sábado, 4 de abril de 2009

Eurípídes de Aguiar: Patrono da Imprensa no Piauí


Eurípides de Aguiar (em 1950).
Foto sem crédito.
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A Associação Piauiense de Imprensa - API, o Sindicato dos Escritores no Estado do Piauí - SEPI e a Associação dos Estagiários de Direito no Estado do Piauí - ASEDIPI, com o apoio do Sindicato dos Jornalistas no Piauí - SINDJORPI, promoverão no dia 7 de abril próximo, a partir das 9 e 30 horas, no auditório Wilson de Andrade Brandão, da Academia Piauiense de Letras, a palestra Eurípides de Aguiar: o Patrono da Imprensa Piauiense, sob responsabilidade do jornalista e escritor Kenard Kruel.
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Na oportunidade, o jornalista Willian Antonio Tito da Costa receberá o Diploma API do Mérito - CLÁUDIO PACHECO BRASIL, e o jornalista Arimatéia Azevedo receberá o Prêmio API - EURÍPIDES CLEMENTINO DE AGUIAR de Direitos Humanos. A professora, advogada e jornalista Iracema Santos Rocha receberá o Diploma de Presidente de Honra da API.

O Dia do Nacional do Jornalista é comemorado em 7 de abril, dia da Fundação da Associação Brasileira de Imprensa - ABI, no ano de 1908. Outro fato contribuiu para a definição da data: uma homenagem a João Batista Líbero Badaró, médico e jornalista, que morreu assassinado por inimigos políticos, em São Paulo, em 22 de novembro de 1830, o movimento popular gerado por sua morte levou à abdicação de D. Pedro I, no dia 7 de abril de 1831. Um século depois, em 1931, por conta desse acontecimento a ABI institui como o Dia do Jornalista.Líbero Badaró e o Dia do Jornalista.

Em 7 de abril de 1831 Dom Pedro I abdicava do trono, pressionado pela oposição, abandonado pelo exercito e destratado pela opinião pública, esta mobilizada através da imprensa que lhe imputava responsabilidades em torno do assassinato do jornalista Líbero Badaró ocorrido em 20 de novembro do ano anterior.

Um século depois a ABI recomendava a data, por coincidência, também, marco de fundação da entidade, como referência para doravante se comemorar o Dia do Jornalista. Não há nenhum registro de causa e efeito entre os fatos, mas certamente que não foi por acaso que Gustavo de Lacerda escolheu o dia 7 de abril para a reunião que resultou na fundação da Associação de Imprensa.

Datas e ilações aparte, muita coisa já se escreveu em torno do assassinato do médico italiano, jornalista de ocasião, redator do "Observador Constitucional", alvo de emboscada na rua que hoje leva o seu nome. Não foi a primeira vitima de agressão por conta dos textos publicados (Corte Imperial na Bahia, David Pamplona e Luís Augusto May no Rio sofreram antes brutais atentados e sobreviveram), mas foi o primeiro jornalista a falecer em conseqüência das feridas provocadas pelos sicários, segundo a imprensa da época, à mando do ouvidor Cândido Ladislau Japiaçu que Badaró nos seus escritos chamava de "Caligulus"; crime também imputado ao Imperador pelos seus opositores.

Eurípides de Aguiar

Na bucólica cidade de São José dos Matões, no interior do Maranhão, a 19 de janeiro de 1880, nasceu Eurípides Clementino de Aguiar, filho de Genovefa Nogueira de Lobão e de Helvídio Clementino de Aguiar, que ali servia como juiz de Direito.

Ainda bem novo Eurípides de Aguiar veio para Teresina, onde estudou as primeiras letras no Colégio de Karnak, fundado por Gabriel Luís Ferreira, a 15 de janeiro de 1890. Em seguida, foi para o Liceu Piauiense. Depois, seguiu para Salvador, onde cursou os preparatórios para ingressar no curso superior, realizado na Faculdade de Medicina da Bahia, célebre naquele tempo.

Formado em 1902, Eurípides de Aguiar regressou ao Piauí, instalando consultório em Floriano, uma das cidades mais prósperas do Estado, em razão, principalmente, da extração e venda da maniçoba. Sem médico até então na região, o atendimento, precário, era feito pelo farmacêutico Fernando Marques, seu grande amigo e quem talvez o tenha influenciado a ir para lá.Com a inauguração do Hospital São Vicente de Paula, a 27 de junho de 1905, graças aos esforços do juiz de Direito da cidade Dr. Augusto Ewerton e Silva, presidente da Sociedade São Vicente de Paula, os poucos doentes que o procuravam eram confiados aos cuidados médicos do Dr. Eurípides de Aguiar, que de boa vontade lhes prestava gratuitamente os serviços.

