sábado, 14 de agosto de 2010

Doido por Carros

Puxador de carros, o desconhecido.

Elmar Carvalho


Sempre o vejo, perto do semáforo do cruzamento das avenidas Petrônio Portella e Duque de Caxias. Vem de longe ou vai para longe, a descer ou a subir a ladeira do Parque da Cidade. Caminha puxando o seu minúsculo carro de brinquedo. Mas não é nenhuma criança. Deve ter mais de trinta anos. É o que o vulgo convencionou chamar de doidinho. Todos os dias fica, pontualmente, no semáforo, como se estivesse a cumprir uma jornada de trabalho, a passar sua esfarrapada flanela nos carros, que esperam a abertura do sinal verde. É como se fosse um ritual; contorna o veículo a lhe esfregar o velho trapo vermelho. Parece estar cumprindo uma obrigação. Não espera receber moedas, pois nunca as solicita. Se algum motorista lhe oferta alguma, não lhe dá a mínima importância, e a guarda displicentemente no bolso, quase como se estivesse a fazer um favor a quem a deu.

Soube que uma pessoa bondosa lhe deu um carrinho novo de presente. Parece não ter dado importância ao mimo, uma vez que continuou a puxar o seu diminuto e velho brinquedo. Talvez tenha ficado com pena de deixá-lo esquecido, no canto, como se costumava dizer antigamente, por causa de um novo amor. Poucos dias atrás, o vi a puxar por um cordão um de seus velhos carrinhos. Era um caminhão, com duas desproporcionalmente grandes rodas dianteiras, sem nenhuma na parte de trás, que lhe faziam empinar a frente, como um avião sem asas e sem voo. Vi quando ele fez o brinquedo dar o chamado “cavalo de pau”, a rodopiar sobre si mesmo. Admirei-me disso, pois ele é muito circunspecto, e até mesmo a usar um brinquedo não gosta de brincadeira, e não sorri. Aparenta viver hermeticamente fechado em seu mundo de silêncio e demência, porquanto não liga a mínima para os passageiros, mas apenas cumpre religiosamente a sua auto-imposta tarefa de “abanar” os carros com a sua escassa tira de flanela. Tudo indica que vive num mundo só dele.

Em sua mansa loucura, nunca o vi furioso ou revoltado, mas apenas a cumprir, como um autômato, o mister que impôs a si mesmo. Mas me contaram que outro dia ele se revoltou contra uma ambulância. Ficou bastante agitado, e em lugar de seus afagos flanelísticos, quis espancar o carro. Embora sem nenhuma vocação detetivesca a la Sherlock Holmes, e sem o adjutório do bom e elementar caro Watson, deduzi que, numa de suas crises, pois até os chamados sãos têm as suas, alguma ambulância deve tê-lo levado para longe de seu rebanho de carros, para confiná-lo em algum hospício, onde lhe devem ter aplicado alguma dolorosa injeção medicamentosa, ou onde lhe podem ter ministrado alguma dosagem/voltagem de choque elétrico, que, segundo ouvi um psiquiatra dizer, ainda tem a sua eficácia, não se tornando, ainda, de todo obsoleto e banido do mundo da medicina. Oxalá, tenha sido excluído das práticas de tortura, que não mais deveriam existir; que, aliás, nunca deveriam ter existido.

2 comentários:

cj disse...

Todos nós temos o nosso mundo. E vendo bem ele é feliz.

Cleyson Gomes disse...

"De homem a homem verdadeiro, o caminho passa pelo homem louco".
(M. Foucault)