio Vargas, que mandou fechar o Congresso Nacional. Era tio e criou João de Deus Pires Leal Joca Pires), fazendo-o governador do Piauí, em 1928. Mandato também interrompido pelo golpe de 1930. 
Lina Pires Ferreira [2ª- Linoca]
foto acervo Ailton Vasconcelos Ponte;
 fotógrafo: Mathieu de Roche, 39,
Boulevard des Capucines,
Paris, França; 1916.  

O marechal Firmino Pires Leal casou-se, em 15 de novembro de 1875, no Engenho Paraíso, no município de São Bernardo, no Maranhão, com a prima Lina Pires Ferreira (Linoca), nascida no Engenho Paraíso, em 13 de junho de 1854, no Engenho Paraíso, no município de São Bernardo, no Maranhão,e falecida no Rio de Janeiro, em 21 de agosto de 1945 no Rio de Janeiro. A festa de casamento durou dias seguidos, com os convidados e os escravos a dançar, cantar, beber e comer. Dona Linoca era ilha de Antonio Pires Ferreira e de Lina Carlota de Jesus Rodrigues de Carvalho. O marechal Firmino Pires Ferreira e dona Linoca tiveram as filhas: 1) Lina Pires Ferreira ;(Yayá), nascida em 7 de junho de 1877, e falecida no Rio de Janeiro, em 23 de abril de 1879, s/g. 2) Maria Pires Ferreira (Marieta), nascida no Rio de Janeiro, em 22 de abril de 1881, e falecida no Rio de Janeiro, em 13 de novembro de 1962. Casou-se no Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1898, com João Jorge da Fonseca, nascido em Recife, em 16 de junho de 1869, e falecido no Rio de Janeiro, em 16 de junho de 1916. Almirante; Ajudante de Ordens do Presidente Hermes da Fonseca; Adido Naval em Londres e Paris. João Jorge da Fonseca era tio de Cléa Levi Carneiro, mulher do Cid Carvalho, filho do Dr. Américo Carvalho, que chegou a desembargador. Morreram ambos. O Dr. Levi Carneiro foi quem impetrou Habeas Corpus em favor de Eurípides de Aguiar, para ele assumir o governo em 1916, contra o des. Antônio Costa, que era apoiado pelo governador Miguel Rosa. Fez isto a pedido do marechal Firmino Pires Ferreira. o Dr. Levi Carneiro foi da Corte de Haia. Morreu relativamente novo. Marieta Pires Ferreira teve uma filha, que se erradicou em São Paulo, casada com Cecílio Prado. Depois, ao separar-se, casou-se com Marcondes Filho, ministro do Trabalho de Getúlio Vargas e 3) Julieta Pires Ferreira (Julinha), nascida no Rio de Janeiro, em 16 de novembro de 1882, e falecida no Rio de Janeiro, em 14 de abril de 1966. Casou-se no Rio de Janeiro, em 10 de novembro de 1900, com Cezar Augusto de Mello, nascido no Rio de Janeiro, em 8 de outubro de 1875, e falecido nos Estados Unidos, em 28 de dezembro de 1918. Almirante; entrou para Escola Naval em 1889; Ajudante de Ordem do Presidente Rodrigues Alves (1903-1906); Adido Naval na Itália. Filho de Cesário Augusto de Mello e de Sarah de Queiróz. Pais de Firmino Pires de Mello; Cezar Pires de Mello; Carlos Pires de Mello. O primeiro, Firmino Pires de Mello (Gené), nasceu no Rio de Janeiro, em 15.09.1901, e faleceu no Rio de Janeiro, em 27 de abril de 19600. Advogado. Casou-se em 14 de maio de 1928, na Igreja da Glória, no Rio de Janeiro, com recepção no Palácio Guanabara, então residência do Presidente da República, com Florinda Maria Pereira Souza (Maria Washington), nascida em São Paulo, em 14 de fevereiro de 1901, e falecida em São Paulo, em 22 de junho de 1989. Filha do presidente Washington Luís Pereira de Souza; e de Sophia Oliveira de Barros.
 O Marechal Firmino Pires Ferreira faleceu na Guanabara (Rio de Janeiro), em 21 de julho de 1930. A viúva, dona Linoca, foi morar com uma das filhas fora do Rio de Janeiro, deixando lá a mansão do Cosme Velho, onde moraram por anos. Pois bem, Getúlio Vargas se aproveitando do acesso que tinha na casa, pois era muito amigo da família, mandou uns meganhas vasculhar e saquear o velho solar do Cosme Velho, levando o arquivo pessoal do presidente Washington Luís, lá escondido, assim como o arquivo pessoal do marechal Firmino Pires Ferreira, com documentos relativos a 40 anos de sua vida como parlamentar piauiense, todas as correspondências, toda documentação de alto valor afetivo e funcional. Destes saques nada se sabe, assim como do destino destes documentos, que provavelmente foram destruídos a mando do ditador Getúlio Vargas. Seu famoso e pitoresco apelido, "Vaca Brava", surgiu nos tempos em que serviu no Exército, sob as ordens de Floriano Peixoto, o "Marechal de Ferro". Em 1935, no governo do interventor Landri Sales e na gestão do prefeito Joaquim Nogueira Lima, foi inaugurado o Grupo Escolar Marechal Pires Ferreira, em Pedro II. Primeira escola estadual do Município de Pedro II. O prédio, que era ocupado pela Universidade Estadual Uespi, atualmente encontra-se fechado. Fica localizado na Praça Manoel Nogueira Lima ( Praça da Bonelli).
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pesquisas feitas com base no livro Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado, de Wilson Carvalho Gonçalves, e A Mística do Parentesco - uma genealogia inacabada, de Edgardo Pires Ferreira. E entrevista com Mário Pires Leal, filho de João de Deus Pires Leal (Joca Pires)