sábado, 19 de fevereiro de 2011

Lucídio Freitas, pré-modernista

Lucídio Freitas, filho de Corina e Clodoaldo Freitas, nasceu em Teresina, no dia 5 de abril de 1894. Publicou Alexandrinos (1912), em parceria com o seu irmão Alcides Freitas, e Vida Obscura (1917). Espírito inquieto, era um homem além do seu tempo.

Lucídio Freitas, por insistência do pai (Clodoaldo Freitas), engaja-se na campanha vitoriosa de Miguel Rosa para o governo do Piauí (1912 – 1916). Em retribuição, é nomeado Lente de História do Brasil no Liceu Piauiense de Delegado Geral da Capital.

Mas, no dia 18 de novembro de 1913, por discordar radicalmente da política imposta por Miguel Rosa, homem de gênio irascível, brigão, malcriado, rancoroso, de poucos amigos e muitos inimigos, exonera-se dos dois cargos e, acompanhado pelo poeta Zito Batista, segue para o Rio de Janeiro, onde ficou mais de um ano trabalhando na imprensa e fazendo literatura.

“É desse período sua maior aproximação com as rodas literárias cariocas, pelas mãos de Clóvis e Amélia Bevilácqua. Torna-se amigo de Mário Pederneiras, da revista Fon-Fon, e insinua-se nos grupos literários mais famosos, freqüentando assiduamente as casas de Coelho Neto, grande animador dos valores novos, de Félix Pacheco, de Hermes Fontes e outros. Circula pelas livrarias da moda e faz parte da boêmia literária carioca. Retoma o que já vivera no Rio como estudante, entre o final de 1912 e o início de 1913, quando recebeu o grau de bacharel”, de acordo com Teresinha Queiroz .

Em 1914, segue para Belém do Pará, onde se casa em setembro de 1916 com Ocenira Amazonas de Figueredo (às pressas – a noiva estava grávida), com quem teve três filhos: Corina, Alcides e Genuíno, e passa a exercer as funções de juiz substituto na Capital, tornando-se, também, por concurso, professor da Faculdade de Direito.

Em Belém do Pará, imediatamente se destaca nos meios literários em razão de sua cultura extrema e refinada. “Tornara-se figura expressiva das vanguardas literárias, ao lado dos sonhadores do momento - José Maria Leoni, Peregrino Junior, Oswaldo Orico, Genésio Cavalcanti, Eduardo de Azevedo Ribeiro, os irmãos Cruz Lima, Andrade Queiroz, Martins Napoleão, Nunes Pereira, Flexa Ribeiro e Álvaro Maia. Além das figuras mais expressivas como Tito Franco de Almeida, Severino Silva, Rocha Moreira e Remígio Fernadez. E ainda Raimundo Morais, Paulo Maranhão, Dejard de Mendonça, Eurico Vale, Alves de Sousa, Luiz Estevão e outros, desiguais em idade, mas não em entusiasmo”, salienta Teresina Queiroz.

Lucídio Freitas, aglutinador de homens e irradiador de idéias, foi um dos baluartes na criação da Academia Piauiense de Letras, programada para o dia 4 de agosto de 1901, mas só concretizada no dia 30 de dezembro de 1917. Conhecida como “Casa de Lucídio Freitas”, teve, nos dez fundadores – Clodoaldo Freitas (primeiro presidente), Higino Cunha, João Pinheiro, Edison Cunha, Jônatas Batista, Celso Pinheiro, Antônio Chaves, Benedito Aurélio de Freitas (Baurélio Mangabeira) e o próprio Lucídio Freitas - as cabeças mais abertas do seu tempo. A Academia nasceu no calor das novas idéias.

Aqui abro um parêntese para traçar uma comparação entre Mário de Andrade e Lucídio Freitas. Em 1917, é publicado Há uma gota de sangue em cada poema, de Mário de Andrade, de caráter nitidamente simbolista, sob o pseudônimo de Mário Sobral. Publicando Paulicéia Desvairada, em 1922, Mário de Andrade torna-se guia e “Papa do Modernismo”. Como Mário de Andrade, o poeta Lucídio Freitas publica, em 1917, Vida Obscura, igualmente simbolista. Como Mário de Andrade, Lucídio Freitas era poeta da síntese e da busca. Como Mário de Andrade, Lucídio Freitas acreditava que “O passado é lição para se meditar, não para / reproduzir” (Artista, in Paulicéia Desvairada). Era de ser esperar, portanto, que chegasse a atingir, de todo, a estética modernista, participando, inclusive, da Semana de Arte Moderna. Mas, o seu precoce falecimento, aos 27 anos de idade, em 14 de maio de 1921, tolheu esta perspectiva.

Lucídio Freitas foi um dos responsáveis pela edição da revista Ephemeris que (morreu do mal do terceiro número) representou um movimento de renovação cultural em Belém do Pará e no restante do país. Era mensal, publicada na segunda quinzena de cada mês. Consegui o número 2, do mês de setembro de 1919, e o número 3, do mês de outubro de 1919. Os seus participantes, entre outros, liam Mallarmé, Rimbaud, Verlaine, Verhaeren e Nietzsch,” conforme Peregrino Junior , um dos redatores da revista. Estavam sintonizados com a poética e a filosofia modernas do Brasil e do mundo.

