segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Chagas Rodrigues: entrevista a JCM

Ele acaba de completar oitenta anos, cercado pelo carinho da família e admiração dos piauienses. O político mais popular de sua época. Trabalhista e reformador, foi responsável por um dos períodos mais promissores na administração do Piauí.

João Cláudio Moreno conversa hoje com o ex-governador e ex-senador Chagas Rodrigues.

Francisco das Chagas Caldas Rodrigues nasceu em Parnaíba, em 8 de novembro de 1922. Filho de Poncion de Queiroz Rodrigues e Ignésia de Caldas Rodrigues. Advogado, com formação dividida entre a Faculdade de Direito do Recife e a Universidade de São Paulo, onde se especializaria em Filosofia do Direito. Tentou uma carreira militar. Foi funcionário público, e, com 28 anos de idade, foi eleito deputado federal pelo PTB, partido de Getúlio Vargas. Feito que repetiu quatro vezes mais.

Em 1958, em plena campanha para mais um mandato na Câmara Federal, um acidente automobilístico mudou sua vida e a história do Piauí. Naquele ano inesperadamente substituiu a candidatura de Demerval Lobão, morto tragicamente no acidente, elegendo-se governador do Piauí.

Chegando ao poder aos 36 anos de idade, Chagas Rodrigues fez um governo popular e reformador. Seu período administrativo coincidiu com o surto desenvolvimentista do Governo de Juscelino Kubistchek. Em sua época o Estado teve pela primeira vez um direcionamento rumo à economia e foram implantadas as primeiras políticas sociais. Acusado pelos seus adversários de populista e apontado pelos historiadores como o grande protótipo de estadista, Chagas Rodrigues conseguiu aproveitar o poder dos meios de comunicação, principalmente o rádio, para tornar-se o grande líder de massas, até hoje copiado pelos políticos que o sucederam.

Cassado pelo Regime Militar de 1964, perdeu os direitos políticos por 10 anos. Perseguido pelo regime exerceu a profissão de professor universitário em Brasília. Voltou aos palanques com a redemocrati-zação do país em 1982. Consegue eleger-se senador em 1986, tendo sido um dos parlamentares mais ativos, conseguindo a nota 10 do Diap - Departamento Inter-sindical de Assessoria Parlamentar, por ter votado em todas as matérias de interesse da classe trabalhadora.

A conversa com João Cláudio Moreno foi no Hall do Hotel Nacional, em Brasília, em novembro deste ano (2002). (Luiza Gonçalves).

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JCM – O Sr. está completando 80 ano. Então o senhor tem uma vida, uma história muito bonita, uma história muito marcante. O senhor deve então parar assim, e foram muito festejados esses 80 anos, deve parar assim e fazer uma retrospectiva, um cinema. O que o senhor se lembra depois dessa vida que ficou para trás?
CR – Bem, eu agradeço a Deus ter chegado aos 80 anos, não é?, com os filhos, os amigos... e tenho recordações, recordações boas. Eu acho que Deus foi muito generoso comigo... e o meu povo, e os meus parentes e amigos, todos foram muitos generosos.

JCM – O senhor se lembra da infância em Parnaíba?
CR – Lembro. Passei minha infância em Parnaíba. Fiz lá o curso primário, fiz o curso ginasial e só sai, justamente, em 38. Terminei o ginasial com 16 anos e fui fazer o pré-jurídico...

JCM - Velho ginásio parnaibano!
CR - Velho ginásio parnaibano! Deixei, e fui para Pernambuco fazer o pré-jurídico e ingressar na Faculdade de Direito.

JCM - E depois para São Paulo?
CR - Depois me transferi para São Paulo, onde fiz os últimos três anos. Depois, eu fui para a capital da República. Submeti-me a um concurso. Procurei o DASP. Assistente jurídico do Ministério da Fazenda. Mais uma vez fui ajudado. Disputando sete vagas, obtive o 2º lugar.

