segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

João Luís Ferreira


O governo João Luís não teve oposição. João Luís era um homem inteligente, amável, de fala mansa, despido de todo convencionalismo, de todo autoritarismo, de toda vaidade de mando. Ele tinha autoridade silenciosa. Com a presença, com o modo de ser dele, o indivíduo o respeitava. Vou lhe contar um fato interessante: desde os governos da Província, o corneteiro do corpo da guarda do Palácio dava as horas da chegada e da saída do governantes. Pois bem, João Luís, solteirão, mulherengo, silencioso, logo nos primeiros dias, manda chamar o secretário de Polícia e ordena: - "Tire essa corneta daqui." - "Mas, isso é uma tradição." - "Pois quebre a tradição, eu não quero avisar a ninguém quando eu saio ou quando eu chego." E retiraram a corneta. Ficou a Guarda. Ele andava sempre de linho branco, da Irlanda, por conta do calor de Teresina. Ele tinha o hábito de andar com as mãos para trás, era um pouco corcunda, caminhava assim um pouco inclinado. Por isso o chamavam de Nambu. Pois bem, um dia ele chega, à noite, estava o guarda lá, mas não sabia que era o governador. Ele não fumava cigarro feito. Ele tinha uma bolsa de borracha, com fumo Caporal, que ele gostava. Ele tirava o fumo e enrolava o cigarro ele mesmo e fumava. Pois bem, ele vinha enrolando seu cigarro, altas horas da noite. Parou para acender o cigarro e continuou a viagem rumo ao Palácio. O guarda, quando ele se aproximou, disse: - "Moço, estou aqui a essa hora, com fome, e com uma vontade de fumar, me dê um cigarro." - "Pois não!" O governador tirou o fumo, enrolou o cigarro e deu ao soldado. - "Está aqui, o cuspe passe você." E depois subiu as escadas rindo como o diabo. João Luís contou para os amigos, depois, achando muita graça pela ingenuidade do soldado. A história circulou e o ajudante de ordem disse: - "Mas que petulância, eu vou já saber disso." E marchou para descer as escadas e ir atrás do soldado. João Luís disse: - "Não, não faça nada. Esse soldado, coitado, já foi castigado só em saber que eu era o governador. Ele já está receoso, com medo de punição." Era assim João Luís. (Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves - entrevista a Manuel Domingos Neto).

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