quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A Morte do Rei Arthur

O menino Arthur aos 10 anos num balneário do litoral piauiense

Chico Castro

Presumo que deixarei de lado a minha modéstia de pai coruja. Meu filho Arthur Cury da Costa Castro, de 18 anos e quatro meses de idade, era uma dessas pessoas que a morte deveria ter levado para bem depois do fim das cores do Arco-Íris, onde antigamente se dizia existir um encantado pote de ouro. Puro de coração,não fazia acepção de pessoas, não pôde e nem quis conhecer os atalhos da maldade, nem a concupiscência da vida.

Desde pequeno demonstrou de forma cabal o grande homem que não chegou cronologicamente a ser. Teve, no entanto, tempo suficiente para superar a si mesmo, e ser maior do que muitos de nós. Hoje eu penso que um anjo de pernas tão longas, braços tão compridos, olhar tão doce, tudo isso só  não poderia ser senão um sinal perfeitíssimo muito próprio de quem  soube amar as maravilhas criadas pelas mãos invisíveis do Eterno.

Ainda criança, percebia a miséria alheia bem antes de ter a consciência de que vivia num país inseguramente desigual. Levei-o diversas vezes ao Theatro 4 de Setembro, à época em que ele pensava que os atores moravam por detrás das cortinas vermelhas. Mostrei-lhe várias casas antigas do centro da amada Teresina, para indicar que ali ou acolá moraram, décadas atrás, pessoas ilustres da nossa cidade, ou até mesmo mostrar as casas mais simples onde ali vivera outras tantas personagens, que nunca serão mencionadas pela sanha devoradora da mídia tebana.

Tinha eu o maior orgulho de sair com ele e os irmãos para os lugares mais chiques e mais bregas da Cidade Verde. Apresentei-os a quem encontrava pelas ruas e veredas do meu coração. Lembro-me muito bem de vários episódios que agora, nesta hora aguda da minha existência, me fazem verter as mais ardentes lágrimas que um pai pode chorar de saudade de um filho que partiu, mal haviam surgidos os primeiros raios de sua dourada  existência.

No início do novo milênio,quando levei o DVD do filme O Corcunda de Notre-Dame, notei que ficou em silêncio com as cenas trágicas, e que abrira um largo sorriso nas cenas engraçadas de um dos personagens mais marcantes da universal literatura francesa.

Adorava as muitas vezes em que eu pegava na sua cabeça, e dizia:  “quem quer a coroa”? Para designar uma brincadeira inventada por mim, e que ele dava sonoras gargalhadas. E logo ele vinha à frente: “Eu quelo, papai”. E ficava rodando que nem um pião, enquanto a minha mão também o rodopiava pela sala.Sem ainda articular bem as palavras da língua de Camões, chamava borboleta de “iêta”, formiga de “fubica” e almoçar de “albochar”.

Hoje, ao completar 15 dias de seu falecimento, posso afirmar que é triste mandar rezar a missa em sufrágio de sua alma, como foi arrasador para a mãe comprar a roupa para vesti-lo, as flores para enfeitá-lo e escolher o local sagrado do sepultamento. Ganharia e depois doaria toda a fortuna do mundo se pudesse tê-lo  novamente ao nosso lado.

Depois da de Cristo, a maior e mais dolorosa via-crucis, é visitar o túmulo de um filho. A sensação de desamparo, ao sair do cemitério, é pior do que ordenar o fechamento do caixão. Bem sei que morte faz parte da vida. Porém o sentimento de deixar o local santo é um fantasma que me espanta de um modo singular e sussurrante como se apresenta. É como se eu o deixasse ao relento,abandonado à terra seca, ou o entregasse aos desígnios da soberana lua  da meia- noite.

Foi necessário esta dura e inesperada separação para saber que o problema da morte não é o coração de alguém simplesmente deixar de pulsar, mas a ausência do vivo, que, agora inerte, não distingue mais o dia da noite, o frio do quente, o som do silêncio, a aurora do pôr-do-sol.

Quem morre leva uma considerabilíssima vantagem em relação aos vivos que deixou. Meu filho Arthur agora pode voar no céu desafiando as barreiras das leis da gravidade, atravessar as paredes do tempo e a poeira das galáxias, contemplar do alto a dança dessas singelas palavras de um pai órfão de filho. Que posso eu escrever mais diante de tamanha grandeza? A não ser ter a plena convicção de que o encontrarei, sabe Deus quando, num belo dia, no outro lado do Paraíso.