JCM – Quando o senhor saiu do Piauí? Na década de 30, ainda, não?
CR – Saí do Piauí quando terminei o ginásio. Terminei o ginásio em 1938. Saí em janeiro de 1939.

JCM – O senhor já tinha convicções políticas? Já tinha uma consciência política?
CR – Já. Tanto que fui o orador da turma. Ninguém é orador de uma turma se não tiver alguma sensibilidade política.

JCM – O que o senhor discursou nesse dia?
CR – Ah! Sempre acreditando no futuro, em melhores dias, justamente para os mais necessitados, prestigiando a cultura, não?, defendendo o ensino tanto quanto possível gratuito. Tanto que realizei tudo isso na minha vida. O próprio ginásio parnaibano. Antes, só havia estabelecimento oficial em Teresina. Era o Liceu, o antigo Liceu, que eu mudei de nome, e a Escola Normal. Eu então oficializei e criei ginásio e escolas normais no interior: Parnaíba, Oeiras, Floriano etc.

JCM – Eu acho que, para um jovem profissional liberal tomar a decisão de uma carreira política, principalmente naquele tempo, porque a vida parecia mais promissora para a elite formada, para os intelectuais, agora, para quem tinha uma carreira de advogado brilhante, formado, recém-chegado ao sul, era uma decisão um pouco difícil, porque a família do político... Como é que nasce um político?
CR - Olha, o político pode ser levado à política por vários motivos. Primeiro, por gostar da vida pública, querer defender os interesses nacionais e os interesses do povo, das camadas mais necessitadas. Outros vão para a política, isso está nos jornais e nos livros, na esperança de ter poder, mandar. Outros, de conquistar fortunas, influir, e assim por diante. A mim, meu pai não era político, foi questão de vocação. Eu fui um vocacionado e procurei fazer da vida pública, na medida do possível, o sacerdócio. Quando eu sou eleito deputado federal pela primeira vez, em 1950, eu deixo meu escritório de advocacia.

JMC - O senhor advogava em Teresina?
CR - Não, advogava no Rio de Janeiro. Eu tinha me formado em São Paulo, e tinha ido para o Rio. Lá, fiz o concurso para o DASP, e, através do DASP, me liguei a piauienses no escritório de advocacia. Fui convidado...

JCM – Quem o convidou?
CR - Israel Correia e outros amigos.
JCM – Quando o senhor tomou a decisão de ser candidato a deputado federal, foi um atrevimento, não?
CR - É. Foi uma surpresa, porque, em primeiro lugar, eu rompi uma tradição. Normalmente, desde o Império, se começa sendo candidato a deputado estadual, a prefeito. Eu comecei candidato a deputado federal. E depois, rompendo uma tradição na minha Parnaíba querida. Nunca um parnaibano havia conseguido eleger-se deputado federal.

JCM – O senhor acha que, naquele tempo, estão configurados os partidos, o PSD, o PTB e a UDN?
CR – É, os partidos ligados à ditadura e os partidos ligados à oposição. E, nos partidos ligados à ditadura, até certo ponto o PT. Mas, o PT sempre também foi vocacionado para as lutas sociais.

JCM – Agora, a UDN foi um terremoto, digamos assim!
CR - A UDN era oposição. Era uma união. Todos os oposicionistas foram para a UDN. Depois da restauração democrática, surgiram as tendências, os partidos conservadores, os liberais, os esquerdistas moderados, e assim por diante. Eu sempre fui considerado um esquerdista moderado, um socialista democrata.
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JCM - Como era Parnaíba do seu tempo de juventude? Eu sei que Parnaíba era principal cidade do Estado. Era uma cidade próspera, preconceituosa, um pouco aristocrática. Que lembranças o senhor tem? Quem era a figura exponencial, assim, de Parnaíba?
CR – Não havia uma figura exponencial. Havia nomes de vários setores. Eu me lembro Aldir Mentor, um grande líder político, comunista de Parnaíba. Havia Epaminondas Castelo Branco, Mirócles Veras, ligado ao Partido Conservador, e assim por diante. Então, Parnaíba tinha os seus vultos políticos. Os grandes industriais da época, os grandes comerciantes, eram parnaibanos.