Em abril de 1907, Eurípides de Aguiar empreendeu viagem à Paris, láurea que conquistou por ter sido o primus inter pares de sua turma, com tese de doutorado, sob o título Tratamentos de Queimados.Em 1908, Eurípides de Aguiar retornou de Paris, onde aprimorou seus conhecimentos sobre Medicina e, provavelmente, teve despertado o seu interesse para as Ciências Econômicas e para o jornalismo.

Intendente de Floriano

Clinicando, com atenção especial para os mais pobres, o que lhe deu prestígio popular, Eurípides de Aguiar disputou e venceu a eleição para o cargo de Intendente (prefeito) Municipal de Floriano, em 1912, destinguindo-se por uma administração séria e progressista.

Deputado Estadual

Em 1915, na edição do dia 5 de maio, o jornal Correio de Teresina publicou a seguinte nota: "Foi eleito, sem competidores, para a vaga aberta da Câmara Estadual, com a renúncia do Dep. Enéas da Rocha Carvalho, por motivos particulares, o Dr. Eurípides de Aguiar.

Em junho de 1915 foi construída a Mesa da Câmara Legislativa, sob a presidência de Alfredo Rosa, sendo vice-presidente Hugo de Castro. Tomás Rebelo, representante do Marechal Pires Ferreira, e Eurípides Aguiar, representante do deputado federal Antonino Freire. (seu cunhado, casado com a irmã Elvira Rosa de Aguiar), que tinha sido eleito deputado federal em 1913, na vaga aberta com o falecimento de João Henrique de Sousa Gayoso e Almendra, a 17 de setembro daquele ano.Pouco dias depois Eurípides de Aguiar rompeu com o governador Miguel Rosa.

Governador do Piauí

Na sucessão de Miguel Rosa (1912 a 1916), dois candidatos disputam o governo: o des. Antônio José da Costa, oficial, e Eurípides de Aguiar, pela oposição.A disputa entre os candidatos dos dois grupos se deu debaixo de extrema animosidade.Realizada a eleição de 7 de abril de 1916 houve divergência quando ao reconhecimento do candidato eleito. O des. Antônio José da Costa foi declarado vencedor na apuração dos votos, mas a maioria da Assembléia Legislativa, na sessão de 5 de junho de 1916, proclamou Eurípides de Aguiar governador do Piauí.

Miguel Rosa reage e faz com que o Piauí tenha duas Assembléias, reconhecendo a que lhe é fiel e desconhecendo a maioria que lhe fez oposição, que fica impedida de exercer suas atividades no prédio do Poder Legislativo.A 24 de junho de 1916, por força de Habeas Corpus, garantido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), os deputados oposicionistas regressam à Assembléia Legislativa e reconhecem governador do Estado Eurípides de Aguiar.A partir de então, inicia-se a luta para que Eurípides de Aguiar ocupe o Palácio do Governo Estadual.

A 26 de julho de 1916, antes do meio dia, rebenta um motim no Quartel da Polícia. O governador Miguel Rosa sentindo-se totalmente abandonado, deixa o Palácio do governo, indo refurgiar-se no Quartel da Companhia do Exército Nacional.

Na sessão de 1 de julho de 1916, Eurípides de Aguiar e Gervásio Pires Sampaio são reconhecidos pela Assembléia Legislativa e tomam posse em seus respectivos cargos.

No dia 5 de agosto de 1916, o Supremo Tribunal Federal concedeu Habeas Corpus a Eurípides de Aguiar para que assumisse o governo do Estado.

