quarta-feira, 4 de março de 2009

Herbert Parentes Fortes

Herbert Parentes Fortes.
Foto sem crédito.

Kenard Kruel

O poeta irmão Emerson Araújo topou coordenar o Seminário Herbert Parentes Fortes, que será realizado no período de 15 (quinta-feira) a 17 (sábado) de outubro do corrente ano, no Auditório Herbert Parentes Fortes. Convidados nacionais e internacionais virão tomar água do Parnaíba e do Poti e conversar sobre a vida e a obra desse fenomenal piauiense que, infelizmente, ainda não mereceu um olhar mais atento sobre ele. No sentido de contribuir para que ele se torne conhecido entre nós, passarei a publicar aqui e no portal da cultura piauiense - Kenard Kaverna - comentários que foram feitos sobre seus livros à época de suas publicações. O terceiro, segue abaixo:

Tristão de Ataíde

Nossa geração não possuía até hoje um filólogo. Ou melhor, não havia um filologista da nova geração. Isto é, cujas idéias estivessem de acordo com os princípios da lingüística moderna e que, ao mesmo tempo, aceitasse a libertação da língua brasileira do tronco luso.

O problema da língua é um daqueles que hoje em dia devem ser tratados de modo bastante diverso do que o foram pela geração passada. E já na última crônica tivemos ocasião de mostrar, sumariamente, quais esses novos rumos.

A noção de "filólogo" que a nossa geração recebeu era de um homem erudito, que conhecia perfeitamente latim e grego, era mestre em etimologia e tinha em casa os clássicos portugueses reduzidos a fichas. O objetivo da filosofia era a linguagem em si. O seu método – o estudo dos escritores puristas e clássicos.

O filólogo era um sábio que governava a língua, como um general moderno, desde a guerra russa- japonesa, governa as batalhas: de dentro do seu gabinete ou do seu vagão de comando. A língua era, em suma, um instrumento completamente formado em sua estrutura essencial e que nos era entregue para guardar intacto, quase intangível e sagrado, como um objeto de museu.

Não podemos mais, hoje em dia, aceitar esse critério. A filologia passou a ser, para nos, uma coisa diversa. E o filólogo, um ser diferente desse que nos tinham imposto.

Ao passo que o filólogo de ontem devia conhecer, sobre tudo língua e regras fixas, - o filólogo de hoje deve conhecer homens vivos e estados sociais. Se a etimologia e a erudição literária escrita eram os grandes instrumentos de trabalho do filólogo de ontem, - hoje em dia a psicologia, a fonética experimental, a etnografia e a sociologia devem ser os utensílios do nosso filólogo.

Ao passo que o de ontem devia conhecer a fundo os clássicos portugueses- o de hoje devem conhecer a fundo os homens brasileiros. Ao passo que o de ontem devia ou podia viver entre livros e fichas fechado em seu gabinete, - o de hoje deve viver, sobretudo, ao ar livre, a ouvir o que os homens falam e a registrar as formas usuais da conversão. Ao passo que o de ontem se preocupava só com a língua, em sua cronologia histórica, - o de hoje deve estudar a língua na sua origem humana.

Podia-se dizer passamos da filologia fechada á filologia aberta, da filologia estratégica á filologia tática.

Faltava-nos, porém, o filólogo novo que viesse trazer á nossa geração a contribuição simultânea da erudição e da vida. Que não fosse um artista e sim um homem de ciência.

Pois não estamos em tempo, nem em disposição, de tratar do problema de fantasia e sim de realidade.

É certo que a tendência a essa transformação de lingüística já se vinha formado mesmo entre os sábios da geração passada. João Ribeiro esposou, em principio, o movimento renovador e Silva Ramos deu-lhe a sua simpatia, não mencionado os que se dedicavam a estudos de dialetologia parcial,como Amadeu Amaral e outros. E mesmo na nova geração já tínhamos autoridades- como o Sr. Antonio Nascimento, o autor do "Linguajar Carioca" - que dedicavam à observação dos novos "fatos" da linguagem e não se encastelavam mais nas torres de marfim do "que se não deve dizer".