JCM – E José Narciso? José Narciso era uma espécie de benemérito?
CR – O José Narciso, o pessoal do Moraes, José de Moraes Correia, a firma do meu pai. A firma do meu pai chegou a figurar como o quinto contribuinte de impostos estaduais.
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JCM – Naquele tempo já havia o Colégio São Luiz Gonzaga?
CR – Já havia. Havia o Colégio São Luiz Gonzaga e o tradicional colégio Parnaibano, que, quando governador, eu o oficializei para que os alunos estudassem gratuitamente e o homenageei, dando ao estabelecimento o nome de um grande mestre nosso, de minha geração, que foi o professor José Pires de Lima Rebelo. Hoje é o Colégio Estadual Lima Rebelo.

JCM - O Senhor conviveu com ele?
CR - Ele foi meu professor.

JCM – Poeta
CR - Ele e outros.

JCM - O Senhor escreveu versos. Agora, completando 80 anos publicou um livro de versos e me confidencia que já escrevia. Por que nunca mostrou os seus poemas? Acha que os versos poderiam prejudicar o político?
CR - Não. Não sei. Eu preferia fazer os meus poemas para mim, para os meus filhos e para os meus pais. Aliás, comecei no ginásio, alguns eu ainda publiquei no tempo que fui ginasiano. Publiquei no então jornal O Ateneu. Jornal do Centro Estudantal Parnaibano. Mas, depois fui para Pernambuco. Escrevi versos em Pernambuco, escrevi em São Paulo, escrevi no Rio.
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JCM - Geralmente sobre o que? Poemas Líricos?
CR – Não, nem sempre. Claro que sentimento lírico, sentimental, romântico, mas também com sentido social.

JCM - Tem algum verso que lembre ai?
CR – Tenho um livro para entregar ao amigo.

JCM - Não tem nenhum de cabeça?
CR – Não, eu raramente... não procuro gravar.

JCM - E os seus poetas preferidos?
CR – Olha, eu até tinha a mania de não ler muitos poetas para não me deixar influenciar, porque às vezes aquilo fica no subconsciente e a gente repete imagens. Então, pouco eu lia. Lis, um pouco de Castro Alves, um pouco dos piauienses... Da Costa e Silva, alguma coisa, mas agora que estou...

JCM – O senhor teve conhecimento do grande parnaibano, contemporâneo nosso, o Assis Brasil?
CR - Sim, tenho inclusive os livros dele, que fui lê-los muito tempo depois.

JCM - Aquela época que era descreve é mais ou menos a sua época.
CR – Grande romancista.
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JCM - Fica aquela lembrança, a influência de Humberto de Campos. CR - Eu era ginasiano. O Cajueiro de Humberto de Campos está lá, em Parnaíba, nas memórias muito lidas. E, como ligado ao Centro Estudantal Parnaibano, eu fiz discursos no Cajueiro de Humberto de Campos.

