quinta-feira, 19 de abril de 2012

Joca Vieira

Joca Vieira.

Helena Arcoverde
Kenard Kruel

João Rodrigues Vieira (Joca Vieira): Nasceu em Patos, na Paraíba, em 1893. Era para se chamar João Vieira Arcoverde, mas como já havia um tio como este nome, foi-lhe dado o de João Rodrigues Vieira, sobrenome diferente da família, mas ele se considerava João Vieira Arcoverde. O pai era proprietário de terras, muito preocupado com a educação dos filhos. Casou-se duas vezes. Teve sete ou nove filhos. Com exceção de um ou dois do primeiro casamento, os demais se formaram, o que não era fácil naquela época. Formado, no inicio do século em Farmácia pela Faculdade de Recife, Joca Vieira fixou-se em Amarante, em companhia dos irmãos José Eudócio, formado em Direito, depois juiz, e Miguel Arcoverde, guarda-livros, profissão hoje de contador, e inspetor da Fazenda Estadual, casado com a amarantina Augusta Mendes Arcoverde, com quem teve os filhos Dirceu Mendes Arcoverde, secretário de Saúde no primeiro governo Alberto Silva (15 de março de 1971 a 15 de março de 1975), governador do Piauí (15 de março de 1975 a 14 de agosto de 1978) e senador da República, falecendo no primeiro discurso que fez naquela Casa, a 16 de março de 1979, e Valdir Mendes Arcoverde, que foi Ministro da Saúde, no período de 30 de outubro de 1979 a 1984. Joca Vieira e o Miguel Arcoverde eram, além de irmãos, muito amigos. Como o irmão não saia de casa, passava diariamente lá para saber como ele estava. Somente depois, ia ao encontro da turminha dele, os intelectuais da cidade, para conversar e saber, principalmente, das novidades do mundo da política, sua outra grande paixão.

Em Amarante, participou da fundação do tradicional Colégio Amarantino, juntamente com o grande mestre e historiador Odilon Nunes, seu diretor. Depois, com a vinda de Odilon Nunes para Teresina, o colégio passou a ser dirigido pelo professor Francisco da Cunha e Silva. Os dois últimos foram membros da Academia Piauiense de Letras.

Joca Vieira casou-se com Helena Sobral, com quem teve os filhos: Dayse Arcoverde Coutinho (mais velha) Ivan Sobral Vieira Arcoverde, Wener Sobral Vieira Arcoverde, Edgar Sobral Vieira Arcoverde, Verbena Angélica Sobral Silva. A filiação está pela ordem de nascimento. Helena Sobral era de uma família descendente de portugueses, que se fixaram em Amarante, residindo numa das poucas casas com azulejos vindos de Portugal. A casa foi vendida há muitos anos. Helena Sobral era fã do poeta amarantino Da Costa e Silva, de quem sabia de cor todos os poemas. Era irmã de Teodoro Ferreira Sobral.

Em Floriano, Joca Vieira foi professor da Escola Normal e exerceu o cargo em comissão de prefeito, no período de 1934 a 1936.

Em Teresina, Joca Vieira morou quase toda a vida na Rua Sete de Setembro (antiga Rua Miguel Couto), 242, Centro Sul da capital. Nos finais de semana, ia com a esposa Helena Sobral para a quinta da Rua Mestre Estevam, nº 1384, no Bairro Piçarra, onde anos depois morou a neta Helena Sobral Arcoverde com o jornalista e cartunista Albert Piauí, com quem teve os filhos Pedro de Helena e Albert Nane.

Joca Vieira foi diretor da Escola Normal em Teresina, hoje Instituto de Educação Antonino Freire. Nessa época, ele era muito prestigiado em função desse cargo que, na época, era muito importante. A foto dele estava na Galeria de Ex-Diretores. A filha Verbena era bibliotecária (na época não se exigia diploma de bibliotecária) da Escola Normal de Teresina. A neta Helena Sobral Arcoverde estudou o jardim de infância lá, um prédio, de construção majestosa, trabalho do engenheiro Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, um dos maiores intelectuais que o Piauí já teve. Joca Vieira lecionou também no Liceu Piauiense. Foi um dos fundadores do Colégio Demóstenes Avelino, ao lado do professor Felismino Freitas Weser e outros, que funcionava na esquina do lugar conhecido como Alto da Moderação, atualmente o ponto de referência é a Praça do Fripisa, que oficialmente se chama Praça Demóstenes Avelino (o primeiro juiz federal do Piauí, pai do também juiz federal Lucrécio Dantas Avelino, assassinado barbaramente, em sua residência, na noite de 18 de novembro de 1927. Crime que abalou o Estado. Anos depois, quando o Colégio Demóstenes Avelino foi desfeito foram à casa da viúva Helena Sobral com uns papéis para que os assinasse tendo em vista que o nome do marido constava na ata de sua fundação. O colégio Demóstenes Avelino era a cara dele, lembra a neta Helena Sobral Arcoverde.