Eis o documento:

Habeas Corpus. Manda-se cassar uma ordem de Habeas Corpus concedida ao Dr. Antônio José da Costa, como governador do Piauí, visto ter a mesma ficado sem efeito, desde que a maioria da Assembléia Legislativa do mesmo Estado, no gozo de um Habeas Corpus concedido pelo Supremo Tribunal, deu posse a outro governador por ela reconhecido e proclamado, o Dr. Eurípides Clementino de Aguiar. Nº 4.039. Vistos e relatados estes autos de recurso interposto ex officio, da decisão do Juiz Seccional do Piauí, que concedera ordem de Habeas Corpus preventivo ao Dr. Antônio José Costa a fim de poder ele penetrar, a 1º de julho do corrente ano, no edifício da Câmara Legislativa Estadual, prestar o compromisso do cargo de governador do Estado, no quatriênio de 1916 a 1920 e, em, seguida, entrar no Palácio de Governo, empossar-se e exercer o mesmo cargo durante o dito quatriênio, livre de qualquer constrangimento por parte das autoridades e funcionários estaduais ou federais. Acordam dar provimento ao recurso para mandar cassar a aludida ordem, visto esta ter ficado sem efeito, desde que a maioria da Assembléia Legislativa do referido Estado, no gozo do Habeas Corpus, que lhe foi concedido por acórdão deste Tribunal, nº 4.014, de 24 de junho último, empossou o governador por ela reconhecido e proclamado, o Dr. Eurípides Clementino de Aguiar, o qual já se acha no exercício do respectivo cargo. Custas ex causa. Supremo Tribunal Federal, 5 de agosto de 1916.

Era presidente do STF o ministro H. do Espírito Santo.

Casamento com dona Gracy Lopes

Eurípides de Aguiar casou-se, a 21 de setembro de 1919, com Maria da Graça Falcão Lopes Aguiar (Gracy Lopes), com quem teve os filhos José Lopes de Aguiar (7 de abril de 1921), Milton de Aguiar (5 de outubro de 1923), Maria Genovefa de Aguiar (15 de fevereiro de 1927), Lidia Lina de Aguiar (21 de outubro de 1937).

Deputado Federal

Eurípides de Aguiar, no seu governo, teve que conviver com os tormentos da 1ª Guerra Mundial (1914 - 1918) que, além da crise na produção do algodão, acarretou, também, a queda dos preços dos principais produtos agrícolas no Brasil. Assim mesmo, conseguiu fortalecer o comércio no Estado, beneficiando, principalmente, Parnaíba, que naquela época era principal empório comercial do Piauí, pois rendia aos cofres estaduais cerca de 50% da nossa receita.

O povo da cidade, agradecido, prestou-lhe significativa homenagem, elegendo-o seu intendente, cargo que não chegou a assumir porque, nas eleições de 20 de fevereiro de 1921, elegeu-se deputado federal, assumindo a 3 de maio de 1921, com mandato até 31 de dezembro de 1923.

Senador da República

Substituindo Abdias Neves, Eurípides de Aguiar foi eleito senador, com 6.462 votos, no dia 17 de fevereiro de 1924. Tomou posse no dia 24 de abril, para mandato de 9 anos. Ficou, entretanto, até 1930, porque, assumindo o poder, Getúlio Vargas, chefe do governo provisório (1930-1934), tomou medidas drásticas para controlar a situação do país. Entre as primeiras, destacam-se a suspensão da Constituição de 1891, o fechamento do Congresso Nacional, das Assembléias Legislativas e da Câmaras Municipais e a indicação de interventores militares (ligados ao Tenentismo) para chefiar os governos estaduais.

Afastado do Congresso Nacional, retornou a Teresina. Passou a clinicar para pobres na Botica do Povo, de sua sogra dona Lídia Lina Falcão Lopes (Lily Lopes) e a fazer oposição, no plano nacional, a Getúlio Vargas, e, no plano estadual, e aos interventores federais nomeados para o Piauí,Esta iria ser a fase mais atuante de sua vida política, fazendo do jornalismo a arma destemida de um espírito combativo.Prisão no 25º BCAcusado de simpatizante da Revolução Constitucionalista de 1932 e conspiração contra o Interventor Federal Landri Sales (21.05.1931 a 03.05.1935), que se sentiu ofendido por seus artigos assinados nos jornais piauiense, Eurípides de Aguiar foi preso no quartel do 25º BC, onde permaneceu quase uma semana.

A prisão de Eurípides de Aguiar se deu quando ele estava, com a sua filha Genu Moraes de Aguiar, então com 4 anos de idade, fazendo atendimento na farmácia Botica do Boca, localizada na Praça Rio Branco.O tenente Moraes, ao chegar lá disse que ele estava sendo convidado a comparecer ao comando do 25º BC, no que retrucou, imediatamente: “Quer dizer, em outras palavras, que estou sendo preso. Muito bem, quero antes, porém, passar em minha residência para pegar algumas coisas necessárias”.