JCM – Agora, diz o Mão Santa que o homem foi feito para a guerra e a mulher para o descanso do guerreiro. Como o senhor foi encontrar essa companheira de tantos ano,s que precisa ser muito forte para acompanhar a trajetória de um político.
CR - Maria do Carmo, uma pessoa extraordinária, teve uma grande importância na minha vida. Ela antes, na empresa do pai, já era responsável pelo setor social, pela assistência social. Quando governador, nós criamos o serviço social do Estado. Ela foi a primeira esposa de governador a presidi-lo. Continua com o mesmo nome e a mesma tradição. Maria do Carmo trabalhou e fez questão de não receber nenhuma remuneração dizendo que aquele dinheiro era, para mais ainda, ajudar os pobres. Então, ela me ajudou muito, em todos os meus cargos. Na Câmara e no Senado, ela ia diariamente. No governo, e assim por diante. Devo muito a ela.
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JCM - O Senhor criou a primeira política social do Estado. Foi o primeiro governador do PTB e o PTB era sinônimo de getulismo. Fazendo uma autocrítica, nós podemos dizer que, com todos esses avanços com assistencialismo, o trabalhismo poderia ser confundido, podia ser caracterizado pelo populismo?
CR - Não. É preciso distinguir da pessoa de Getúlio. Eu fui contra a Ditadura de Vargas, porque sempre fui contra toda e qualquer ditadura. Admito o socialismo democrático, a política social democrático, mas nada de ditadura, nem de esquerda nem de direita. Nós éramos da UDN porque a UDN se formou para lutar pela restauração da democracia. Restaurada a democracia, então os partidos tinham que ter a suas tendências. Matias Olimpio era um homem da esquerda, Demerval Lobão também, eu. Nós não podíamos continuar num partido onde a metade era a favor da reforma agrária e a metade era contra. Então a UDN cumprira a sua missão e tínhamos que procurar um partido de esquerda. Nós não podíamos ir para o Partido Comunista porque ainda tinha muita influência Stalinista. O Socialismo espantava muita gente. Então, o senador Matias e os outros companheiros acharam que devíamos ir para o Partido Trabalhista, tendo em vista que o Partido Trabalhista, através de Getúlio, fora o responsável pela implantação da legislação trabalhista de Getúlio no Brasil. Eu até ponderei: mas como? Eu era contra a ditadura de Vargas o tempo todo. “Não, você foi contra a ditadura. Getúlio Vargas, hoje presidente constitucional, está nos convidando. Todos os partidos estão nos convidando e Getúlio passa. O trabalhismo continua na Inglaterra. A social democracia continua, na Alemanha”. Então, fui com ele, com Demerval Lobão, para o Partido Trabalhista. Quando a Ditadura extinguiu os partidos, eu fui um dos fundadores do MDB, o único partido de oposição. Covas, eu e muitos companheiros.
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JCM – Montoro?
CR – Sim. Covas e eu terminamos com o mandato cassado e direitos políticos suspensos por 10 anos em 69. E até proibido de visitar o Piauí durante 10 anos.

JCM - Quando o senhor foi governador, além dessa política social começou, então, uma época de planejamento do Estado. O que nós vamos chamar de tecnicismo. Até então não era possível planejar o Estado. Mas houve uma aproximação das massas populares com programas de rádio em que o senhor lia cartas, respondia, falava diretamente... uma espécie do que o Sarney usou como “Conversa ao Pé do Rádio”. Como foi essa experiência?
CR – Bem, quem governa voltado para o povo faz isso. Eu, então, fui o primeiro governador do Piauí a dar audiência pública. Toda fim de semana, durante todo o dia, eu recebia as pessoas que quisessem falar comigo.
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JCM – No Karnak?
CR - Havia pessoas que vinham do Extremo Sul. Algumas diziam: - “eu vim cumprimentar o senhor, não tenho nada a pedir.”
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JCM - Isso não existia antes?
CR – Não. Eu fui o primeiro governador a dar audiência pública.

JCM - Isso não era populismo?
CR - Uns achavam que era populismo. Mas, eu achava que era ouvir o povo, porque o povo diz o que está errado...
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JCM – Mas, isso, então, foi uma nova maneira de administrar...
CR - Pois bem, cada um é livre para ter as suas idéias. Agora, cada um é livre para não acompanhar e ser fiel a sua consciência.

JCM - O seu adversário na campanha era o filho do governador Pedro Freitas, Dr. José Gayoso...
CR - Do ex-governador

JCM - Qual era o perfil dele, desse adversário?
CR - Era um rapaz tido como honesto, mas de idéias conservadoras. Como nós temos grandes políticos conservadores no partido conservador da Austrália e da Inglaterra. Cada um tem o direito de ter idéias.
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JCM - Como foi assumir o governo, Dr. Chagas, era uma oposição cerrada?
CR - Não. Eu tive algum combate, durante algum tempo. Mas eles também me respeitavam, porque perceberam que eu estava ali para servir à coletividade. Fui o primeiro governador a olhar para o Sul. Fiz as primeiras obras, as primeiras estradas, as primeiras escolas. O Sul era inteiramente ignorado.