Joca Vieira representava, como farmacêutico, salvo engano, a Farmácia Carvalho, com funcionamento nas proximidades da Praça Rio Branco. Ele dava nome à Farmácia, pois era bem conceituado como farmacêutico, tendo sido, inclusive, um dos mais destacados membros do Conselho Regional de Farmácia. Apesar da profissão de farmacêutico, deu a vida pela docência.

Joca Vieira era kardecista, um dos fundadores da Federação Espírita Piauiense, que presidiu por mais de 30 anos. Foi ele quem conseguiu a doação do terreno e construiu a sede com recursos que ele, com o seu prestígio, conseguiu ao lado de outros fundadores como o des. Pedro Conde (ver verbete nestas notas) e o promotor de justiça dr. Heli da Rocha Nunes (pai do grande poeta Torquato Pereira de Araújo Neto, um dos mentores da Tropicália, movimento de renovação das letras e das artes brasileiras no final da década de 60 para o início da década de 70 do século passado. A esposa do dr. Heli Nunes, Salomé Nunes era católica fervorosa, mas, também, entre eles não havia conflito). Joca era uma espécie de mentor do dr. Heli da Rocha Nunes.

Ao falar destes kardecista, destaco a coragem e a independência deles. No passado, há mais ou menos 50 ou 60 anos, ser kardecista despertava desconfiança e do medo de muita gente, pois corria à boca pequena que eles falavam com os mortos e isso era coisa do demônio. As famílias teresinenses, como do resto do país, eram e ainda são muito católicas. Não se falava nem em protestantismo (Batistas e Presbiterianos, por exemplo), imagine em espiritismo! Havia muitas restrições nas famílias e na sociedade com relação a quem assumia o fato de ser kardecista. As pessoas não entendiam a filosofia, a doutrina espírita. Os membros eram estigmatizados. Hoje, não, em recentes pesquisas divulgadas na mídia, o espiritismo detém, disparadamente, uma quantidade de pessoas com alta formação, titulação e renda.

Joca Vieira fazia um trabalho social muito grande. Não se cansava de atender as pessoas carentes. Sua casa era sempre cheia de idosos, que ele atendia com o maior carinho. Ninguém saía de sua casa sem consolo material e/ou espiritual. Morreu com poucos recursos, quase pobre mesmo. Situação vexatória para um homem da sua importância. Em reconhecimento ao seu trabalho, temos o Centro Espírita Joca Vieira, no Parque Piauí, e a Escola Joca Vieira, perto do Verdão (Ginásio Dirceu Mendes Arcoverde), em Teresina.

Em Amarante, Joca Vieira participou da primeira manifestação física ocorrida no Piauí. Certo dia, na casa de uma senhora, começou a aparecer fezes dentro das panelas. O dr. Gonçalo de Castro Lima mandou que o procurassem pois ele, certamente, daria solução para o caso. Ao chegar, um preto velho que estava em cima da árvore na casa da dita senhora, disse que há dias tentava comunicar-se, sem sucesso, por isso, passou a colocar fezes nas panelas para chamar a atenção dos moradores. A partir daquele dia, tudo voltou ao normal.

Em Teresina, apareceu-lhe um sinal no pescoço, que começou a incomodá-lo muito, deixando-o bastante preocupado, pois estava ficando com aspectos feios. Então, numa noite, antes de dormir, em oração pediu a um médico alemão que o livrasse do incômodo. Quando amanheceu o dia, o sinal estava caído na rede.

Joca Vieira deixou tudo pela docência. Era um educador nato. Quando morava em Amarante, tinha uma farmácia com boa freguesia, mas passou adiante o ponto porque não queria continuar como farmacêutico, na época uma profissão de destaque e de boa renda. A sua paixão, a sua vocação era o magistério. Feliz foi o dia que começou a lecionar Geografia. Suas aulas eram cativantes porque ele envolvia os alunos com sua sabedoria e eloquência. Naquele tempo, a sua Geografia já era uma coisa viva, palpitante, com histórias fascinantes e não apenas pontos num mapa, num globo, com obrigação de decorar apenas nomes, rios, mares, oceanos, países e planetas. Joca Vieira lia centenas de livros por ano, de diferentes assuntos. O último livro que Joca Vieira leu foi Israel em Abril, de Érico Veríssimo. Grande era o seu contato com os escritores do Estado e sua correspondência com os residentes fora do Piauí. Diariamente recebia e respondia dezenas de cartas. Joca Vieira desencarnou em Teresina, em 1970.

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