Num carro preto, Eurípides de Aguiar, sua filha Genu Moraes de Aguiar (que foi em pé), o tenente Moraes e o motorista do veículo foram até a sua residência. Ao contar para a esposa o que estava acontecendo e vendo a sua aflição, virou-se tranqüilamente para ela e disse: “Não saia de casa. Não quero que você peça a ninguém para me soltar. Lembre-se de que é mulher de um líder e que arco com toda a responsabilidade pelo que faço”.

Nessa época, era chefe de Polícia Carlos Augusto Colares Moreira, maranhense, casado com dona Lulu Vieira.

A respeito desta situação, Eurípides de Aguiar publica no jornal O Piauí, edição do dia 1º de maio de 1946, na primeira página, sob o título "Cachimbo Sem Fumo", o seguinte:

"Continua, cada vez mais forte, o clamor público, motivado pelas exigências mal pensadas e desastradamente postas em práticas pelas Obras Públicas, em relação ao quase extinto serviço de luz elétrica em Teresina.

A nota publicada no Diário Oficial, de 27 do mês passado, pelo engenheiro diretor das Obras Públicas, é uma quase confissão das arbitrariedades que, repetidas vezes, temos denunciado e comentado.

As gargantas metálicas ou cachimbos em que as Obras Públicas obrigam que se metam os fios que vão da rua ao contador são, em aparências, destinados a evitar curtos circuitos mas, em realidade, têm por fim impedir supostas fraudes por parte dos consumidores. O governo tem receio que lhe furtem energia elétrica.

Mas, furtar o que, santo Deus!, se não há energia, como pode haver ladrão de energia?

Quem não tem fumo guarda o cachimbo.

Diz o comunicado oficial que as cassa que não têm contador, aliás por culpa do governo, pagam por vela mensal cr$ 0,08 ou seja $ 8,00 por lâmpada de 100 velas.

É que está escrito na nota mas, em verdade, essas casas são lançadas, no mínimo, em cr$ 43,00 mensais, mesmo que tenham somente uma ou duas lâmpadas de 25 velas. Assim, um simples quarto de meiagua, alugado por cr$ 30,00 ou cr$ 40,00, paga cr$ 43,00 de luz, que não recebe.

Lembramos ao diretor das Obras Públicas que quem está em falta não é o povo para com o governo e sim o governo para com o povo. Negamos às Obras Públicas o direito de cobrar a luz que tem obrigação de fornecer e não fornecem.

O despotismo que se arrede do caminho, que a democracia está em marcha.Leônidas de Castro Melo, no período de 3 de maio de 1935 a 24 de novembro de 1937, exerceu o mandato de governador do Estado, eleito pelos deputados estaduais. A partir de 24 de novembro de 1937, passou a Interventor Federal nomeado por Getúlio Vargas.

O Karnak agora é do Povo

Quando da saída de Leônidas Melo do governo, a 9 de novembro de 1945, Eurípides de Aguiar comentou "Esse seu José Cândido Ferraz é um trampolineiro, pois não é que tirou do bolso do colete o nome de Leôncio Ferraz para ser o novo Interventor do Piauí".

Dito isto, rumou para o Palácio de Karnak. Ali chegando, encarou os guardas e disse-lhes: "Abaixem as baionetas, soldados, o Palácio de Karnak agora é do povo".

Enquanto isso, lá dentro, dona Julinha, mulher do ex-prefeito Agenor Barbosa de Almeida, gritava, em cima da mesa governamental: "Caiu o bode melado, caiu o bode melado!". Leônidas Melo tinha o cabelo meio amarelado, pois isso o apelido.

Leônidas Melo foi colega de ginásio de Probo Falcão Lopes, filho de José Pereira Lopes e Lidia Lina Falcão Lopes.

Irmão de: Pedro, Julio, Luiza Otília (casou-se com Augusto Brito), e Maria da Graça Falcão Lopes, esposa de Eurípides de Aguiar. Pedro Falcão Lopes era pai do des. Augusto Falcão Lopes.

Um dos líderes do Partido Comunista, foi preso inúmeras vezes, numa dessas prisões, dividiu cela, em São Paulo, com Caio Prado Junior.