JCM - Não havia estradas, não é?
CR - Quase não havia estradas. Eu cheguei, como deputado federal, a dizer que o Piauí estava destinado a se dividir em dois Estados. Apresentei as razões históricas e as razões geográficas. Eu disse isso antes da divisão de Mato Grosso e antes da divisão de Goiás. Não faz uns quatros anos, eu li uma grande reportagem que diziam: “A divisão do Piauí está voltando, a velha idéia de Chagas Rodrigues...”

JCM - O que o senhor acha que a idéia de dividir o Estado e de criar o Estado do Gurguéia?
CR - Acho uma grande idéia. Talvez não seja boa para aqueles políticos que se elegem com votos do Sul e do Norte, que querem continuar eleitos. Mas, do ponto de vista da ciência política, da racio-nalidade, do benefício às populações... no dia que tivermos o Estado do Sul e o Estado do Norte, teremos o progresso. O Tocantins, aqui está, se não tivesse sido dividido, o Goiás não tinha se desenvolvido.
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JCM - Não seria o caso de dividir pobrezas?
CR - Não. Muitos dizem isso, mas é o contrário, os governadores iriam se concentrar naquela região. Não haveria mais Teresina, Parnaíba, Campo Maior, Piripiri. Então, o Sul sempre foi esquecido... Eu fui considerado o primeiro governador a olhar para o Sul...

JCM - O senhor tinha que conciliar expectativas com as possibilidades, porque Parnaíba esperava muito do primeiro governador.
CR - Pois é. Eu realmente fiz alguma coisa. As estradas no Norte, colégios, hospitais.

JCM - Agora, como é que era um parnaibano, estreando no governo, o primeiro vindo de Parnaíba, se aliar no meio das raposas pedessistas em Teresina?
CR - Não, em primeiro lugar, eu não vinha propriamente de Parnaíba. Eu vinha da Faculdade de Direito do Recife, da Faculdade de Direito de São Paulo. E vinha da capital da República, com toda essa experiência. Eu só vivi em Parnaíba até a conclusão do curso gina-sial. E, com essa mentalidade que eu já tinha, não é?, de olhar o Brasil, olhar o Piauí todo, ser contrário a discriminação contra o Nordeste, e assim por diante. Com essa mentalidade foi que eu governei o Piauí e fui pioneiro em muitas coisas, e, se não fui pioneiro, como na educação, porque já encontrei uma Escola Normal, um colégio, pelo menos criei colégios, intensifiquei colégios. Fui pioneiro porque criei no litoral e criei no interior.

JCM - Diante de um governo, que foi tão importante, porque foi um divisor de águas e da sua trajetória como democrata, o senhor acha que podia ter feito mais na política, podia ter liderado por mais tempo?
CR - Não, eu fui por muito tempo. Poucos políticos... eu fui deputado federal em 50.
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JCM - O senhor foi prejudicado pela suspensão dos direitos políticos!
CR - É. Fui reeleito em 54, em 58, em 62.
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JCM - Foi o mais votado em 82 e perdeu a eleição.
CR - É, fui o mais votado para o Senado em 82.
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JCM - Mas ficou fora do Senado 8 anos.
CR - É, mas em 86 eu fui eleito.

JCM - O que aconteceu, que o senhor sai do governo e perde a eleição para senador?
CR - São essas coisas. Eu sai do governo, mas sai pobre. Não tinha dinheiro para gastar com campanha.

JCM - Quer dizer, já naquele tempo era assim?
CR - É. E, por outro lado, eu fui eleito com expressão nos grandes centros, Teresina e Parnaíba. Eu lutei muito pela alfabetização do Piauí. Fiz muito, mas não pude fazer tudo.

