sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Getúlio Vargas no Piauí - 1933

Na tarde do dia 23 de setembro de 1933 vários aviões militares fizeram voos rasantes sobre Teresina, assustando e anunciando a chegada de Getúlio Vargas. No Rio Parnaíba, pousa um hidroavião. A porta se abre, aparece Getúlio Vargas, baixo e gordinho, que desce acompanhado dos ministros José Américo de Almeida (Viação e Obras Públicas) e Juarez Távora (da Aviação e Obras e depois da Agricultura), além de outros membros do governo, e vai até um bote a motor, que os aguardava. Foi recebido pelo interventor Landri Sales.
No cais, alunos dos colégios de Teresina sacudiam bandeiras verdes e amarelas saudando a comitiva.
A banda de música tocou a saudação presidencial e, entre os dobrados, se dirigiram, em carro aberto, ao Palácio de Karnak.
Quase todos os carros da cidade - não eram muitos - acompanharam o cortejo. Getúlio Vargas de terno branco, chapéu panamá, charuto inseparável na mão esquerda, enquanto que, com a direita, acenava para a multidão, era um homem carismático.
Na porta da sede do Executivo, o Batalhão da Polícia e do 25° BC. O presidente, de mão no peito, ouve os hinos, faz revista às tropas e entra no Palácio. O interventor Landri Sales apresenta os secretários, faz o seu discurso de recepção, e manda servir cajuína.
O interventor Landri Sales disse, em seu discurso, que a receita estadual gerava recursos tão exíguos que mal bastavam à manutenção do deficientíssimo aparelho administrativo; que o Estado não possuía estradas de rodagens e nem de ferro, nem porto marítimo, e que a falta de estrutura refletia-se na situação econômico-financeira do Piauí. Revelou também que a agricultura e a pecuária eram atividades de subsistência e, portanto, com um nível tecnológico baixíssimo.
Após, Getúlio Vargas concedeu audiência privada ao interventor Landri Sales. À noite, no Palácio de Karnak, foi servido um farto jantar para as autoridades e convidados. Mas, como o Palácio de Karnak não oferecia condições de hospedar, o jeito foi alojar Getúlio Vargas e comitiva na casa do casal Dr. Francisco Freire de Andrade e dona Áurea, uma das mais confortáveis da época, ainda de pé na esquina da David Caldas com a hoje Avenida Antonino Freire, nas proximidades da Praça Pedro II. A família Freire de Andrade teve que se instalar em outra residência para alojar bem a comitiva presidencial. Naquela época, não tínhamos, ainda, hotéis em Teresina que pudessem acomodar gente de nível. Então, as grandes residências recebiam os convidados ilustres. Na referida casa, depois, por um bom tempo, residiu o governador do Estado Dr. Rocha Furtado.
Atualmente a casa, um pouco descaracterizada, a casa pertence à família do saudoso Dr. Ciro Nogueira.
O Dr. Freire de Andrade era negro, filho do padeiro Vitalino, e de dona Nenem (Luísa Freire de Andrade), senhora muito simpática, dona de casa, que gostava muito de comer. Ela colocava uma porção na boca e dizia assim: - “isso é muito bom, eu adoro!” Deixa que ela adorava tudo que era comida. Toda comida era boa para ela.
O Dr. Freire de Andrade formou-se, com distinção, em Medicina pela Faculdade da Bahia. Como médico, trabalhou na campanha da vacinação contra a varíola (informação prestada por Dr. Antenor à professora Justina de Sousa Medeiros Oliveira, de Piripiri).
No dia 3 de maio de 1933 foram realizadas eleições para a Constituinte. Foram vencedores pelo Partido Nacional Socialista o tenente Agenor Monte (quociente eleitoral), com 3.084 votos; Francisco Pires Gaioso e Almendra, com 3.286 votos, e Dr. Francisco Freire de Andrade, com 3.221 votos (em segundo turno); pela legenda Hugo Napoleão do Rêgo, o Dr. Hugo Napoleão do Rêgo, com 2.716 votos. Relação dos suplentes com as modificações verificadas após a instalação da Assembleia Nacional Constituinte. Pelo Partido Nacional Socialista, 10 Leônidas de Castro Mello. Pela legenda Hugo Napoleão do Rêgo, 10 Raimundo de Arêa Leão, 20  Sigefredo Pacheco e 30  Adolpho Alencar.
Naquele tempo, pelo Código Eleitoral de 1932, a apuração era feita em duas etapas, uma criação do Dr. Joaquim Francisco de Assis Brasil, um dos idealizadores do referido código, juntamente com o jurista piauiense Dr. João Crisóstomo da Rocha Cabral, infelizmente muito pouco conhecido no Piauí, apesar de saudado no resto do país.
Nas eleições do dia 19 de janeiro de 1947 disputou cargo de deputado federal, pelo PSD, sem lograr êxito, entretanto. Foram eleitos três deputados pela UDN: Celso Eulálio, Antônio Castelo Branco Clark e Ocílio Pereira do Lago.
Muito distinto e solidário. Era amigo de nossa família. O ditador Getúlio Vargas sabendo que meu pai residia perto, pediu ao Dr. Freire de Andrade que viesse ao casarão convidá-lo para ir até lá, pois queria muito cumprimentá-lo. Quando ele se anunciou, meu pai, que estava na sala de visita, se levantou da cadeira de vime e o convidou a se sentar. Dr. Freire de Andrade disse que a visita era breve e que estava ali apenas para cumprir um pedido de Getúlio Vargas. Papai já fechou a cara. Após ouvi-lo, exclamou: “Diga para aquele homem, que eu morri!” E encerrou a conversa ali mesmo.
Foi assim uma bomba! Por que quem era que tinha coragem de mandar para o presidente, mandão como ele, uma resposta desaforada como aquela? Mamãe, que era suave, ficou muito preocupada com a resposta enérgica do marido. O Dr. Freire de Andrade, sem jeito, saiu dizendo: “esse é o Euripão que eu conheço.”
Sobre o Dr. Freire de Andrade, devo acrescentar que, numa justa homenagem, a Prefeitura de Piripiri criou a a Escola Municipal Dr. Francisco Freire de Andrade, que funcionou até 1973 numa casa que não existe mais na Rua Pedro II. Em seu local foi construída a Unidade Escolar Auri Castelo Branco. Foram professoras da Escola Municipal Dr. Francisco Freire de Andrade: Justina de Sousa Medeiros Oliveira (professora e diretora), Rita Sampaio, Maria das Graças, Edna, Maria do Socorro Barroso, Maria de Fátima e Luzimar (além de outras).
 Justina de Sousa Medeiros Oliveira nasceu no lugar Mulungu, no município de Piripiri, no dia 24 de setembro de 1931. Filha de Joaquim de Sousa Leão e de Dona Cirina Rodrigues de Medeiros. Começou a lecionar na Escola Municipal Dr. Francisco Freire de Andrade em 1966, permanecendo até o fim das atividades da citada escola, em 1973.
Bem, voltando ao Getúlio Vargas, quando ele assumiu o governo, que seria provisório e durou 15 anos (1930 a 1945), uma das primeiras medidas dele foi fechar o Congresso Nacional, cassando o papai e o meu tio Antonino Freire, que eram senadores da República, e depondo o meu tio Joca Pires do Governo do Estado.