Fundação da UND no Piauí

No Piauí, os oposicionistas ao regime ditatorial foram buscar Eurípides de Aguiar para fundar a União Democrática Nacional, partido do qual tornou-se presidente. Entre os companheiros de UDN estavam Esmaragdo Freitas, José de Arimatéa Tito, Matias Olímpio, Simplício Mendes, José Cândido Ferraz, Demerval Lobão, Adelmar Soares da Rocha, Helvécio Coelho Rodrigues, Antônio Maria de Rezende Corrêa, Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, Ofélio Leitão, Ludgero Raulino, Francisco Alves Cavalcante, Celso Eulálio, entre outros.

Sobre este momento, ouçamos Ofélio Leitão: "Organizados os partidos políticos, para o restabelecimento da legalidade democrática, coube a Eurípides de Aguiar, no Piauí, o comando da União Democrática Nacional, a velha UDN, em que brilhou, ao lado de Demerval Lobão, José Cândido Ferraz, Matias Olímpio, Adelmar Rocha, Simplício Mendes, Arimathéa Tito, Helvécio Coelho Rodrigues, Esmaragdo de Freitas, todos amigos inesquecíveis que a morte nos arrebatou e, ainda, ao lado de Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves e Antônio Maria de Resende Correia, este, clínico de renome na capital cearense, e aquele, um dos maiores engenheiros do Brasil, conferencista consagrado, tribuno de largos recursos e elemento de escol da cultura e das letras piauienses, que nos representou, por duas vezes, e fulgurantemente, no Senado Federal.

Em pleno vigor de minha mocidade irriquieta, e traído pelas radiações luminosas, juntei-me a esse grupo de homens destemidos, afeitos às mais duras pelejas da vida pública.

Estávamos nos idos de 45, e começava o entrevero, assombroso e empolgante, que envolveu toda a alma piauiense em frêmitos de entusiasmo e de civismo.

Sem descurar das confabulações próprias de uma ação partidária eficaz e pronta, Eurípides entregou-se, antes de mais nada, às lides da imprensa, montando sua tenda árabe no jornal O Piauí, órgão da UDN, de que era eu redator-chefe e que foi o veículo por excelência de sua pregação cívica. O menino da década de 20 unia-se, na comunhão de idéias, ao guerreiro extraordinário, ao notável jornalista que ai aparecia em toda a sua esplêndida pujança, e de cuja pena, flamejante e bela, saíram páginas de fogo, coruscantes de mordacidade.

Admirador inveterado de Rebelais, também ele, como o mestre francês, sabia fazer uso de uma arma poderosa e esbarrondante - aquela encantadora ironia gaulesa, que atordoa, e corta, e fere como o gume de uma navalha, ou como o fio aguçado de um punhal florentino.

Daquela humilde trincheira da rua Coelho Rodrigues, em que nos abrigáramos - Eurípides, Júlio Vieira e eu, - partiam chispas, fuzilavam relâmpagos, desprendiam-se faúlhas, sibilavam apóstrofes candentes. À catilinária do inimigo, respondíamos com um fogo cerrado, com as labaredas de um canhoneio incessante, que galvanizavam cada vez mais a opinião pública estadual. Porque esse era o tipo de imprensa política daquele tempo.

Foi, sem dúvida, uma refrega feroz, cheia de lances emocionantes e de cenas por vezes dramáticas; mas, a despeito do empastelamento do nosso jornal e do frio assassinato de seu pobre vigia, dela saímos triunfantes de ponta a ponta, de cabo a rabo e de vante a ré".

Empastelamento de O Piauí e morte do vigia

Em 1946, na Interventoria de Teodoro Ferreira Sobral, o jornal O Piauí sofreu empastelamento (mistura dos tipos), os móveis quebrados e foi assassinado e o vigia Miguel Pedro de Sousa assassinado e o auxiliar deste Raimundo Pio espancando quase à morte. Dizem que por obra e graça de Zezé Leão.

No jornal O Piauí, da UDN, escreviam Eurípides de Aguiar, Julio Vieira, Cunha e Silva, Ofélio Leitão, Des. Simplício de Sousa Mendes, des. Arimathéa Tito, principalmente. Posteriormente, A. Tito Filho e Valdemar Sandes.Eurípides de Aguiar, tão logo começava a distribuição do jornal O Piauí, postava-se na janela de sua residência para esperar o gazeteiro a fim de adquirir um exemplar. Ficava feliz quando o mesmo dizia a ele: "hoje é mais caro porque tem artigo assinado pelo Euripão".