Não bastava, porém, o estudo da diferenciação dialetal. A dialetologia está, para a filologia,como o regionalismo para a literatura. Era um esforço parcial, necessário sem duvida,mas por natureza falho e mesmo perigoso para a unidade de língua, caso não fosse considerado apenas como estudo preliminar de uma tendência a corrigir, de uma forca centrífuga a desviar de novo para o centro.

E da que repudiamos o regionalismo, como sendo apenas uma mutilação da totalidade literária, devemos ultrapassar a dialetologia para começar o novo movimento de integração da língua, obra de gerações, obra do futuro, sem dúvida, mas que temos o dever de iniciar desde já.

Pois bem, acredito que a nossa geração vai ter o homem que lhe faltava. E acredito, com motivos de crer, depois de terminada a leitura de uma tese, que o autor impropriamente diz inédita, provavelmente por não ter sido ainda posta à venda:

*****

Herbert Parentes Fortes

- Do critério atual de correção gramatical (Tese de Concurso), 71 pags., Bahia, 1927.

Acaso ou providência é muito significativo para nos que essa tese nos venha da Bahia. A Bahia era, até hoje, um dos baluartes do lusismo, do gramaticalismo, da imobilidade da língua. Da Bahia é o ministro que ainda há pouco recebeu de Portugal todas as honras e todos os louvores, por ter defendido a língua portuguesa, o que para eles significa a "intangibilidade" da língua portuguesa. (É de notar, aliás, que desde o tempo do visconde de Cabo Frio, o grande "bispo" do Itamarati, por tantos decênios, no Império, todas as nossas delegações levam instruções para o emprego da língua portuguesa nos congressos internacionais).

A Bahia, enfim era rui. E rui Barbosa foi aqui a coluna mestra de toda a filologia passada.

Não existe, a meu ver, sintoma mais característico da diferenciação entre duas gerações, do que a atitude nossa diante de Rui Barbosa. Nós admiramos Rui Barbosa. Admiramos nele o amigo dos livros. O sábio de erudição prodigiosa. O homem de coragem cívica inexcedível. O jurista, o polígrafo, o constitucionalista, o educador e, sobretudo, o estupendo polemista.

Admiramos tudo isso, é exato. Mas nunca "sentimos" Rui Barbosa como escritor. Sempre foi radicalmente diverso de nós. Outra geração. Outra compreensão da linguagem, como grande escritor português. Como um clássico. Não como um escritor nosso. E muito menos do nosso tempo.

Confesso, sem o mínimo desejo de ferir a memória desse homem enorme, a qual tanto deve a nossa cultura, sem dúvida, e, sobretudo, o nosso caráter, e sem a mínima intenção de buscar o original: sempre tive muito mais encanto em ouvir a fala de um matuto, do um discurso de Rui Barbosa. Podia ler a este, ou ouvi-lo, com a maior admiração. Mas escutava o tabaréu com o coração, de brasileiro que sentia nessa língua tosca a fonte pura e cristalina do que havia de mais "eu" em mim.

Pois bem, tudo isso, toda essa experiência própria eu voltei a sentir lendo essa tese desse outro baiano, que ousa investir (sem o citar, aliás) contra a sombra asfixiante do seu imenso conterrâneo.

É curioso como a gente vai sentindo, nos homens da sua geração, que nos chegam de tão longe, de tão alheios ao nosso contacto,- como sentimos as mesma experiências, os mesmo estados de espíritos, os mesmos problemas resolvidos por forma semelhante. Como dizia William Blake, parece mesmo que há ambiente de espírito, sentimentos no ar, pelos quais nós "passamos", como ao nadar sentimos que atravessamos zonas mais quentes, zonas mais frias.

A tese do Sr. Parentes Fortes pode ser dividida em três partes, embora na realidade não haja de todo essa ordem de sucessão.