JCM - Com a volta do PSD, que depois da sua eleição, depois do seu governo, foi eleito um candidato da UDN, apoiado pelo PSD. É o surgimento de Petrônio Portela. O que o senhor achava do Petrônio? Já pressentia nele a grande estrela política.
CR - Sim. Nós fomos aliados. Nós fomos do mesmo partido. Depois, fui para outro partido, ele continuou na UDN. Tanto assim que a UDN e ele me apoiaram para governador. Nós éramos adversários, mas não inimigos. Quando Petrônio se elegeu prefeito, eu me elegi governador. Fizemos campanhas juntos. Ele prefeito de Teresina. Eu governador. Ele era o meu candidato a governador. Eu queria que ele me sucedesse.
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JCM - Como candidato da UDN apoiado pelo PTB?
CR - Eu queria que fosse assim. Como a UDN havia me apoiado, eu achava justo que...
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JCM - O que deu errado?
CR - Deu errado porque é a tal coisa, em política. Se até no Supremo Tribunal Federal os ministros divergem quanto aos votos e divergem honestamente. Em política também. O senador Matias Olímpio, que era o presidente do nosso partido por quem eu tinha grande respeito e admiração, ele foi contra. Ele achava que nós devíamos fortalecer o partido. Eu disse assim: eu não vou sair do partido político por isso. Mas, o pessoal do Petrônio ainda me convidou para deixar o partido e sair candidato ao Senado. Eu disse: não mudo de partido para ser candidato a nada.
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JCM - Eu quero falar agora da sua experiência no Senado Federal.
CR - Minha experiência no Senado, para mim, foi benéfica. O Senado é uma grande escola política. Eu tive a satisfação e a honra de ter grandes companheiros lá. No Senado, fui um dos fundadores do PSDB com Mário Covas, Fernando Henrique e outros companheiros. E elegemos Fernando Henrique senador e líder da bancada. E ele fez questão de me apontar como o seu primeiro vice-líder. A bancada aceitou. Depois que ele foi ser ministro, eu fui eleito líder. Fiquei só um ano. Fiz questão de mostrar que o candidato natural era Mário Covas, que, inclusive, precisava ser eleito governador de São Paulo, como foi. Eu até queria que fosse antes, mas foi o próprio Mário Covas que disse que eu devia ficar na liderança até o fim da sessão, pelo menos. E então depois da minha liderança veio a liderança de Covas. E os companheiros do senado foram também muitos generosos, me indicaram para o maior posto da bancada, o de primeiro vice-presidente do Senado. E a Convenção do PSDB me elegeu presidente do Conselho Nacional de Ética do partido. Uma missão um pouco ingrata porque tinha que julgar alguns companheiros.

JCM - O senhor tem perfil mais de Legislativo do que de Executivo?
CR - Não. É porque passei mais tempo no Legislativo. Mas gostei. Não pretendia ser reeleito, nem era possível na época.

JCM - Agora vou voltar o enfoque para os dias atuais. O que está acontecendo no Brasil. O que acontece no Piauí. Nós acabamos de eleger um operário e elegemos uma pessoa também de classe média baixa, um funcionário público que não tem uma tradição na política, nem pertence a nenhuma família, nem tem resquícios dessa família, de famílias tradicionais do Estado. O que nós podemos esperar? Nós realmente estamos vendo um novo Brasil surgindo ou estamos apenas enfrentando uma fase passageira, um momento na política brasileira?
CR – No mundo inteiro há uma grande tendência. O progresso social e o progresso moral, inclusive na política. Os políticos tradi-cionalmente foram sempre considerados... Nos Estados Unidos, em pesquisa, eles lá consideraram as profissões com maior número de desonestos: a política, o jornalismo e a advocacia. Pois bem, isso está mudando no Brasil. Pela primeira vez nós tivemos um presidente que foi afastado. Tivemos senadores, deputados, sendo julgados. Ex-prefeitos, ex-governadores. Então, está havendo um progresso moral e um progresso social.
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JCM - No Piauí, é uma oportunidade única. O presidente do mesmo partido, com canal direto com o governador. O governador que entra legitimado por uma grande maioria, sem compromisso partidário. Se o senhor pudesse dar uma receita ou dar uma opinião, sugeriria o quê?
CR – Não. Ele é competente. Fazer política é isso: trabalhar pelo povo, trabalhar honestamente, não admitir que ninguém seja desonesto. O desonesto deve ser afastado. E ele, por exemplo, tem uma oportunidade de contar com um correligionário na presidência da República, que poderá ajudar o Piauí e ajudar o governador do Piauí. Então, eu acredito que, com a nova mentalidade que esta surgindo, os interesses nacionais acima de tudo, os interesses estaduais, municipais, não é a política partidária que vai impedir isso. Então, eu acho que os outros candidatos todos devem colaborar.