Não demorava muito, seis tiros eram disparados, seguidos de mais seis. Eram o Interventor Federal Vitorino Correia e o chefe de Polícia Dário Coelho que descarregavam suas armas nos seus exemplares, demonstrando, assim, o ódio que sentiam pelas críticas disparadas pelo destemido jornalista, que se recolhia dizendo: "Pronto, estou satisfeito, agora sei que o meu artigo fez o efeito desejado".

No jornal O Estado, do PSD, militavam Armandino Nunes, Cláudio Pacheco Brasil, Lino Correia Lino, Camilo Filho, Andocides Lemos, Fabrício de Arêa Leão.

Governo Rocha Furtado

No governo udenista de Rocha Furtado (28.04.1947 a 31.01.1951), um dos dois únicos governadores que a oposição conseguiu eleger após a queda do Estado Novo, Eurípides de Aguiar foi nomeado Chefe de Polícia. Eurípides de Aguiar permaneceu no cargo até agosto de 1947. Teve que deixá-lo por manobra dos adversários políticos do seu governo.O PSD, maioria na Assembléia, inseriu na Constituição, que estava sendo votada, dispositivo determinando que o cargo de Chefe de Polícia, seria privativo de oficial das Forças Armadas ou de bacharel em Direito. Esta foi uma maneira de afastá-lo da chefatura de Polícia, visto que era médico.

Para substituí-lo indicou o jovem advogado cearense (de Príncipe Imperial, que foi trocado por Luiz Correia) Claudino Sales, que aqui havia feito o ginásio no Liceu Piauiense e tornara-se amigo de seus filhos, notadamente de Milton de Aguiar (que foi deputado estadual). Convite declinado em razão de implicações profissionais que o Dr. Claudino Sales (depois deputado federal) já havia assumido em sua terra natal.O governador Rocha Furtado assim nos fala de seu auxiliar:

“...Então eles (adversários de Eurípides e de Rocha Furtado) achavam que a presença do Dr. Eurípides no Governo significava um Governo violento, um Governo truculento, um Governo no qual os direitos humanos não seriam respeitados. Nada disso, o Dr. Eurípides era um homem enérgico, mas um homem justo e que tinha a folha de serviços ao Estado do Piauí como têm poucos... Um homem ilustre por todos os tipos”.

Por indicação de Eurípides de Aguiar, foi nomeado, em maio de 1947, para o cargo de Delegado de Polícia da Capital, o professor A. Tito Filho, que nos conta:

"Por esta forma passei a trabalhar com Eurípides; chefe de Polícia, - e nas funções me conservei até dezembro do mesmo ano. Privei com Eurípides no jornal e nos encargos de xerifado. Dele recebi conselhos e proveitosas lições de experiência. Nunca o vi covarde, nem prevalecido de prestígio para perseguir ou humilhar".

Secretário-Geral do EstadoEurípides de Aguiar, deixando a chefatura de Polícia, passou a ocupar, então, o cargo de secretário-geral do Estado, a que estavam subordinados todos os departamentos da administração pública.

Nas eleições de 1950

Nas eleições de 1950, a União Democrática Nacional (UDN), embora no governo, estava bastante dividida, sem consenso para a escolha do candidato à sucessão de Rocha Furtado. Não encontrou outra solução senão indicar para a missão o velho líder Eurípides de Aguiar que, embora já bastante doente, aos 70 anos de idade, aceitou participar da campanha como forma de unir os correligionários e refutar o poder central que, nas mãos do general Eurico Gaspar Dutra, do Partido Social Democrático (PSD), ameaçara intervir no Piauí.

No Partido Social Democrático (PSD), a situação era semelhante. O partido estava sem candidato ainda porque também dividido. Havia o grupo de Leônidas Melo, que fora governador e interventor federal no Piauí, de 1935 a 1945, o grupo dos Pachecos - os irmãos Cláudio e Sigefredo e o cunhado Valdemar Leal, o grupo dos Gayosos e Freitas.As forças de cada grupo equiparavam-se umas às outras. E cada grupo gostaria de candidatar um político de suas próprias hostes porque uns de um grupo não admitiam votar para fortalecer os outros correligionários. Havia desconfiança generalizada. A solução encontrada foi buscar um nome de conciliação. A escolha recaiu sobre Pedro Freitas, que residia em Teresina, desde 1937, quando veio dirigir uma filial de sua empresa.