Na primeira parte mostra os princípios novos da lingüística moderna, de que se mostra perfeitamente conhecedor. Na segunda, especifica, em diversos parágrafos, quais os pontos <>em que a língua brasileira já se diferenciou da língua portuguesa. E, finalmente, discute, ao terminar, as suas idéias originais e ousadas sobre o modo de realizar "praticamente" a integração da nova língua.

Citarei alguns trechos, quanto me permita o espaço (é horrível viver sempre a encaixar o que temos a dizer dentro de limites estreitos! Há momentos em que se sente o rodapé como uma gargalheira... Pois não há tempo de ser breve, como dizia a velha Sévigné). Citarei, para mostrar, o essencial da tese original e profunda do Sr. Parentes Fortes, que para nós, partidários da diferenciação, já agora representa um documento considerável.

Começa a mostrar como foi levado a esse estudo, não arbitrariamente, ou por gosto de erudição e sim por ter experimentado em si a dissociação que se ia dando entre a língua que nos era ensinada e a língua que ouvimos falar. Foi experiência de todos nós.

Mostra depois como o erro dessa dissociação está sendo apontado por toda a filologia contemporânea:

"De cada uma e do conjunto de todas estas ciências, numerosos conceitos foram colhendo os autores. Desde os estudos de fonéticas e prosódia sintática, que se esboçou, antes de tudo, a necessidade de considerar a linguagem viva e espontânea como o verdadeiro fato natural de que se devia ocupar a lingüística. Foi quando se descobriu, entre outras coisas, a artificialidade e a estreiteza da língua literária e ainda a profunda diversidade que havia e há entre ela e a língua falada... A história foi talvez a que lhes forneceu os melhores fundamentos para esta sentença. É ela, com efeito, a que nos mostra, de modo indiscutível, quanto mal pode se trazer a si mesma uma literatura que se divorcia, pelos caprichos dos seus escritores, da linguagem viva que o povo lhes oferece para o uso".

Passa depois a especificar, como disse alguns dos pontos precisos em que uma gramática brasileira já pode assentar. É a parte mais importante do volume. Aquela em que as considerações cedem aos fatos. E estes já começam a receber uma certa sistematização necessária. Pois, o que há de mais interessante na tese é que ela não se prende a nenhum dialeto regional brasileiro, mas estuda a nova língua, em suas formas globais, orgânicas, totais.

Não tenho, entretanto, nem competência nem lugar para transcrever nem mesmo alguns desses 17 pontos de diferenciação. Basta-me reportar o leito que se interesse á leitura original da tese.

Finalmente, volta o autor a mostra como a formação histórica da nossa língua favorece a diferenciação.

"A língua vencedora no ambiente brasileiro não foi a língua da corte nem do púlpito portugueses, mas a língua do colono, a qual só podemos estudar através dos provincialismos vivos de Portugal e das transformações que eles apresentem atualmente no Brasil."

E especifica os motivos que a seu ver determinaram o desprezo desses elementos formadores e levaram a essa dissociação crescente entre a língua falada e a língua escrita, entre a língua dos escritores e a língua do povo, entre a literatura e a vida.

- "Todas elas podem ser expressas debaixo de um só nome: falta obtusidade do sentimento da realidade – eis o que, no Brasil, levou a literatura e a gramática a esse estado de eternidade morta, perfeito simulacro da impassibilidade búdica."

Aceitando, portanto, a diferenciação da nova língua como um fato, que a observação nos fornece e que a lingüística explica, - falta evitar a anarquia e pôr em prática os resultados da pesquisa teórica, pois o Sr. Herbert Fortes, como se está vendo, é um realista e não um devaneiador.

E nesse ponto é que apresenta a sua proposta um pouco ousada e, a meu ver, discutível. É a única parte do volume em que divirjo um pouco de suas idéias:

- "Nem a literatura, nem a ciência, nem o povo é capaz de organizar um trabalho de vulto, como seja o do estudo permanente das riquezas de nossa língua viva. Todos esses "poderes" a olham de um ângulo restrito, embora encerre ou subtenda outros pontos de vista. Ademais, o movimento social os domina e absorve. Para remediar a essa mal, só a ação da autoridade civil é capaz de uma orientação eficaz e equilibrada."