JCM - Eu sei que o senhor é a favor da divisão do Estado, da criação do Gurguéia.
CR - Eu sempre disse que eu sou do Norte. Uma vez me pediram para liderar essa luta no Piauí. Eu não posso liderar. Eu sou do extremo Norte. Agora, o que eu acho é que, nós, no Piauí, devemos fazer como os goianos, devemos respeitar a vontade da outra parte. No Goiás, a parte do Norte. Então, nós, os Nortistas, devemos respeitar isso. Os Sulistas é que vão decidir isso. Se eles quiserem criar o Estado, devem ter o nosso apoio.
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JCM – Eu perguntei aos produtores de soja lá na Região do cerrado o quê eles esperavam do novo governador: incentivos fiscais, energia elétrica. O da família Bertolucci, que é o pioneiro, gaúcho, disse: “Nós precisamos de três coisas: estradas, estradas, estradas”. Quer dizer, não seria, talvez, tão necessário dividir, mas que houvesse um projeto para o Sul do Estado, que parece ser a redenção econômica da Região.
CR – Eu inaugurei a primeira estrada de Oeiras a Simplício Mendes. Construí e inaugurei. Eu completei a estrada de Gilbués à Corrente. Eu iniciei uma estrada indo de Floriano até Jerumenha...

JCM – Nós somos o último estado a ser colonizado, o último a ter uma moeda, o último a ter políticos - os nossos primeiro governadores eram de fora – nós somos ainda o Estado com maior número de analfabetismo. Em alguns lugares não existem estradas, ainda estão sendo feitas. Agora, a população do Piauí toda é quase igual a de Fortaleza. O que o senhor acha, o que tem atrapalhado tanto o nosso desenvolvimento, o que está demorando tanto a chegar?
CR – Primeiro lugar, a mentalidade dos governantes, é preciso que o prefeito e governador trabalhem pelo progresso, pelo desenvolvimento social, que atraiam empresários para que realizem obras, e que tenham algum prestígio, consigam se impor junto ao presidente da República, Os senadores, deputados federais, governadores, todos devem lutar para conseguir recursos. Eu fui o primeiro congressista a conseguir recursos para barragem de Boa Esperança. Eu fui o primeiro congressista do Piauí a conseguir verbas para o início das obras do porto marinho.

JCM – Essa questão do porto, por exemplo.
CR – O porto trará um grande progresso ao Piauí, mas fazem é rir.
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JCM – Mas é possível ainda?
CR – Claro. Todo Estado, todo país marítimo, todo Estado marítimo tem porto. É o desenvolvimento que faz com o Piauí... O Ceará agora já tem um segundo porto, Pernambuco, um segundo. Nós não temos porto, é uma tristeza.

JCM – Também tem um pouco de culpa da nossa classe política, não?
CR – Eu não quero falar...