O número 2 da revista Ephemeris traz como diretores Lucídio Freitas, Arthur dos Guimarães Bastos, Andrade Queiroz, Oucirno Silva, Emílio de Macedo e João Bento de Sousa. Como colaboradores Alves de Sousa (Brasil), Luís Guimarães Filho (Vita Nuova), Alfredo Lamartine (Dentro da Sombra), Nunes Pereira (O Conceito da Biologia), Acylino de Leão (O romance de um secretário de Legação), Guimaraens Bastos (Cantares), Olavo Nunes (Machiavel e Mismarck), Mecenas Dourado (Dúvidas e conjecturas sobre a accentuação Tonica de Getulo, batavo e incude), Ferreira dos Santos (Na aza do meu delírio), Franklin Palmeira (Um jornalista do tempo de Pericles), João Crolet (Atavismo latino), Angyone Costa (Signos), Augusto Meira (Lucano e o Estoicismo) e Clodoaldo Freitas (O Mez Elegante).

Peregrino Junior informa que “O movimento da revista Ephemeris, que o Rio desconhecia completamente e que fôra anterior à Semana, era chefiado por Lucídio Freitas, Tito Franco, Dejard de Mendonça, Alves de Sousa e representou uma corajosa e afoita tentativa provinciana de renovação literária. Quem compulsar a coleção de Ephemeris - até materialmente original, discreta, diferente - verá que o 'Grupo Paraense' merecia atenção dos críticos e dos historiadores literários do nosso tempo. Esse movimento, de resto, mostrava como as sementes do modernismo estavam soltas no ar, há longo tempo, esperando apenas condições adequadas para germinar e frutificar...".

Além de Lucídio Freitas, outros piauienses participaram da revista Ephemeris como Clodoaldo Freitas, pai do poeta Lucídio Freitas, e Martins Napoleão, que introduziu Peregrino Junior na leitura de Carnaval, de Manuel Bandeira, o São João Batista do modernismo brasileiro, lançado em 1919. Após devorar as páginas do livro, revela Peregrino Junior: “Guardei a lição antecipadora de Debussy”:

Para cá, para lá...
Para cá, para lá...
Um novelozinho de linha...
Para cá, para lá...
Oscila no ar pela mão de uma criança
(Vem e vai...)
Que delicadamente, quase a adormecer o balança
- Psio... –
Para cá e para lá...
Para cá e...
- o novelozinho caiu”...

Adiante Peregrino Junior acrescenta que “Quando sobreveio, em 1922, a Semana de Arte Moderna, não tive dificuldade nem hesitação em aceitar o Modernismo”.

É necessário estudo com olhos mais abertos sobre Lucídio Freitas. Quem se habilita? 

Um pouco da poesia de Lucídio Freitas

O Incêndio

O ar queima, o vento queima, a terra queima e abrasa.
Ondas rubras de Sol batem fortes na areia...
No espaço nem sequer um leve ruflo de asa,
Passa aos beijos do Sol que fustiga e esbraseia.

Fogo de um lado e de outro e o vento o incêndio ateia,
Da planície a fazer vasto lençol de brasa;
E o fogo sobe e desce, e volta, e mais se alteia,
E abraça e beija, e morde a ossatura da casa.

Nisto um grande rumor pela terra se escuta.
Braços abertos no ar, soluçando, o Castelo,
Se desmorona, enfim, depois de estranha luta.

Velho Castelo Real! Ó sombra de outra idade!...
Lembras hoje, depois desse horrível flagelo,
As ruínas de Sol no poente da Saudade!...

Teresina apagou-se

Teresina apagou-se na distância,
Ficou longe de mim, adormecida,
Guardando a alma de sol da minha infância
E o minuto melhor da minha vida.

E eu sigo, e eu vou para a perpétua lida.
Espera-me, distante, uma outra estância...
É a parada da luta indefinida,
É a minha febre, minha dor, minha ânsia...

Como são infinitos os caminhos!
E como agora estou tão diferente,
Carregado de angústias e de espinhos!...

Tudo me desconhece. Ingrata é a terra.
O céu é feio. E eu sigo para a frente
Como quem vai seguindo para a guerra...

Perscrutadoramente

Perscrutadoramente os olhos ponho
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.

Minha origem componho e recomponho.
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.

Homem - parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura -

O que foste? O que és? Para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!

A Meu Pai

Esqueço todo bem que, em minha estrada,
Prodigamente, como um Deus, semeio,
Fazendo meu o sofrimento alheio,
Amparando toda alma abandonada.

Quantas e quantas vezes tenho em meio
Da vida, dentro a noite erma e gelada,
Confortado a velhice desgraçada
Na mornidão amiga do meu seio!

Para servir aos meus irmãos padeço
E dou-lhes a água e o pão, o teto e o leito
E o beijo que consola e que bendiz...

Mas todo bem que faço logo esqueço
Para guardar apenas no meu peito,
A saudade de um bem que eu nunca fiz...

2 comentários:

Airton Sampaio disse...

Sem querer inticar, mas já inticando, é preciso saber se o "grande incentivador de valores novos" atribuído a Coelho Neto se refere apenas à idade. Porque Coelho Neto, segundo Oswald de Andrade, era, esteticamente, Coelho Avô. Ou seja, Coelho Neto era a cara encarnada e esculpida do ranço acadêmico ou, se preferirem a vox populi, a cara cagada e cuspida. É o que dá escrever sem precisão...

EMERSON ARAÚJO disse...

Eu instigo, este Coelho Neto nunca foi incentivador de valores novos, pelo contrário, sempre respirou a velharia acadêmica dos sapos-tanoeiros de então. É preciso, neste momento, pesquisar mais sobre a velharia acadêmica do início do Século XX que ficaram ainda por muitos anos na trincheira de todos os conservadorismos: estéticos ou não, enquanto o mundo rodava na sua máquina de progresso e luz.