O ENSINO DA LINGUA

A idéia pode parecer absurda á primeira vista. Mas tem muito de verdadeira e o autor a defende com fundamentos muitíssimos justos.

- "Alfabetizar um povo é um erro gravíssimo, porque é abrir diante de um caminheiro uma imensidade de estradas novas para as quais ele não possui o instinto da escolha... Queremos dizer que o ensino oficial da língua materna devia ter um "conteúdo significativo" e não circunscrever-se á aprendizagem do manejo de uma máquina poderosa, como é a língua, sem uma simultânea educação do gosto e da inteligência que ela supõe e muito mais encerra... Queremos dizer que o ensino oficial da língua materna dever ser, sobretudo "oral"... Queremos finalmente dizer que os governos devem dar ao ensino da língua materna uma orientação mais concreta, mais autêntica, mais oral, mais expressiva... com programas baseados naquela compreensão da língua viva nacional".

O pensamento do Sr. Fortes é em suma este: no Brasil se tem formado uma língua viva ao lado de uma língua morta. A língua viva é falada por todos nós. A língua morta é escrita pela maioria e ensinada oficialmente. Ora, tudo nos manda preferir a língua viva á língua morta, aceitando a que o povo fala e repudiando os critérios fechados e rígidos da correção gramatical.

Mais isso seria a anarquia, se deixássemos ao abandono. Há uma tendência á quebra de unidade da língua, devido a causas variadas. E se repudiamos o laço tradicional da gramática portuguesa, devemos substituí-lo por algum outro laço mais nosso garantido por uma autoridade que parece de momento apresentar as vantagens da unificação e da uniformização, impedindo a dispersão e a anarquia, é o governo, é a autoridade civil, que faz o mesmo com as tendências sociais anárquicas ou separatistas. E daí a sua conclusão: "Convencidos da incapacidade da ciência e da literatura para, isolada ou conjuntamente, dirigir de fato as riquezas da nossa língua e organizar a sua disciplina, propomos aqui para fundamento científico do critério de correção gramatical o mesmo fundamento sociológico da autoridade civil".

Há muito de verdade em tudo o que alega o Sr. Fortes. E a minha divergência está apenas em julgar prematura uma tal ação centralizadora da autoridade civil.

Penso que ainda estamos na fase de formação. Ainda são imensos os preconceitos contrários a uma diferenciação orgânica da língua. As classes cultas julgam plebeísmo essa vitalidade de idioma. Os mestres elementares não estão, nem de longe, preparados para ensinar o que ainda nem sequer aprenderam ou apenas observaram. Os mestres superiores, esses ainda são mais aferrados ao lusismo. Dos escritores só uma parte pequena aceita as novas idéias e desses só uma parte mínima está disposta a pô-la em prática. A Academia faz obra de filologia erudita e passada, limitando-se quando muito, a aceitar "brasileiríssimos". E quem apenas aceita os "brasileiríssimos" da língua, está muito longe de compreender a nova fala brasileira.

E, finalmente, essa fala ainda está em período de formação. A estrutura geral da língua ainda não sofreu uma transformação tamanha, que possa permitir já a redução dos novos fatos a um sistema completo e geral. Não podemos prescindir do fator tempo. E como não temos a mínima pretensão de fazer uma obra no ar e sim qualquer coisa de absolutamente enraizado na realidade, não devemos temer desde já os perigos da anarquia. Ainda estamos, por ora, dissolvendo a velha fortaleza feudal do lusismo gramaticógrafo. E para esse trabalho o esforço disperso e continuou é talvez insubstituível. Temos de trabalhar "com" a natureza, "com" a alma nova da nação e nunca contra elas ou a despeito delas.