Chico Castro, poeta, jornalista, historiador, pai órfão de Arthur.

PS.: a kenard kaverna não pode mensurar a dor do poeta chico castro, porque ninguém pode mensura a dor de um pai que perde um filho, nem mesmo outro que perde o seu próprio filho, porque cada um tem um sentimento diferente, mas estar com ele neste e em todos os momentos de sua vida. testemunho que chico castro é um pai exemplar. amoroso. cuidadoso. respeitoso. por onde anda, sempre se faz acompanhar de suas crias. com orgulho apresenta cada um, da mesma maneira. é só quando eu vejo realmente o poeta chico castro feliz por completo, quando está com as crias por perto. foi-se uma, o nosso querido arthur castro, mas ficam as demais. que agora, mais do que nunca, com certeza, se unirão mais naquele um por todos e todos por um (pai herói). com dizia o poeta da costa e silva: saudade - asa de dor do pensamento. pensemos, poeta chico castro, pensemos sempre no arthur, ainda que na dor da saudade. mas, lembrando que os bons deus os leva cedo. não que devamos ser maus para vivermos longamente. aqui no sentido de: o senhor é meu pastor e eu não perecerei. (do amigo, em soluço e oração, kenard kruel).

7 comentários:

Maria Gorete disse...

Querido Chico Castro, amigo de lutas, de ideiais, neste momento realmente nao nos assumam as palavras certas, porque elas nao existem... nada posso dizer que diminua tua dor, companheiro, de pai.
Apenas digo que derramo, por vcs, os pais de Arthur, uma sincera lágrima.
Por ele, o anjo Arthur, sei que apenas o que precisa agora é saber que nós, os que ainda somos errantes nesta terra, seguimos a caminhada - ainda que aos trancos e barrancos. Nos veremos outra vez!
Amigo, que Deus e o anjo Arthur afaguem vcs num abraço divino de consolo. Um grande abraço meu!!

Gorete Gonzaga

Poeta Elmar Carvalho disse...

Quero me solidarizar com o poeta e historiador Chico Castro, que conheci nos idos de 70, em Parnaíba, neste momento de muita dor. Faço minhas as sábias palavras de conforto do Kenard, pois nesses momentos nos faltam palavras adequadas, se é que elas existem. Dizem que a maior dor que existe é um pai ou uma mãe perder um filho, sobretudo de forma tão precoce, em pleno florescer da vida. Que Deus dê o necessário conforto ao amigo Chico Castro, neste momento de dor extrema!

Dodó Macedo disse...

Querido Chico,
Se há algo que lhe possa confortar, caro poeta, certamente é saber-se possuidor de um coração aconchegante, onde o menino para sempre estará abrigado.
Um grande abraço.

Ideário Oeirense disse...

Chico, querido! A dor da perda e da saudade é imensa. A única coisa que pode diminuir isso é a cereza de que a separação é apenas uma viagem e que o reencontro se fará um dia. Nada há a temer na morte por que, na verdade, é ela o momento mais elevado da vida. Afetuoso abraço! _/\_
Kenard! Saudade... afetuoso abraço!
Josevita

EMERSON ARAÚJO disse...

Chico Castro, não se tem palavras numa hora dessa. Só lágrimas, meu amigo, só lágrimas, nada mais. Receba as minhas lágrimas nesta hora de dor e minha solidariedade, também. Uma certeza, os nossos filhos são tesouros que Deu nos deu, se ele retoma as jóias, fazer o q, né? Ele é Deus e tem mais este direito! Fica a dor!

Cinen de Sousa disse...

Caro Chico, aceite minha compaixão... A vida é boa! Mas segundo as escrituras sagradas, “para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não se separam. Andam uma ao lado da outra como irmãs.
O que conforta é saber que ao morrer deixamos todas as conquistas, levando apenas o que fomos, - a essência, nada mais...

Unknown disse...

Caro Chico Castro,
Nosso contato é pequeno apesar de vê-lo, todas as terças-feiras, na Novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Vila Operária.
Quando o Dodó me falou fiquei sem acreditar. Só hoje tive coragem de ler seu relato e a emoção rolou solta...
Nada que eu (ou qualquer pessoa) lhe diga irá amenizar sua dor, mas uma coisa tenho certeza que lhe dará forças: a fé em Deus e em Nossa Senhora do Perpétuo Socorro...
Abraços.
Laura Macedo