Pedro Freitas era um comerciante de grande influência econômica e política na Capital e em vários municípios do Estado, não tinha arestas com quem quer que fosse. Pertencia, além disso, a um dos grupos mais fortes - o Gayoso e Freitas, e já tinha sido testado politicamente como vereador e presidente da Câmara Municipal de José de Freitas, em várias legislaturas. Carregava na bagagem a presidência da Associação Comercial Piauiense (1944 a 1945). Em 1946, tinha sido nomeado membro do Conselho Administrativo do Estado, colegiado o qual presidiu (como presidiu, também, depois, o Clube dos Diários e o Rotary Clube).

Pelo Partido Social Progressita (PSP) concorreu o médico Agenor Barbosa de Almeida, primeiro diretor do Hospital Getúlio Vargas.

Pedro Freitas venceu com uma maioria de 1.330 votos contra o seu principal oponente Eurípides de Aguiar. Teve 74.759, seguido de Eurípides de Aguiar - 73.429, e Agenor Barbosa de Almeida (do Partido Social Progressista) - 10.272.

Depois das eleições, foram encontradas várias urnas com votos de maioria para Eurípides de Aguiar, que interpôs 56 recursos ao Superior Tribunal Eleitoral, com o objetivo de anular as eleições realizadas em diversos municípios do Piauí, mas os próprios deputados eleitos pela UDN não lhe deram apoio, pois temiam, com a recontagem dos votos, perder os mandatos já conquistados.

Pedro Freitas assumiu o cargo, eleito pelo sufrágio universal, ao lado de Tertuliano Milton Brandão, seu vice-governador, a 31 de janeiro de 1951, encerrando mandato a 31 de janeiro de 1955.

No mesmo dia, voltava à presidência da República Getúlio Vargas, também legitimado pelo voto popular. Pelo PTB, apoiado pelo PSP, no final do governo Dutra, foi eleito com 48,7% dos votos, derrotando na urnas Eduardo Gomes (UDN), Cristinano Machado (PSD) e João Mangabeira (PSB).


Repouso do guerreiro

Recolhido em sua residência, Eurípides de Aguiar, ficava horas lendo os clássicos em francês, em companhia do professor Fernando Marques, ou então recebendo os vaqueiros da fazenda, quando a conversa versava sempre sobre seca, pouca chuva, inverno fraco, doença do gado ou pastagens.Ficava no seu escritório - palco de decisões políticas durante 30 anos. Quando parava a conserva, sentava-se à mesa, coberta de feltro verde, onde escrevia os artigos "Comentários", publicados no jornal O Piauí.

Eurípides de Aguiar já muito doente (sopro congênito no coração), permaneceu por algum tempo numa tenda de oxigênio, armada em sua residência, no casarão dos Aguiar, na avenida Antonino Freire, nº 1371, Centro.

O médico Ulisses Marques, seu afilhado, filho do Dr. Fernando Marques e de dona Miloca, o acompanhou nos seus últimos momentos.Após lutar renhidamente, Eurípides de Aguiar faleceu, em Teresina, a 2 de março de 1953.Foi enterrado Cemitério São José todo de branco, a seu pedido, com cova ornada com pedras da fazenda Bananeiras. Não queria mais ninguém enterrado com ele. Dona Gracy, sua esposa amada, repousa em cova aberta ao seu lado.

3 comentários:

Anônimo disse...

Uma pequena correção: Augusto Falcão Lopes não é filho de Probo Falcão Lopes e sim do seu irmão Pedro Falcão Lopes. Probo Falcão Lopes era pai da Dona Ismália de Sousa Lima Mendes, que esta por sua vez é viúva do Professor Waldomiro Mendes Rodrigues.

Grande abraço!

Diêgo C. Cavalcante Mendes(bisneto de Probo Falcão Lopes)

Kenard Kruel disse...

diêgo, você poderia me ajudar levantando a vida de probo falcão lopes. aliás, passe seu fone pelo meu 9838 0661 e vamos conversar sobre a família falcão lopes, muito me interessa. do amigo, kenard kruel.

Unknown disse...

Boa noite, Kenard. Aqui é Diêgo, bisneto de Probo Falcão Lopes. Infelizmente só visualizei sua mensagem agora. Encontro-me a disposição para esclarecer qual dúvida. Caso não o consiga, tenho o contato da pessoa que teve contato próximo com meu bisavô. Encontro-me no telefone +5586999843610 (Whatsapp).

Cordialmente,

Diêgo C. Cavalcante Mendes