Por isso é que considero a ação unitária do Sr. Herbert Fortes um pouco precipitada e prematura.

Ele mesmo está em condições de prestar um serviço muito maior á nossa causa, do que propondo a adoção de critérios absolutos (e de momento "impossíveis" de realizar) para os programas oficiais de ensino da língua. A língua é obra do povo. A autoridade só pode intervir depois dela formada.

E o serviço muito maior que o Sr. Fortes pode prestar á causa da língua brasileira é aprofundar de toda forma o seu estudo.

Sua tese me trouxe positivamente uma grande esperança. Espero que seja ele o filósofo que faltava à nossa geração. Vejo nele qualidades que o habilitam a essa honra.

NOTA:

O mundo é de tal modo paradoxal, que não será para a maioria dos meus leitores motivo do espanto que lhes confessemos ter sido o Sr. Tristão de Ataíde, que se diz incompetente para analisar a nossa tese sobre a língua brasileira, o melhor expositor e o mais fino crítico de nossas idéias em matéria de lingüística nacional.

E o fez de tal modo, que nos sentimos no dever de publicar a nossa gratidão pelo modo claro e elegante com que ajuntou ao nosso pensamento não sei quê de simpatia, tirando-lhe arestas e até obscuridades próprias do meu estilo e em parte inevitáveis ao estudioso das ciências experimentais. Assim, o que hoje possa ter a minha tese de mais divulgado e bem aceito nas rodas cultas do País, não o deve a mim nem a meu livro de mínima circulação, mas ao ilustre crítico brasileiro que ligou ao seu renome de príncipe da crítica literária contemporânea de Brasil a apresentação de nossa tese ao público nacional.

E agora, uma observação sobre o ponto de nossa tese que o Tristão de Ataíde considera prematuro. Entende que é muito cedo para uma interferência da autoridade civil no caso de nossa língua, apesar de aceitar em princípio a necessidade disto. Em nossos trabalhos temos procurado justificar sociologicamente a relação entre a língua de um povo e o seu “governo”. Ensaiamos arrimar em fatos a idéia de que o “poder” anda sempre, nas sociedades espontâneas e elementares, nas sociedades simpsíquicas ou sincretistas, anda sempre influindo preponderantemente na unificação das línguas, embora não as considere senão em função do seu “conteúdo”. Não há, certamente, nas sociedades fechadas, como diz Bergson, nenhuma “intenção oficial” de fazer gramática para as coletividades, mas uma influencia constante e geral do poder sobre a vida das línguas através de seu conteúdo significativo,- a sua reserva religiosa e a enorme síntese de experiências coletivas que elas guardam e impõem aos elementos sociais.

Poderia alguém concluir daí que o melhor, em tal caso, é deixar-se a causa andar por si só, acreditando que a natureza se basta. Este laissez-faire de inspiração determinista nós levaria a uma impassibilidade diante dos fatos. Mas nós acreditamos que também é um fato constante e geral da psicologia coletiva o sentimento télico, o caráter finalista da ação humana, seja diante da natureza cósmica, seja diante de si mesmo. Queremos muita causa que fazemos. Impossível prescindir-se do primeiro ato, que é o que humaniza o nosso fazer dentro do fazer universal. Falamos e em nossa fala há, sem duvida, muito de involuntário, de inconsciente. Mas tudo isto, que a lingüística tem revelado aos olhos assombrados dos homens, é instrumento de um querer individual e uma coação coletiva, - uma vontade grupal. Nesta vontade coletiva podemos distinguir vários elementos e uma hierarquia. Nesta é dominante a influencia das Metrópoles e o que faz a Metrópole é a concretização do “poder” numa corte centralizada por um “ chefe”.

A etnologia nos oferece disto um mundo de exemplos que não podemos alijar fazendo ciência, mas descreve cientificamente para entregar á nossa vontade e poupá-la de aventuras na complexidade inextricável do possíveis, que muitas vezes são improváveis.