Legenda: Felismino, Diretor de Instrução no Piauí,
recebe Getúlio Vargas e Landri Sales na Escola Normal

Legenda: Getúlio Vargas no Colégio das Irmãs

Getúlio Vargas inaugurou, ainda, o Campo de Aviação e o Grupo Escolar Domingos Jorge Velho. Visitou o Colégio das Irmãs, na Avenida Frei Serafim, e a Escola Normal, que era onde hoje é a Prefeitura de Teresina, em companhia do professor Felismino de Freitas Wéser, diretor de Instrução Pública do Estado.
O professor Felismino substituiu o professor Martins Napoleão na pasta da Educação e fez uma revolução educacional, inclusive com elogios do ministro da Educação.
Nessa época, era diretor-geral de Estatística do MEC o professor Teixeira de Freitas, grande educador brasileiro.
O ditador Getúlio Vargas recebeu, também, representantes da Associação Comercial Piauiense. Eles entregaram ao governante um relatório das atividades mercantis, datado de 23 de setembro de 1933, tomando por base a situação das comunicações fluviais, portuárias, ferroviárias e aéreas, bem como do crédito bancário. Fizeram uma lista de reivindicações, tipo: a) construção do Porto de Amarração (hoje Luiz Correia), b) construção da estrada de ferro Teresina - Sobral, c) conclusão da ponte sobre o Rio Parnaíba, d) execução de melhoramentos do Parnaíba até Santa Filomena e Balsas, e) desobstrução do Gurgueia, no trecho entre Jerumenha e Bom Jesus, f) restabelecimento da subvenção às empresas de navegação fluvial, g) intensificação da política creditícia condizente com as necessidades do comércio, da indústria e da lavoura, h) edificação de um campo de pouso em Campo Maior, i) revogação do decreto que determinava a resselagem dos estoques, j) criação de uma política favorável à regularização do mercado de cera de carnaúba.
A diretoria da Associação Comercial Piauiense era formada, na época, por Anfrísio Lobão Veras Filho (presidente), João Castro Lima (vice-presidente), Ocílio Lago (1o secretário), Basílio Bezerra (1o tesoureiro), Basílio Alves de Carvalho (2o tesoureiro), Jeremias de Leão, Aarão Parente e Afrodísio Tomáz de Oliveira (diretores).
A Associação Comercial Piauiense, fundada em 24 de agosto de 1909, há muito vem sendo presidida pelo empresário José Elias Tajra.

Do livro Genu Moraes - a Mulher e o Tempo

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