terça-feira, 6 de outubro de 2009

Para não dizer que não falei do Nós&Elis

Rubervam du Nascimento. Foto de Kenard Kruel.

Rubervam Du Nascimento*

Eu que, confesso, sempre me considerei um bicho xucro, não muito chegado à noitadas em bares e hoje muito mais escondido em um kibutz contemporâneo de chão e nuvens de ferro e cimento na zona leste da capital que, somente em situações muito especiais ou forçado por circunstâncias do ofício de servidor público, deixo por pouco tempo o mundo dos meus livros, da poesia, da escrita, da poeta Carmen Gonzalez, Rudah e Inda, poderia ficar calado em relação ao que se está escrevendo sobre um espaço que nos 80 foi freqüentado por jovens da minha geração, mas não vou ficar em silêncio, darei o meu testemunho por entender que esse espaço foi o responsável não só pelo surgimento mas, sobretudo, pela afirmação de valores artísticos que feriram de morte a ingenuidade artística e destruíram a mesmice cultural da terrinha. Eu que passei alguns bons momentos no Bar Nós e Elis, do inesquecível amigo Elias do Prado Júnior, em mesas onde sentaram pessoas que caminhavam comigo naquela época, entre as quais poetas, músicos, fotógrafos, artistas plásticos (lembro-me que estive alguma vezes no Nós e Elis acompanhado do Fernando Costa) que até hoje ajudam a Pulsar as cordas e os sons do coração e das cores das palavras, nesta distanter-e-sina, relatarei três acontecimentos de que fui testemunho e julgo importantes à memória não somente de um bar, mas desta cidade que, a despeito das atenciosas manifestações de apreço e considerações protocolares de quem se apresenta como seus defensores perpétuos, está fadada à morte e ao esquecimento. Exemplo? O costumeiro desprezo dessas figuras pela arquitetura de seus prédios, nomes de antigas ruas e logradouros públicos, irresponsavelmente modificados, sem qualquer preocupação com o que representa essa destruição para as gerações que se seguem. Vamos então ao relato das conversas no Nós e Elis no final de alguma tarde, ao sair das aulas da UFPI ou boca de noite e madrugadas de Bar, levado por algum evento literário que me chamava a atenção. O primeiro, o lançamento do livro: Percurso do Verbo do poeta Ramsés Ramos, quando foi lido pelo autor um Manifesto Poético onde se referia a todos os poetas vivos de nossa geração. O Ramsés tinha plena consciência que havia à época um movimento cultural na cidade que mobilizava uma quantidade considerável de jovens identificados com o que acontecia como proposta de ruptura cultural e política no Brasil e no mundo, sendo ele um dos protagonistas desse movimento, cuja história já se encontra, pouco a pouco em resgate; uma geração composta de artistas das mais variadas vertentes que aqui nasceram, ou se fizeram piauiense, alguns com atuação não só local mas nacional e, muito mais, sabia que essa geração se constituiria, como hoje se constitui no “prego no sapato” da arte e da cultura em nosso Piauí. Um Manifesto lírico de nosso tempo, cujo suporte era a poesia e as experiências de vida de quem seguia experimentando os caminhos das transformações do mundo das artes em nosso Estado; manifesto que, se for localizado a cópia, (quem sabe a Carla Ramos não o possua entres poemas e outras peças deixados pelo Ramsés! ou esteja editado em algum jornal) pode servir como texto de releitura, durante A Noite dos Cavalos de Dom Ruffato que estamos preparando para comemorar o nascimento de poetas e artistas de nosso tempo que foram embora para Pasárgada, incluído o Ramses Ramos. Outra Conversa de Bar num início de noite que versava sobre a poesia do Mário Faustino, presente o nosso professor Carlos Evandro Eulálio que a certa altura emendou: se o Mário estivesse vivo estaria criando hoje em alto e profundo barroquismo. Também concordo. Será que o Carlos Evandro lembra dessa conversa e dessa noite?

Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias

E a conversa entre músicos e poetas da terra, cujas notas dissonantes giravam em torno de uma pergunta que até hoje nos incomoda e não tem resposta definitiva: letra de música é ou não é poesia? Lembro da dispersão do grupo provocada pela sentença aos berros do professor José Maria de Vasconcelos, sentado à mesa, não sem antes declamar em voz alta o poema, A Construção do Chico Buarque: letra de música também é poesia. Será? Aconteceram outros momentos no Nós e Elis em que estava presente e de que me lembro mas não quero relatar aqui, pois acredito que é preciso guardar parte da matéria-prima da fábrica de imaginação que funciona em lugares como o Bar Nós e Elis, para que continue como substrato capaz de alimentar a qualquer momento o exercício da criação. Bom tempo aquele, não? Concordo com o lema que rege esse roteiro de lembranças: a gente era feliz e sabia disso. Que pena, o tempo passou tão rápido e levou nas costas dos ventos o Nós e Elis! Acredito que bares como o Nós e Elis não existem mais!. Penso que hoje as conversas estão alheias a tudo e a nada que infestam o barulho doentio das boites, bares, restaurantes e de outros cantos, onde come-se e bebe-se de um tudo, menos o néctar inquietante dos deuses que somente a poesia sabe preparar para tornar as tardes e as noites mais agradáveis, menos violentas e dignas de registro futuro.

Rubervam Du Nascimento, poeta, cidadão teresinense por conta própria, desde 1972, onde concluiu em 1984, o curso de Ciências jurídicas e sociais na universidade Federal do Piauí. Quatro livros de poemas editados, entre os quais: A Profissão dos Peixes, 2ª edição, revista e diminuída; MARCO Lusbel desce ao Inferno; Os Cavalos de Dom Ruffato e o mais recente: Espólio, 1º lugar no Premio Nacional da Livraria Asabeça/SP.

Um comentário:

Airton Sampaio disse...

Eu decidira não tocar mais nesse assunto. E respeito profundamente a decisão do poeta Rubervam du Nascimento de embarcar nessa onda de nostalgia sem consequências. Mas, pô, quem escreveu o magnífico Os Cavalos de Dom Rufatto precisava mesmo produzir um textículo tão piegas? Isso é coisa pra ex-sindicalista...