Propondo a ingencia do Poder na unificação de nossas tendências á diferenciação lingüística, pretendemos ser “sábios”, - não atrabiliários. Claude Bernard dizia que os fenômenos físico-químicos da atividade biológica realizam, mas não dirigem enquanto o principio da vida dirige o que não pode realizar. A intervenção do poder que solicitamos para ajudar a solução do nosso problema é apenas, é somente, é exclusivamente a que dirija o que não faz. O nosso ponto de partida em nossa tese é o habito lingüístico nacional, que tem de ser estabelecido, não de uma vez para sempre, mas de um modo “expectante e constante.” Não nos interessa uma execução imediata de nosso plano, mas uma intenção firme e bem dirigida de” assistir “aos nossos costumes de linguagem, para os defendermos da dissociação a que tendem naturalmente e que, no Brasil, poderá tornar-se um perigo pelas seguintes razoes: a) a dissociação em que vivem os nossos grupos de população, de modo que é mais fácil hoje uma viagem ao Japão, do que á Capital de muitos dos nossos Estados; b) a influencia arbitraria e artificial da nossa escola, onde a gramática é o ponto de partida e a literatura o fim de nossos estudos de linguagem, com aberrante desprezo da língua que falamos; c) a influencia crescente de varias línguas estrangeiras, fortemente colaborada pelo nosso esnobismo e nosso complexo de inferioridade em face da Europa, da Norte-America, do Japão, da Argentina, da Rússia soviética, - a lista de tabus é cada dia maior.

Não somos, então, defensores de uma atitude artificial, mas adversários sistemáticos de um mundo de artifícios que nos ameaçam de sobrepor á nossa originalidade de segunda natureza de outras mentalidades inarticuláveis ás nossas condições inevitáveis de existir como nação. A nossa Academia publica documentos literários que todos consideram de grande valor. O nosso Ministério de Educação reedita obras preciosas que a superficialidade de nossos literatos dispensa de divulgação e estudo. - Porque não há de ser para a Academia e o Ministério de Educação igualmente valioso o estudo de nossa língua?

Como se vê, não é reforma do “fato lingüístico” que propomos, mas da nossa falsa consolação de que não precisamos de estudar a nossa gramática,nem fazer a nossa literatura clássica,porque os portugueses tiveram o cuidado de os fazer antes de descobrir o Brasil. Quem melhor poderá falar disto são os escritores portugueses que nos lêem e mais ainda os que vêm de Portugal ouvir como falamos...

Por outra parte, sempre tivemos cuidado de advertir aos que têm lido os nossos trabalhos, de que não acreditamos na eficiência total da intervenção do Poder na organização de nossa disciplina gramatical. Esta será talvez impossível sem a colaboração espontânea da literatura, que é um fator social de grande forca em nosso ver, em estabelecer um cordão umbilical entre o que intentemos fazer em literatura, em gramática e na escola, de um lado, e o que vai fazendo, á nossa revelia, a massa colossal do nosso povo com a língua que vive. E nada aí será mais imediatamente eficaz do que essa literatura regional que tem já uma tradição em nossas letras e modernamente ganhou um impulso triunfal.

Quiséramos que o nosso Governo e a nossa Academia de letra tomasse conhecimento dessas cousas e em vez de as retardar, afogar, silenciar ou impugnar, - que se dessem, verdade, por seus corifeus e colaboradores.

Sem artifício, mas contra todo artifício. Com a natureza, - dizemos nós á maneira de Tristão de Ataíde, mas também com o propósito de vê-la, coordená-la facilitá-la, fazendo-nos “um” com ela, mas fazendo-a “nossa” contra tudo que a possa corromper.
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Por trás de muita corrupção dos homens está uma corrupção da natureza que eles julgam diferente deles. Mas é salvando-a que eles se salvarão. (HPF).

Um comentário:

Alcebíades Filho disse...

não o deixe sem mim.

alcebíades filho, de quem, mesmo?

(www.hamletmaquina.wordpress.com)