JCM – Mas, eu queria uma opinião sincera...
CR - Estou dizendo que fui o primeiro congressista, entre senadores e deputados, a incluir no orçamento verbas para projetos, estudos, projetos e início de obras do porto marítimo. Depois, houve um equívoco, um governador, talvez de boa fé, acredito, abriu uma concorrência, uma firma do Ceará ganhou, essa firma, até hoje não colocou uma pedra no porto. E o que estranho, não houve a rescisão do contrato nem até hoje ela não foi acionada para responder pelos prejuízos. Nós devemos, imediatamente - eu estou fora da política -, rescindir este contrato para que o deputados possam continuar conseguindo verbas orçamentárias para as obras do porto.

JCM – Bom, 80 anos de idade, 50 desses dedicado à política, mais de 50. O senhor vê as mudanças, olhando para o Congresso, morando na Capital Federal, olhando para a perspectiva de mudança no Estado, o que é a nostalgia de um político que abandonou a carreira?
CR – Não, abandonei porque tudo tem tempo, chegou o momento. Eu achei que o momento de começar fosse aquele. Muitos acharam que foi cedo demais. Eu acho que agora em janeiro de 95 eu terminei. Sobretudo, por motivos de saúde. Não tinha mais condições de...

JCM - É uma decisão dura?
CR – Não. Não. Aceitei as coisas. A gente tem que aceitar as coisas, os fatos, a realidade. Eu já havia trabalhado muito. Poucos políticos passaram tanto tempo, foram eleitos tantas vezes... O que é que eu ainda queria mais? Então deixei. Graças a Deus, olho para trás e deixei alguma coisa, algum exemplo...
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JCM – O senhor foi citado no episódio da prisão do líder estudantil Honestino Guimarães. Recentemente a Embrafilme lançou um docu-mentário sobre uma obra dele em que ele conta que foi protegido e que ficou escondido no seu apartamento, em Brasília. O senhor se lembra desse episódio?
CR - Lembro-me. Lembro-me perfeitamente. Eu sempre fui contra ditaduras, todas as ditaduras, principalmente no Brasil. E sempre procurei ajudar os perseguidos, porque eu fui um perseguido político. Passei maus momentos. Perdi o meu mandato, sai da minha vida pública, eu era um político, não pude reassumir o cargo que conquistara através de concurso público...
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JCM – Ele o procurou, o Honestino?
CR – Ele prontamente chegou a mim através de pessoas amigas, parentes. Eu disse: pode vir que aqui terá acolhida e nós o protegeremos.
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JCM - Ninguém sabia que ele estava lá?
CR - Não ninguém sabia. Tanto tempo e estava correndo o risco de ser preso por ser subversivo, perder o mandato.

JCM - Quanto tempo ele ficou lá?
CR - Olha, agora estou em dúvida se eu já tinha perdido o mandato. Eu não me lembro bem a época, mas o que é fundamental é que, se não tinha perdido o mandato, eu estava ariscando o meu mandato. Ele ficou lá algum tempo. Depois ele saiu. O tempo que ele precisou ficar, ficou.

JCM - Esse episódio ficou conhecido. Esse foi um momento mais difícil da história do Brasil, não?
RG - Foi uma ditadura terrível, mas já estamos livres e confiamos que o país não voltará mais a ter esses tempos duros.

JCM - Já está em processo da redemocratização do país.
CR - O país esta tomando consciência. As universidades cada vez com número maior de alunos, O jornalismo se desenvolvendo. Os índices sociais no Brasil estão melhorando, não tanto quanto precisaria, mas estão melhorados.
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JCM - Nós temos um país melhor?
CR – Um país melhor. Se o número de analfabetos é cada vez menor, se a mortalidade infantil é cada vez menor, os índices de mortalidade materna, e assim por diante.

JCM - Mas, o desemprego, a violência, a globalização?
CR – A violência hoje e a globalização são desenvolvimentos negativos. Isso você vê em toda parte. Em toda grande cidade é uma tristeza, mas o governo tem que reagir e tem que lutar contra isso.

JCM - A humanidade caminha para uma solução?
CR - Eu acredito que sim. Acredito que os índices são positivos, a perspectiva é positiva.

JCM - Obrigado!
CR - Eu que te agradeço.

JCM - O senhor, hein! Parabéns pelos 80 anos.

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