Emílio Santiago. Foto sem crédito.
Paulo Aquino
Emílio no Pret-a Porter - No ano de 1986, ou 1987, não tenho bem certeza qual, (o GB sabe, ele lembra de tudo quanto é data) por ocasião de uma das edições do projeto Pixinguinha, que acontecia no Theatro 4 de setembro, tive a oportunidade de presenciar um grande show do cantor Emílio Santiago; a música da hora era "Prèt a Porter de Tafetá", de João Bosco e Aldir Blanc, que o Emilio imortalizou com sua fenomenal interpretação. Após o show no Theatro, como era praxe, os artistas que lá se apresentavam iam até o Nós e Elis pra conhecer, dar canja, se divertir e até dar um showzinho particular, como foi o caso, nessa noite, do Emilio; lá pras tantas, depois de muitas caipirinhas na cabeça, formou-se uma roda com alguns músicos de sua banda e uma boa platéia ao lado do bar, em frente à pracinha, e o desbunde começou... Os músicos fazendo côro e batendo palmas e o Emilio cantando Prèt a Porter de Tafetá, dançando, requebrando legal, desbundando total, e soltando a franga geral! Assim rolou essa festa por umas boas horas; foi muito divertido vê-lo completamente solto com o incentivo da platéia, com seus requebros, maneiras e trejeitos, sacudindo as plumas, arremessando os paetês e brilhando quais lantejoulas reluzentes... Tava divina (a noite).
Beatriz, a Musa do Circo - A música Beatriz, do musical “O Grande Circo Místico” de Chico Buarque e Edu Lobo, de melodia e harmonia jazzística, belíssima, muito dificil de cantar e tocar, era uma das preferidas da Zezé Fonteles, uma das Personas gratas do Nós e Elis, e que também fazia parte do seu Cast. Irmã do Jabuti, do Tim, da Tania e da Nazaré Fonteles, ela cantava e tocava bem, a exemplo de seus irmãos; era uma família de grandes músicos e todos tambem tocaram e cantaram lá, menos a Nazaré, que foi arrendatária do bar alguns anos depois. Sempre que chegava, Zezé ia até o palco e me pedia: Paulinho, cante minha musica... e eu já sabia que se tratava de Beatriz, pois ela sempre dizia que só eu cantava e tocava essa musica; podia até ser, não sei, mas ela sabia o que dizia. E lá ficava, embevecida, extasiada, ouvindo, devorando a musica, e me transmitindo via osmose, toda essa empatia cancioneira. Era bom cantar “Beatriz” pra quem sabia ouvir; era tão bom cantar no Nós e Elis pra uma platéia cativa que sempre sabia ouvir... Lá, a platéia era minha pátria, e a música minha língua; então ficávamos assim, numa lingua-pátria homogênea, deliciosa, inteligível, cúmplice; alô Cae, fala Macieira!
Toninho, o audaz - Conta-se que Toninho Horta, ao chegar no Berklee College Of Music de Boston, nos EUA (por lá também passou nosso grande Luizão Paiva) teria sido aconselhado e convidado a dar aulas, ao invés de estudar, tamanho era seu conhecimento harmônico e melódico; na verdade, Toninho é uma escola, uma tendência musical completamente diferenciada de tudo que já se ouviu no campo harmônico e melódico no mundo, uma escola única que não se resolve no convencional, aliás, nunca se resolve, deixa sempre uma harmonia suspensa, com vertentes diversas buscando novos caminhos, que ele sabe que existem, pois ele os inventou; a isso chamo carinhosamente de escola mineira, da qual Toninho Horta foi seu grande precursor junto a outros grandes nomes da musica das Minas Gerais, do Clube da Esquina, como Milton Nascimento, Beto Guedes, Lou Borges, Flavio Venturini, Vagner Tiso e muitos outros além de adeptos da nova geração dessa escola, como Beto Lopes. Estava eu lá, no Nós e Elis, tocando, cantando, feliz da vida quando um garçom me trouxe um papel com um pedido de musica no qual estava escrito: Beijo Partido, de Toninho Horta; ora, tinha-o conhecido recentemente no 1º Seminário de Musica Instrumental de Ouro Preto-MG, organizado por ele, do qual participei como aluno. Comecei a tocar e cantar a musica e vi que um rapaz se aproximava do palco, com uma guitarra em punho; parei de cantar e ele perguntou se podia me acompanhar naquela musica; fiquei perplexo, pois sabia de sua complexidade harmônica... Vamos lá amigo, pluga aí sua guitarra; nos apresentamos: – Prazer, Paulo Aquino; – Prazer, Beto Lopes... Poxa, era o Beto Lopes quem estava ali, trazido pelo meu amigo Aloísio Jr. pra tocar comigo! Estava em Teresina acompanhando uma cantora, que não lembro quem era. Um cara que estudou com o próprio Toninho, imagina! Mas eu tocava muitas musicas dele, quase todas; e começamos por Beijo Partido, visitamos Diana, voamos pelo Céu de Brasília, andamos de carona no Manuel, o Audaz, incursionamos com Dona Olímpia pelas ladeiras de Ouro Preto, depois, Era só começo o nosso fim, e mais outra, e desfiamos um repertório fantástico entrando Horta adentro, com o Beto quebrando tudo na harmonia e improvisos e eu cantando, fazendo as harmonias certinhas que tinha estudado, e ele cada vez mais admirado de ver que em Teresina alguém tocava as musicas do grande Toninho Horta, o cara que foi pra Berklee estudar e terminou foi ensinando harmonia aos americanos... (dizem, eu acredito) Essa noite foi uma das mais gratificantes e felizes que passei no Nós e Elis, pois saí de lá completamente em transe, o corpo levitando, a alma lavada, embriagado com tanta harmonia; e tenho certeza, a platéia que estava lá, também.
*Paulo Aquino é Músico
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